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Por que faltam vacinas para o Brasil?

O Programa Nacional de Imunizações, criado há quase meio século, era tido como Referência mundial antes de ser demolido pelo governo Bolsonaro. O atraso nas compras de doses e a falta de celeridade nas aplicações leva o país ao recorde mundial no número de óbitos e corrói a expectativa de retomada da economia brasileira.

Crédito: Istock

A operação é de guerra. De contar mortos e buscar saídas para conter a devastação. Na quarta-feira (10), o Brasil alcançou a triste e vergonhosa marca de 2.349 mortos pela Covid-19 em 24 horas, a mais alta desde o início da pandemia. Morre um brasileiro pela doença a cada 40 segundos. Em 16 estados, a taxa de ocupação nas UTIs já passa de 90%. Os números levaram o Brasil ao epicentro da doença no planeta, ultrapassando os Estados Unidos em mortes diárias. Só que, ao contrário de muitos países, o Brasil tinha uma arma vital para enfrentar essa guerra, que a administração Jair Bolsonaro conseguiu a façanha de desmontar: o Programa Nacional de Imunizações (PNI), criada em 1973 para combater a epidemia da meningite e que virou referência mundial de eficiência em campanhas de vacinação em massa. Para que o PNI funcione é necessário o insumo principal, a vacina. E é aí que entra o maior problema. O programa, que chegou a imunizar 10 milhões de crianças em um único dia contra a poliomielite no início dessa década, sofreu para conseguiu chegar à marca de 10 milhões de vacinados contra a Covid-19. Desde que as primeiras doses da Coronavac, imunizante produzido pela chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, começaram a ser aplicadas no Brasil, em 17 de janeiro, foram 46 dias para o País fazer o que fazia em apenas um.

A sabotagem do governo com o programa vem de longe. Em 15 de agosto, a administração Bolsonaro recebeu a primeira das três propostas feitas pela farmacêutica Pfizer no ano passado — todas ignoradas — para fornecimento de 70 milhões de doses, que começariam a ser entregues a partir de dezembro. Mas só no início desta semana um acordo foi firmado com o laboratório para compra de 14 milhões de doses. O CEO global da farmacêutica, Alberto Boula, participou de reunião virtual com Bolsonaro e equipe do governo, incluindo o ministro da Economia, Paulo Guedes. Não foi revelado o valor da compra. Nos Estados Unidos, a dose custa US$ 19,50. No início da semana, a companhia informou que espera obter receita de US$ 15 bilhões com a venda global do imunizante em 2021.

Em uma tentativa de acalmar o mundo empresarial e os mercados, coube a Paulo Guedes anunciar, após a conversa, o acordo para fornecimento das primeiras 14 milhões de doses até junho. A previsão é de 99 milhões em 2021. A Pfizer disse que o Brasil é um de seus “parceiros mais valiosos e importantes globalmente” e que está comprometida com o acesso equitativo às vacinas no mundo. Carlos Murillo, que até o mês passado era o presidente da Pfizer no Brasil e passou a comandar a operação da farmacêutica na América Latina, disse à DINHEIRO em novembro que estava “em contato com o governo brasileiro para discutir um possível fornecimento da (até então) potencial vacina, que permitiria vacinar milhões de brasileiros”. O imunizante da Pfizer é, até aqui, o único com registro definitivo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O lamentável desmonte do Plano Nacional de Imunizações pelo tem cobrado uma conta alta em vidas humanas e seu impacto na economia poderá comprometer ainda mais a saúde dos brasileiros. Para o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que deixou o cargo por discordar da atuação de Bolsonaro frente a pandemia, as chances de correção da rota são pequenas. “Quando mudar o governo, algumas ações do SUS terão de ser recolocadas em seu lugar. Uma delas é o Programa Nacional de Imunizações”, afirmou à DINHEIRO (leia entrevista à página 34). Isso porque, na gestão atual, falta humildade para reconhecer os erros. Na quarta-feira (10), durante sanção do projeto de lei que garante a possibilidade de o Brasil comprar vacinas da Pfizer e da Janssenn (braço farmacêutico da Johnson & Johnson), Bolsonaro disse que o governo “foi incansável e exemplo para o mundo na luta contra a pandemia”. Sabe-se lá o que ele entende por exemplo. Curiosamente, foi a primeira vez em que o presidente usou máscara em um evento oficial, após meses estimulando aglomerações e questionando a eficácia de uso de equipamentos de proteção individual. No dia seguinte, seu filho, Eduardo Bolsonaro, apareceu em um vídeo em que manda a população “enfiar no rabo” a máscara.

