Edição nº 1099 07.12 Ver ediçõs anteriores

Por que a Volks acertou em não chamar o Polo de Gol

Muitos especialistas queriam e alguns até apostaram que o novo Polo seria o novo Gol, mas no final prevaleceu o bom senso. Entenda a questão

Por que a Volks acertou em não chamar o Polo de Gol

O Volkswagen Polo já é um caso de sucesso, com venda de 6.000 carros/mês. Não tinha porque chamá-lo de Gol

Polo ou Gol? Durante vários meses, a Volkswagen conviveu com esse dilema sobre o nome de seu novo hatch compacto. E, durante algum tempo, o projeto era mesmo fazer um Gol mais moderno, baseado no Polo europeu. Porém, veio a crise e tudo mudou dentro da Volkswagen. Em pouco tempo, dois presidentes caíram. E o carro que ganhou a maioria dos prêmios em 2017 chama-se mesmo Polo, enquanto o Gol permanece com sua velha plataforma PQ24, de 2008. Para tristeza de muitos especialistas, inclusive alguns amigos.

Mas, contrariando a maioria, ouso dizer que a Volkswagen acertou em manter o Polo com o nome Polo e o Gol com o nome Gol. E as razões para isso são muitas, mas partem de duas letrinhas e um ponto de exclamação: Up! Ao contrário do que planejou um dos alemães que passou pelo comando da Volkswagen do Brasil, o pequenino Up nunca se firmou como carro de entrada da Volks por aqui. Foi um carro mal lançado – apesar de todas as suas qualidades – e acabou mesmo virando um modelo de nicho.

Sem o Gol como ele é, a Volkswagen simplesmente ficaria sem um carro de entrada para competir no segmento mais importante do mercado brasileiro. O Up é um carro caro para ser produzido. E pequeno para a exigência da classe média brasileira – apesar a Volks ter tomado o cuidado de dotá-lo com um porta-malas maior do que o modelo europeu. Para além disso, reposicionar o Gol, colocando-o num patamar superior ao que sempre esteve, seria negar uma tradição de quase quatro décadas.

Uma coisa é uma coisa

Como diz o ditado popular, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. E o Gol nunca poderia ser o Polo. Para começo de conversa, o Gol é um projeto nacional. Um dos raros carros criados no Brasil para brasileiros. E que teve o mérito de conquistar o mercado de países vizinhos, como a Argentina. O Gol nasceu para ser brasileiro e/ou sul-americano. É um carro que exige robustez em suas suspensões. Precisa ter altura e força para encarar estradas ruins e buracos. Precisa ter manutenção barata. Precisa ter mercado – é impressionante como esse carro ainda é popular no norte do Paraná, por exemplo, onde estive recentemente.

Charles Chaplin disse uma vez que “só a verdade e a beleza podem convencer o público”. Juntos. Um Polo com nome de Gol teria a beleza do design, mas não a verdade da herança do carro de maior sucesso da história do Brasil. Apesar de nunca ter sido o carro mais barato do Brasil, o Gol ainda mantém a fama da Volkswagen como a marca que faz o “carro do povo”. Um Gol sofisticado, usando a carroceria e a mecânica do Polo, seria a morte dessa tradição.

Outro fator que os especialistas não consideraram é o Fox. Esse sim, um carro já meio sem sentido dentro de uma economia totalmente globalizada, teria que receber modificações ainda mais sofisticadas para ficar posicionado acima do Gol, como sempre foi. Agora imagina o trabalho que daria – e os milhões que precisariam ser investidos – se o novo Polo se chamasse Gol e o Fox tivesse que ficar superior a ele. A menos que o Gol subisse dois degraus na escala de posicionamento da linha Volkswagen, o que seria um fato inédito na indústria automobilística.

Muitas vezes, para publicar uma notícia com exatidão, basta apenas analisar o mercado sob o ponto de vista do fabricante. O problema é que muitas vezes pensamos como consumidores ou como jornalistas. Então publicamos o que queremos que aconteça, mas não o que de fato pode ou deve acontecer.

