Internacional

Por que o imbróglio China-EUA-Taiwan deve afetar ainda mais a economia global

Como pode o simples pisar do salto de uma norte-americana criar tamanha tensão mundial? Nancy Pelosi mostra na prática.

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Há alguns conflitos na história que atravessam décadas, governos e temperatura global. O que divide China e Taiwan é um deles. E na última semana esse assunto voltou a ganhar espaço internacionalmente e alertar a mundo sobre a potencial escalada da animosidade entre as partes. E isso tudo se deu porque a presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi resolveu visitar a ilhota que fica a 200 quilômetros da costa chinesa, e no seu curto período de estada já gerou um abalo considerável no que diz respeito aos chineses, os taiwaneses e os norte-americanos, com efeitos em cascata em toda a economia global.

Na teoria Nancy, que é do mesmo partido de Joe Biden, foi ao país asiático como parte de uma comitiva parlamentar e sem relação direta com uma agenda do presidente dos Estados Unidos. Mas na prática as coisas se misturam um pouco. Qualquer sinal em direção ao reconhecimento de Taiwan como uma nação independente é como cutucar uma onça com vara curta. Nesse caso, o dragão. Nas primeiras horas da chegada da parlamentar americana o governo chinês deslocou parte de sua tropa naval para os arredores da ilha de Taiwan. Depois afirmaram que a decisão de visitar o local, sem aviso prévio e fora da agenda, era uma infração grave da diplomacia americana. Os americanos, por sua vez, disseram que foi uma visita de oportunidade, sem grandes intenções.

Mas se os norte-americanos conseguiram retornar ilesos até aqui, a economia de Taiwan deve sentir o baque. Na quarta-feira (3) o porta-voz do Escritório de Assuntos de Taiwan da China, Ma Xiaoguang, disse que a importação de toranja, limões, laranjas e outras frutas cítricas, bem como alguns peixes congelados de Taiwan para a China, foi suspensa. O argumento oficial foi um excesso de pesticidas nas frutas cítricas, prevenção da Covid e controle de pragas, mas ficou evidente que os motivos eram mais profundos. No começo do ano os chineses já haviam barrado a entrada peixe garoupa de Taiwan, citando a detecção de algumas drogas proibidas e antibióticos.

No caminho inverso da balança, os chineses deixarão de exportar areia natural para Taiwan, um componente-chave para a produção de chips semicondutores.

Poucas horas depois do anúncio, o Escritório de Mineração de Taiwan disse que a suspensão das exportações de areia da China teria um efeito “limitado” e que a demanda doméstica da ilha por areia chinesa representa “menos de 1%” nos últimos anos.

EFEITO CASCATA Ferrenha defensora de sanções contra a China, Nancy Pelosi levou com sua visita uma mensagem ao presidente Xi Jimping. À DINHEIRO, o professor de desenvolvimento econômico em nações emergentes da universidade de Oxford, Christopher Adam, detalha. “Há 25 anos essa conexão [Taiwan-EUA] não acontecia [pelo menos não de forma tão explícita]. Há alguns assuntos diplomáticos que o governo chinês tem tolerância zero. A questão de Taiwan é um deles”, disse o especialista.

Para o resto do mundo que apenas assistiu a viagem de Pelosi, o resultado foi a criação de mais um foco de tensão e além da pandemia de Covid, a questão da varíola dos macacos, a extensa guerra na Ucrânia. Na Ásia, no dia em que Nancy desembarcou as ações na Bolsa de Xangai caíram 2,2% e a queda foi de 1,2% na Bolsa de Tóquio. O mau humor também foi registrado na Europa e se alastrou pelo resto do mundo. “China e Estados Unidos são nêmesis que se retroalimentam em uma dinâmica perigosa que, sob qualquer sinal de desequilíbrio, desencadeiam problemas econômicos mundiais”, disse o professor. No fim das contas, um dragão dormindo ainda é um dragão.

DIVISÃO CENTENÁRIA

A distância entre China e Taiwan supera muito os 200 quilômetros físicos que os separam. O começo do imbróglio é datado em 1912, quando (depois de 2 mil anos de domínio), o império Chinês ruiu. Nas três décadas que se seguiram houve uma disputa pelo comando da China. De um lado, o comunista Mao Tsé-Tung, do outro, o nacionalista Chiang Kai-Shek. A história mostra quem levou a melhor na China, mas esquece de contar que os nacionalistas derrotados foram se abrigar na ilha de Taiwan, que está rodeada por outras 167 ilhotas.

Em 1949, quando o martelo da República Popular da China foi batido, ficou definido também que Taiwan era um anexo chinês. Com o passar do tempo, a China foi ganhando espaço na economia e sendo reconhecida e temida por seu poderio armamentista, e ninguém no ocidente iria comprar uma briga para defender que Taiwan seria uma nação independente enquanto a China dissesse que não. Nem a ONU comprou esse discurso. Mas essa política do “deixe que eles se entendam” gerou distorções sociais e frustrações de ambos os lados. Uma delicada relação que envolve manifestações populares imponentes e que pode ser abalada com o simples pisar do salto de uma parlamentar norte-americana de 82 anos.