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Por que as startups agem tão diferente da filosofia de Warren Buffett?

Por que as startups agem tão diferente da filosofia de Warren Buffett?

O megainvestidor Warren Buffett

O segundo homem mais rico do mundo, que detém o patrimônio de 82 bilhões de dólares, acerta em cheio quando diz que não adianta crescer de uma vez, tomar risco no início e descontinuar seu negócio por conta de um erro ganancioso. Primeiro, é preciso formar massa crítica, entregar, pensar em engatinhar antes de disputar uma maratona. O tempo é aliado de bons negócios, quanto mais passa o tempo, mais forte fica e mais dividendos gera.

Na teoria é tudo muito simples, mas resolvi conhecer na prática: peguei um avião e fui até a reunião de acionistas da Berkshire Hathaway, do bilionário e megainvestidor Warren Buffett. O que aprendi por lá, poderia colocar uma lona sobre o cemitério de startups no Brasil.

Não pensem que estou exagerando quando falo em cemitério. Segundo estudo realizado pela Startup Farm, 74% das startups brasileiras morrem após cinco anos e 18% delas acabam em menos de dois anos. Outro dado bem interessante vem da radiografia do ecossistema brasileiro de startups, feito em 2017 e produzido pela abstartups: 41% delas buscam escalar seu negócio logo na largada, 46% possuem até dois anos de fundação, 69% faturam abaixo de 50 mil reais e quando recebem aportes, exageram na contratação.

Buffett passou por período pós-guerra, estouro da bolha, crise de 2008 e seu negócio continuou em ascensão. Mas não pense que ele já começou grande. Seus negócios começaram a prosperar depois de muito tempo de mercado, entre tombos e vitórias. Em 40 anos – tempo que as startups de hoje jamais esperariam – ele negociava as ações da companhia por menos de 10 dólares cada. Hoje? A ação custa aproximadamente cem mil dólares. Você aguentaria todo esse tempo para crescer 1.000.000%?

Segundo Buffett, outro ponto crucial para o desenvolvimento e ascensão de uma empresa é a transparência. Sim, eu sei, mas isso é óbvio. Mas não é sobre transparência ao cliente que estava falando. Era sobre a sinceridade com seus investidores versus a supervalorização de seu negócio.

Me indaguei se realmente havia tanta maquiagem nos números e, para o meu espanto, segundo pesquisa feita pela Universidade da Columbia Britânica (UBC) e pela Universidade de Stanford com 116 empresas, 50% estão com os números superestimados e, portanto, não são um unicórnio. Segundo o mesmo estudo, as empresas se auto avaliam como 49% maiores do que propriamente são. Essas ações possuem preço, mas não valor.

Hoje, se pesquisar o nome de Warren Buffett na internet, teremos notícias e mais notícias com as milagrosas dicas, como fuja do risco, invista no que ama, tenha paciência, sua credibilidade é construída aos poucos. Mas, de fato, qual startup brasileira, hoje, aplica na prática? Conseguimos contar nos dedos de uma mão.

Vivemos em uma geração imediatista. Os CEOS, que deveriam passar a sensação de calma e organização, muitas vezes injetam o desejo de crescer rápido em sua equipe e parecem querer passar o negócio para frente. Se entra dinheiro, contratam em massa. Se o dinheiro acaba, reduzem o quadro.

Será que vamos esperar 40 anos para aprendermos com o segundo homem mais rico do mundo?  Porque não construir uma startup pensando em ficar 60 anos trabalhando nela?

*Paulo Marchetti é Country Manager da ComparaOnline no Brasil