Já o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que “o sistema de saúde está muito impactado, mas não colapsou nem vai colapsar”, sem citar as regiões em que o colapso na saúde já é realidade há tempos. Ele também anunciou que a previsão para março era de 22 a 25 milhões de doses, muito distantes dos 46 milhões para o mês, que Pazuello havia previsto no dia 17 de fevereiro.

MUDANÇA de postura Após meses estimulando aglomeração, Bolsonaro usa máscara pela primeira vez em evento oficial, ao lado do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. (Crédito:Alan Santos)

SÓ 10% Entre os erros apontados por Mandetta está a demora do Brasil em aderir ao Covax Faciity (consórcio ligado à Organização Mundial de Saúde). Pela enorme capilaridade do sistema de vacinação nacional, o País teve a posibilidade de receber do grupo até 50% das doses necessárias, mas o presidente não quis. “Pegou muito mal no mundo, porque o Brasil dá escala para a América do Sul. E só depois entrou pedindo 10%”, afirmou o ex-ministro. A falta de coordenação nacional também colocou de pé um consórcio criado por prefeitos para viabilizar a compra dos imunizantes.

No início da semana, o laboratório brasileiro Precisa Medicamentos encaminhou pedido à Anvisa para liberação de uso emergencial da vacina Covaxin, produzida pela farmacêutica indiana Bharat Biotech. A agência negou o recebimento da documentação. Governadores têm cobrado agilidade do órgão para aprovação da Sputnik V, que será produzida no Brasil pela União Química.

A epidemiologista Carla Domingues, que foi a coordenadora-geral do PNI de 2011 a 2019, afimrou que o Brasil poderia já ter vacinado pelo menos 50 milhões de pessoas, não fosse a desorganização do governo federal. “A população quer ser vacinada, mas o governo não compra vacina suficiente”, disse. Para ela, o Brasil tem estrutura para garantir até abril a imunização do grupo prioritário estendido, que soma 80 milhões de pessoas e inclui, além de idosos e profissionais de saúde, professores, agentes de segurança, profissionais de transporte urbano e pessoas com comorbidades. “Precisaríamos de 40 milhões de doses ao mês, a partir de janeitro. Estamos muito longe disso”, afirmou Carla.

O desmonte não está só na demora para compra das vacinas. Nos últimos anos, os recursos para compra de imunizantes caíram. Em 2019, foram destinados R$ 5,3 bilhões no Orçamento. Em 2020, R$ 4,9 bilhões. “No ano passado, nenhuma meta da cobertura vacinal das crianças foi atingida. Não há nenhum movimento do governo em melhorar o processo de vacinação no País”, disse a ex-coordenadora do PNI.

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“Se a imunização pública estivesse sendo conduzida de forma mais organizada, as clínicas privadas estariam mais perto de poder entrar e contribuir” Geraldo Barbosa, presidente da ABCVAC

Para Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), o programa de imunização vive hoje o momento mais difícil desde sua criação. “É óbvio que a execução de planejamento do PNI depende de vacina. Ninguém consegue trabalhar sem a definição da chegada dos imunizantes. Planejamento é fundamental”, disse. “Essa incerteza leva aos cronogramas fracionados de municípios e estados e cada um interpretando de uma forma sobre os grupos prioritários. Isso atrapalha a adesão”, afirmou Isabella.