Sonho de uma noite de verão

Uma vez decidido que o Polo é o Polo e que o Gol é o Gol, vem a segunda parte desse jogo de xadrez estratégico. É preciso atualizar o Gol. Afinal, mesmo disputando clientes no segmento de entrada, o carro mostra-se defasado perante alguns concorrentes. Apesar de ser chamado de G7 pela Volks, o Gol atual é na verdade apenas a terceira geração do carro. O Gol atual foi lançado em 2008 e modificado duas vezes – a primeira em 2012 e a segunda em 2016. Por mais que os designers e os engenheiros da Volkswagen melhorem o carro no aspecto visual, na conectividade e até na motorização, a parte mecânica precisa ser atualizada.

Um novo Gol deverá chegar ao mercado em 2019, provavelmente já como modelo 2020. Então a Volks dirá pela enésima vez que há um “novo Gol” no mercado. Essa palavra “novo” já foi tão desgastada nesse carro, que talvez abram mão dela dessa vez e falem num Gol 2020. Soa melhor. Junto com o Gol 2020, vamos chamá-lo assim, podemos esperar uma volta ao passado, no que diz respeito às suas versões? Podemos esperar, por exemplo, um Gol 2020 GTI ou mesmo GT?

Não. Mil vezes não. Não existe mais espaço para carros como o Gol GTI no mercado brasileiro. Pela simples razão de que a Volkswagen leva muito a sério essa sigla. Para ser GTI, um carro precisa ser realmente exclusivo em sua esportividade e desempenho. Mas hoje, no Brasil, para além da profusão de ofertas de carros com bom desempenho, existem raríssimos clientes que pagariam uma pequena fortuna para ter um Gol GTI. Portanto, esqueçam o GTI ou o GT. O máximo que pode vir com esse Gol 2020 é uma versão esportivada – além, claro, da obrigatória versão aventureira. Mas, em se tratando de Volkswagen, a mecânica será absolutamente igual à das outras versões. E o interior do carro também.

O mundo mudou, meus amigos. O passado não volta mais. Quem teve a sorte de curtir um Gol GTI, como eu, pode contar histórias para filhos e netos. Quanto ao futuro, a menos que um novo milagre econômico aconteça, melhorando consideravelmente a distribuição de renda no Brasil em prazo recorde, não existe a menor chance de existir um Gol GTI nos próximos anos, mesmo que a Volkswagen tenha mexido com nossas emoções no último Salão de São Paulo, quando apresentou um Gol GT Concept, criado por José Carlos Pavone.

O sucesso do Polo

Para quem gosta da Volkswagen e quer um hatch compacto superior, o Polo é uma grande pedida. O acerto da decisão estratégica da Volks, de relançar o Polo quando todo mundo acreditava que esse nome tinha virado um mico, pode ser atestado nas vendas. Com três versões de motor (1.0 aspirado, 1.6 aspirado e 1.0 turbinado), o novo Polo já passou das 13 mil vendas e se aproxima dos 6.000 carros/mês.

Não é para menos. Com um processo de fabricação supermoderno, fazendo uso da plataforma modular MQB A0, o novo Polo já se candidata a ser um dos melhores Volkswagen já produzidos no Brasil. Mesmo posicionado num patamar superior ao do Gol, que foi campeão por 27 anos, o novo Polo é candidato até a ser o carro mais vendido do País dentro de um curto período, brigando diretamente com o Chevrolet Onix e com o Fiat Argo. E faz jus ao bom histórico mecânico do carro, que foi vendido no Brasil na segunda e na quarta gerações (2002 a 2014).

Até o dia 19 de janeiro, as vendas do Polo em 2018 estavam em 3.843 unidades, contra 3.637 do Gol. Portanto, se tivesse optado por chamar o novo Polo de Gol, a Volkswagen estaria faturando menos e abrindo mão de metade de suas vendas somente nesse segmento.


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