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Por que a retomada econômica será lenta

Os países que não cumpriram os protocolos sanitários tiveram queda menor da produção, mas têm dificuldade de recuperação.

Por que a retomada econômica será lenta

A economia mundial iniciou uma recuperação desde maio de 2020, depois da grande retração de atividade econômica dos meses de março e abril. À medida em que os países foram reduzindo o isolamento social houve retomada da atividade econômica a partir de uma base bastante reduzida. O segundo trimestre teve queda dramática da produção, demanda e do emprego. Mas essa queda está ultrapassada e a recuperação está tendo um formato de V de forma generalizada, inclusive no Brasil. Deve-se destacar que essa recuperação não impedirá que o ano tenha taxas negativas de crescimento do PIB de forma generalizada, como atestam as previsões mais recentes do FMI.

Indicadores econômicos da Ásia, Europa e América do Norte estão mostrando uma recuperação nas atividades industriais e de serviços pelo 9º mês consecutivo. Mas, dadas as incertezas quanto o comportamento dos agentes econômicos – depois de uma quebra estrutural da série estatística – é difícil fazer projeções para 2021 e 2022 para o desempenho da economia mundial.

De qualquer forma, se avançou no entendimento das consequências da pandemia e da trajetória da recuperação econômica. Possivelmente, o maior destaque empírico é o trabalho da Luohan Academy sediada na China, que operacionalizou o Tracking the Global Pandemic Economy (PET), idealizado por Michael Spence, prêmio Nobel de Economia e financiado por Jack Ma, proprietário do Alibaba. Segundo o PET, o Brasil é um dos países que mais negligenciaram o combate à Covid, estando na terceira onda de contágio, o que dificulta a recuperação econômica e provoca o colapso do atendimento hospitalar. Na mesma etapa estão África do Sul, Bangladesh, México, Nigéria, Polônia e Rússia.

“Estudo idealizado por Michael Spence, Nobel de economia, mostra o Brasil entre os que mais negligenciaram o combate à covid”

Os pesquisadores conseguiram quantificar o fator dominante do funcionamento da economia em situações extremas: a mobilidade e a conectividade dos fatores de produção e consumidores. A grande queda da produção e do consumo, a extensão do vale e a recuperação econômica até voltar (ou não) ao nível pré-pandemia dependem empiricamente desses dois fatores. Além disso, está ocorrendo uma terceira onda de contágio no mundo, inclusive no Brasil.

Com a diminuição da mobilidade e conectividade dos fatores de produção e consumidores, a economia mundial experimentou a maior queda da produção em um século. O que foi quantificado, via PET, é que 74% da queda do PIB foi causada pela redução da mobilidade e conectividade. Os países que cumpriram rigidamente os protocolos de isolamento, testes em massa e paralisação da atividade econômica, foram os que tiveram a maior queda na produção. Em contrapartida, os países que conseguiram evitar a mobilidade dos fatores de produção e consumidores, são aqueles que estão tendo recuperação mais rápida, porque a mobilidade dos fatores pôde aumentar.

Os países que não cumpriram os protocolos sanitários, mantiveram a mobilidade dos fatores de produção e consumidores, tiveram queda menor da produção, mas tem dificuldade de recuperação pelas incertezas da recorrência de novos surtos da doença. Em outras palavras, países que não fizeram o diagnóstico correto de que o problema era a Covid-19 e este é que deveria ser enfrentado estão tendo recuperação mais lenta e dificilmente atingirão o nível de produção de 2019 em 2021. Essa trajetória poderá ser minorada no futuro, quando existirem vacinas que consigam imunizar bilhões de pessoas no mundo. Como existem ainda incertezas quanto às vacinas que estão passando por todos os protocolos e entrem em produção em larga escala, fica valendo o que está sendo feito no mundo de uma maneira adequada em alguns países e inadequada em muitos outros.

Simão Davi Silber é professor-doutor do departamento de Economia da FEA-USP

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