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Por que precisamos de uma terceira via para 2022

O poder nunca é exercido sozinho: com Lula e Bolsonaro na arena, o discurso não dito é tão importante quanto o dito

Por que precisamos de uma terceira via para 2022

Bolsonaro conseguiu, finalmente, recriar seu opositor. Como não vive sem um inimigo, afinal, para o presidente, guerra é paz, e esses anos de governo tinham sido um tanto entediantes, agora Bolsonaro pode mirar sua artilharia para um alvo. Luiz Edson Fachin trouxe Lula de volta. Se antes tinha sua narrativa protagonizada pela política amigo-inimigo, agora vem com paz-amor. Em seu discurso, Lula deixou claro que quer ser hegemônico na esquerda, mas não se absteve de estreitar seus laços com o centro, falando em diálogo com o Congresso, coisa que o atual presidente não consegue fazer. Numa das maiores críticas ao bolsonarismo Lula enviou recado aos militares dizendo que a compra de armas não deve ser prioridade e deixou Bolsonaro na defensiva. Falou em coronavírus duas dezenas de vezes. Foi teatral ao assumir o microfone e limpar com álcool em gel.

Em análise de discurso o não dito é tão importante quanto o dito. Charadeau chama a atenção para o fato de que os códigos de manifestação no discurso são lugar da encenação. O poder é exercido sempre de forma sutil, e não é edificado sozinho. A sutileza é fator importante. Lula fez Bolsonaro reagir. Pateticamente Bolsonaro usou máscara, fez campanha pela vacinação e segue dando sinais de que foi atropelado pelo ex-presidente. É carismático para sua bolha que permitiu, num vácuo irracional, que o parlamentar de 27 anos insípidos de Congresso ocupasse uma cadeira que não lhe cai bem. Mas como disse Stuart Mill, a eleição de representante ou espelha ou reproduz a composição do eleitorado.

“O poder é exercido sempre de forma sutil. Lula fez Bolsonaro
reagir. Pateticamente”

Em meu pós-doutorado em Comunicação e Política analisei 1,5 mil pronunciamentos (1991 a 2019) de Bolsonaro e ele nunca tocou em assuntos relativos à saúde. Nem em qualquer outra pauta que não fosse o aumento aos militares ou xingamentos aos pares e políticos. Carisma não foi seu forte, muito menos liderança. Suas três décadas de carreira parlamentar são bem menos épicas do que ele divulga. Sempre se valeu de sua bolha e de polêmicas. Sobreviveu sendo um espetáculo de si próprio, com declarações que aumentam a repercussão do que é dito. No outro lado, recebe um retorno positivo de seus apoiadores mais fieis, que lhe proferiram a alcunha de “mito”. Foi abraçado pela deusa da Fortuna, como conhecemos na Ciência Política.

A sorte e o acaso conjecturaram uma eleição que até hoje parece ser inexplicável. Como não costumo utilizar de achismos, numa parte da análise de meu pós-doutorado identifiquei o seguinte discurso do atual presidente, proferido em 22 de janeiro de 1998, na Tribuna da Câmara dos Deputados: “Em tempo: quero deixar patente minha revolta com a grande mídia, um tanto quanto servil, que criticou duramente o Colégio Militar de Porto Alegre apenas porque nove entre 84 alunos resolveram eleger, entre o Conde Drácula, Hércules, Nostradamus, Rainha Catarina, Átila – só faltou FHC – Hitler como personalidade histórica mais admirada.” Uma breve olhada para o passado teria nos poupado de um presente tão desenfreado.

Já que citei Charaudeau nesse texto, é assim que finalizo minha análise. O autor afirma que é no encontro com o outro que as identidades e recursos sociais dos parceiros são ou não utilizados e que o discurso se constrói de uma forma ou de outra. Ou seja, Bolsonaro nunca foi uma voz isolada que venceu uma campanha eleitoral sem explicação. Foi amplamente amparado por um Congresso extremamente conservador. E, por uma população que, cansada da corrupção exposta pela Lava Jato, procurava outro messias. Agora, vemos a polarização recriada com dois messias. Que não esqueçamos de olhar para o passado, pois a história, sim, é cíclica. Nem Lula nem Bolsonaro. Como disse meu grande amigo economista Paulo Dutra Costantin, “que se arrebentem e abram espaço para algo novo”. Nenhuma análise acadêmica, política ou sociológica é melhor do que essa.

* Deysi Cioccari é jornalista e cientista política, com doutorado e pós-doc em Comunicação e Ciência Política. Tem mais de dez anos de experiência nos bastidores políticos em Brasília

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