PARTICULARES Sem o PNI no ritmo ideal, fica cada vez mais distante a possibilidade da entrada das clínicas particulares na realização de compras com os fornecedores, que só poderão ocorrer após a imunização total do grupo prioritário estabelecido pelo governo. Para Geraldo Barbosa, presidente da Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC), o Brasil precisa aproveitar o mais breve possível os 15 mil pontos privados de vacinação, incluindo as 3 mil clínicas particulares. “Se a imunização pública estivesse sendo conduzida de forma mais organizada, as clínicas privadas de vacina estariam mais perto de poder entrar e contribuir”, disse.

Somado ao caos logístico e de planejamento em relação ao PNI, a apreensão agora gira em torno da próxima campanha nacional de combate ao vírus influenza, que deve ter início no mês que vem. Há necessidade, por exemplo, de mais seringas para garantir a aplicação das doses. Com necessidade de duas aplicações, as 325 milhões de seringas só garantem a imunização de pouco mais de 150 milhões de brasileiros. Desse total, 60 milhões vieram de doação da Vale, 40 milhões por meio de acordo celebrado com a Organização Panamericana de Saúde (Opas), além de 100 milhões adquiridas pelos estados. É necessário pelo menos o dobro.

Paulo Henrique Fraccaro, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos (Abimo), falta coordenação na aquisição dos insumos. “Uma compra centralizada deixa sempre o produto mais barato. Mas não dá para olhar para o retrovisor e sim garantir a entrega das seringas”, disse. “Agora falta a definição do governo sobre as próximas compras.”

E quanto mais se avança em 2021 com as necessidades relacionada às ações de combate à Covid, menor será a chance de que as pautas econômicas sejam colocadas em prática antes do calendário eleitoral do ano que vem. “Do jeito que está, a vacinação só começará a surtir efeito perto de agosto. Enquanto isso, sentiremos os efeitos principalmente na economia”, disse Alan Gandelman, CEO da Planner Corretora. “Esperava-se que as reformas andassem. Isso tudo terá impacto.” Na visão do ex-ministro Mandetta, “será praticamente um semestre perdido para quem depende de serviços, como eventos, hotelaria, turismo e outras áreas”.

A FILA NÃO ANDA Com pouco mais de 10 milhões de doses aplicadas, o Brasil ainda está longe de garantir a vacinação completa de grupos prioritários, como os idosos e profissionais de saúde. (Crédito:Fabiano Rocha)

Se há uma boa notícia em meio ao caos é que a Coronavac, aposta do governo de São Paulo e que tem sido responsável por quase 90% das imunizações de brasileiros, é eficaz contra as variantes que hoje circulam no Brasil, segundo pesquisa do Butantan em parceria com o Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP).

ENTREVISTA: “A sequela da Covid na economia vai exigir muita liderança. E isso não há hoje”

Luiz Henrique Mandetta (Crédito:Marcello Zambrana)

Por que perdemos a chance de mostrar ao mundo a eficiência do Plano Nacional de Imunizações?
Eu falava, quando ainda estava no ministério, que o caminho era a ciência e a vacina, mas não fui ouvido. Eles imaginaram que essa doença geraria imunidade de rebanho e que tornaria a vacina desnecessária. E só entraram com o acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (que irá produzir a vacina da AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford) para dizer que estavam apostando uma corrida com o Instituto Butantan (responsável pela produção da Coronavac). E ficou uma decisão política e científica burra. Quando se soma burrice em duas ações nevrálgicas, dá no que estamos vendo.

Isso pode afetar a reputação do PNI daqui para a frente?
Isso se recupera. Quando mudar o governo, algumas ações do SUS terão de ser recolocadas em seu lugar. Uma delas é o PNI. O problema é o impacto na economia em não utilizar um sistema desse.

Há perspectiva de mudança no cenário?
Agora estão tentando passar outra imagem da que tiveram até aqui. Bolsonaro só se importa com o que vê na internet. E como nas redes sociais ele tem visto que as pessoas querem ser vacinadas e a popularidade vem caindo, decidiu comprar tudo que tiver disponível. Mas a vacina não chega a pronta entrega. Precisa de tempo para produzir. Virá uma pequena parte do que foi acertado com a Pfizer e depois o Brasil entrará na fila.

