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Por que em breve o empresário do ano será um software

Quatro em cada cinco millennials brasileiros confiam mais na tecnologia do que em seus gestores.

Por que em breve o empresário do ano será um software

Você seria capaz de conviver com um chefe não humano? Pois se acostume. É muito provável que algum gestor seu seja uma máquina num prazo breve. E por um motivo tão forte quanto a inovação tecnológica: a mudança de comportamento das novas gerações. Em especial os millennials. Segundo o estudo AI at Work da Oracle, em parceria com a Future Workplace, 79% dos entrevistados brasileiros disseram que confiam mais em um algoritmo do que em seu gestor. Acima até da média global, de 64%. Para essa geração nascida entre 1982 e1996 (25 a 39 anos) um a cada três entrevistados veem com otimismo a adoção da inteligência artificial na tomada de decisões. Essa turma deverá ocupar 70% do mercado de trabalho brasileiro até 2030.

Para as empresas de todos os setores e qualquer tamanho será inevitável tratar disso desde já. Porque o futuro do trabalho chegará inevitavelmente ao alto escalão das companhias, auxiliando na tomada de decisões e na gestão dos negócios. A vida guiada pelos algoritmos não é uma surpresa e nem um fenômeno recente. Mas nunca houve momento em que fosse de forma tão constante e em alta velocidade. Em especial no alto comando corporativo.

Hong Kong já vive nesse futuro. E não é por causa das 11 horas à frente no fuso horário em relação ao Brasil. É graças a Deep Knowledge Ventures (DKV) que, desde 2014, em um movimento inédito, elegeu um algoritmo de inteligência artificial para integrar a cúpula da empresa, com direito a voto e tomada de decisões. O software Vital (Validated Investment Tool for Advancing Life Sciences), que foi desenvolvido pela Aging Analytics, com sede no Reino Unido, coleta e agrega de forma automática uma enorme quantidade de dados sobre 12 mil empresas de biotecnologia, fazendo due dilligence e, através de uma metodologia própria de análise de investimentos, indica se a DKV deveria ou não investir em determinada companhia.

“Estamos nos movendo para uma sociedade onde as pessoas ouvem por meio de algoritmos e a maioria obedece”

Pode-se até ser questionado se um conselheiro experiente terá percepções de mercado melhores que essa solução. Mas não dá para desprezar o argumento de um algoritmo assim. Até porque haverá uma naturalização do comportamento desses softwares. Você, com certeza, já interagiu com alguma forma de inteligência artificial mesmo que de forma não intencional e até não consciente. Essa interação entre seres humanos, algoritmos e I.A. é um caminho sem volta. Lutar contra é inútil. O próprio Fórum Econômico Mundial abordou o uso da inteligência artificial na tomada de decisões dentro de empresas como uma das principais inovações que irão transformar a sociedade ao longo da década.

“Estamos nos movendo para uma sociedade onde as pessoas ouvem por meio de algoritmos quais são seus gostos e, sem questionar muito, a maioria das pessoas obedece facilmente”, disse David De Cremer, fundador e diretor do Centro de Tecnologia de IA para a Humanidade da National University of Singapore Business School ao Knowledge Wharton, o jornal on-line da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia. “Dadas essas circunstâncias, não parece mais uma fantasia selvagem de que a IA possa assumir uma posição de liderança”, afirmou o autor do livro Leadership by Algorithm.

O ano de 2030 parece ser o turning point desse novo mundo de relações no trabalho. Segundo pesquisa do McKinsey Global Institute, cerca de 70% das empresas vão ter adotado pelo menos um tipo de inteligência artificial. Não nos resta nenhuma dúvida de que ela vai ser, de alguma forma, nossa gestora. Nos resta, somente, nos preparar para reclamar em casa do humor do chefe robô, já que a promessa é que as máquinas tenham, inclusive, características cada vez mais humanas. Lembrando sempre que a tecnologia não é a vilã. E sim o uso que damos a ela. Como dizia Stephen Hawking, “the real risk with AI isn’t malice but competence” (o risco real da inteligência artificial não é a malícia, mas a competência).

Letícia Quatel é jornalista, mestre em Comunicação & Imagem, com especialização em Narrativas Visuais Contemporâneas pela Fondazione Modena Arti Visive, na Itália.