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Por que há tropas chinesas em Hong Kong?

Por que há tropas chinesas em Hong Kong?

Soldado chinês fica de guarda na sede da guarnição de Hong Kong, perto da Universidade Politécnica - AFP

Uma breve e insólita saída das tropas chinesas nas ruas de Hong Kong para uma operação de limpeza multiplica, desde sábado (16), os rumores sobre uma possível intervenção militar chinesa para pôr fim a seis meses de protestos pró-democracia neste território semiautônomo.

Enquanto alguns moradores elogiaram que os soldados tenham ajudado a limpar as ruas, outros viram a iniciativa como uma advertência de Pequim.

– O que os militares fizeram? –

Depois de uma das semanas mais violentas já vividas em Hong Kong desde que a crise explodiu, dezenas de soldados vestidos de bermuda e camiseta saíram, no sábado, dos quartéis do Exército Popular de Libertação chinês (EPL) rumo a um bairro nobre de Hong Kong.

Os militares recolheram tijolos, escombros e fizeram reparos em barreiras, antes de retornarem para o quartel. Também desfilaram em formação em uma estrada, enquanto veículos da imprensa local e moradores gravavam a exibição.

Mais tarde, o EPL confirmou que a operação foi realizada para desbloquear a estrada próxima ao quartel em Kowloon Tong.

– Soldados chineses estão autorizados nas ruas de Hong Kong? –

Desde sua retrocessão em 1997, vigora na ex-colônia britânica o princípio “um país, dois sistemas”, o qual dá uma certa autonomia ao território.

Como parte desta autonomia, a lei básica de Hong Kong estabelece que o governo local é responsável pela manutenção da ordem pública.

O EPL está autorizado a manter uma guarnição em Hong Kong e, embora a lei estabeleça que o efetivo estacionado na cidade “não deva interferir nos assuntos locais da região”, há importantes reservas.

O artigo 14 da lei básica estipula que as autoridades do governo local devem pedir a Pequim, “quando for necessário”, ajuda do regimento “na manutenção da ordem pública e em caso de catástrofe”.

O artigo 18 também permite ao poder central suspender de forma efetiva as leis de Hong Kong, em caso de “estado de guerra”, ou de “caos”, que “ponha a segurança nacional, ou a unidade, em perigo”.

No sábado, um porta-voz do governo de Hong Kong disse que não havia sido solicitada a ajuda das tropas chinesas e que sua saída “foi iniciativa sua”.

– Por que os militares limparam as ruas?

Esta saída foi um “inequívoco” aviso de que mobilizar o EPL continua sendo uma opção para a China, segundo o analista Willy Lam, baseado em Hong Kong.

“(Os soldados) se apresentaram como pessoas muito amistosas, tranquilas, diante da população de Hong Kong”, afirmou Lam, referindo-se à iniciativa de limpar as ruas.

“Mas o outro lado da mensagem foi que podiam participar, a qualquer momento, da tarefa muito mais difícil de eliminar os chamados agitadores”, acrescentou.

Na semana passada, o presidente chinês, Xi Jinping, em um comunicado incomum sobre os protestos, afirmou que “pôr fim à violência e restaurar a ordem é a tarefa mais urgente por cumprir”.

Já o porta-voz do Ministério da Defesa, Wu Qian, defendeu a operação de limpeza dos militares e insistiu em que a guarnição está decidida a “proteger os interesses da soberania” chinesa.

– O Exército será enviado para reprimir os protestos? –

Pequim não parece ter interesse em mobilizar o Exército contra as manifestações, enquanto houver outras opções sobre a mesa, explica Lam à AFP.

Se Pequim quiser enviar forças de segurança, provavelmente serão as forças paramilitares da Polícia Armada Popular (PAP), ou agentes policiais da província vizinha de Guangdong.

“A PAP não faz parte da guarnição de Hong Kong, de modo que, politicamente, gera menos suscetibilidade do que usar soldados nas ruas de Hong Kong”, acrescenta.

Para este analista, será “difícil” saber, porém, se a PAP será enviada e quando.

“Farão às escondidas e poderão usar o uniforme da Polícia de Hong Kong”, completa.