Quanto tempo vai demorar para que as vacinas cheguem numa quantidade suficiente?
Do jeito que o governo fez, o primeiro semestre deste ano ficou comprometido. E no segundo semestre as vacinas irão chegar.

E o que significa comprometer um semestre em termos de economia?
Significa atingir diretamente o PIB nesse período. Com exceção do agronegócio, os segmentos estão em queda. Isso vai matar o setor de serviços. Se um cabeleireiro não tem o cliente, ele quebra. Não se recupera PIB dessa área. Será praticamente um semestre perdido para quem depende de serviços, como eventos, hotelaria, turismo e outras áreas. Também vai afetar muito a Saúde, já que irá atrasar ainda mais as cirurgias eletivas que já foram adiadas. Muitas mamografias, exames de próstata e políticas de prevenção foram atingidas. Vamos levar uma década para recompor alguns setores por conta das decisões equivocadas.

Quais setores?
A saúde pagará preço enorme. Na educação, as crianças serão ainda mais prejudicadas. A evasão escolar vai aumentar. O mundo levou 15 anos para se recuperar da crise a partir da queda da Bolsa de Nova York, em 1929, e a pandemia tem um impacto muito mais profundo. O mundo vai ter de se reinventar, do ponto de vista económico, e o Brasil vai precisar estar preparado para isso.

Como o senhor enxerga ações da iniciativa privada, como o movimento Unidos pela Vacina, liderado por Luiza Helena Trajano (presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza)?
Quando o governo é ausente, a sociedade civil procura tapar esses buracos. É louvável, mas representa a falência do governo. Quando iniciativa privada, prefeitos e governadores precisam ir atrás de vacinas, isso significa perda de poder de compra de escala. Comprar vacina para 210 milhões de pessoas não é o mesmo preço quando se compra para um município de 10 mil habitantes, por exemplo. Na primeira onda, houve ações importantes das empresas, com doações, montagens de hospitais, máscaras, equipamentos. Mas como não há um esforço governamental, fica uma situação complicada. Enquanto a dona Luiza Helena Trajano vai mobilizando a sociedade para vermos como estão as salas de vacinas no Brasil, seria muito importante que o governo fizesse a sua parte. Ela vai acabar entrando em fadiga e vendo que movimentar essa máquina pública é muito difícil.

O auxílio-emergencial não deveria já ter voltado?
Sim. É fundamental. O governo calculou mal. Eu avisei o ministro Paulo Guedes que esse auxílio deveria vigorar por pelo menos um ano. Liberaram R$ 600 e não tiveram fôlego para o tempo da doença. O governo gastou demais no primeiro modelo e depois caiu a zero a partir de dezembro. Até conseguir reativar, em abril, serão quatro meses sem qualquer apoio.

A pandemia deverá invadir 2022?
Eu espero que não. Quando a vacinação é muito devagar com taxa de transmissão tão alta, corremos o risco de voltar à estaca zero se surgir uma variante resistente às vacinas disponíveis. Se já tivesse vacina, poderíamos imunizar tranquilamente entre 2 e 3 milhões de pessoas ao dia. Em 30 dias, chegaríamos a 90 milhões. E toda a responsabilidade é do governo, que não quis comprar.

E o pós-pandemia?
Vai durar bastante tempo. Será necessária uma política agressiva de recuperação de crédito, de aumento do poder de consumo das classes D e E. Hoje a classe média está endividada e o empresariado, assustado. O governo não está pensando nem no momento atual, nem no pós-pandemia. Será um cenário de guerra. A sequela da Covid na economia vai exigir muita liderança. E isso não há hoje.

Qual sua avaliação hoje sobre o presidente Jair Bolsonaro?
Não há palavra para descrever. Chamá-lo de perverso, cruel, omisso, manipulador e despreparado seria pouco. Em um determinado momento, alguém vai ter de responder por todas essas mortes. Por enquanto, a preocupação é salvar vidas e enterrar os mortos. Depois que acaba a guerra é que a gente apura quem é o responsável. O carro já capotou. Agora é tentar evitar que ele pegue fogo.