Economia

Política externa busca normalização em cenário frágil

Analistas afirmam que próximo presidente terá pouco tempo para colocar em prática uma agenda propositiva e realista para o Brasil

Crédito: Felipe Rau/Estadão

Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo 09 Setembro 2018 | 05h00 SAIBA MAIS A crise política e econômica que se abateu sobre o País a partir de 2016 contaminou a política externa brasileira. Um novo presidente pode melhorar esse cenário? A próxima eleição será decisiva para os rumos do Brasil em vários aspectos, mas um dos menos observados é a política externa, historicamente relegada a segundo plano em eleições. Em um limbo desde o segundo mandato de Dilma Rousseff, as relações exteriores brasileiras minguaram. O Brasil perdeu chances de conquistar espaço no cenário internacional. Agora, está em busca de uma agenda de política externa possível e viável – e o próximo presidente terá pouco tempo para colocar uma nova agenda em prática. venezuelanos Venezuelanos protestam em ato em São Paulo (Crédito: Felipe Rau/Estadão)

A crise política e econômica que se abateu sobre o País a partir de 2016 contaminou a política externa brasileira. Um novo presidente pode melhorar esse cenário? A próxima eleição será decisiva para os rumos do Brasil em vários aspectos, mas um dos menos observados é a política externa, historicamente relegada a segundo plano em eleições.

Em um limbo desde o segundo mandato de Dilma Rousseff, as relações exteriores brasileiras minguaram. O Brasil perdeu chances de conquistar espaço no cenário internacional. Agora, está em busca de uma agenda de política externa possível e viável – e o próximo presidente terá pouco tempo para colocar uma nova agenda em prática.

“O próximo governo vai esbarrar em um dos cenários externos mais desafiadores para o Brasil em décadas e, por isso, será necessário construir uma agenda propositiva e realista”, afirmou o professor de Relações Internacionais Oliver Stuenkel, coordenador da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV).

A expectativa de elevação da taxa de juros nos Estados Unidos tornará mercados emergentes menos atraentes para investidores. A recuperação dos preços das commodities ocorreu, mas de forma tímida. O Brasil é altamente dependente de um conjunto funcional e previsível de regras e normas globais, que organizam a política internacional, que está erodindo no mundo todo. Por fim, a crise na Venezuela roubará espaço na agenda de discussões internacionais do Brasil. Quem quer que seja eleito terá de lidar com questões sobre o vizinho em encontros em Washington ou Bruxelas.

Uma agenda viável incluiria conversas bilaterais sobre acordos comerciais, negociações sobre redução de tarifas. Segundo analistas, a aproximação com Washington e o reforço dos laços com os Brics também são questões que não podem faltar numa agenda externa brasileira. Um projeto com foco na área econômica, com engajamentos prioritários para concluir o Acordo do Mercosul com a União Europeia e aproximar o Brasil e o Mercosul da Aliança do Pacífico, e a tentativa de expandir os acordos em foros multilaterais.

A dificuldade em se estabelecer uma agenda simples decorre dos altos e baixos que o Itamaraty enfrentou na última década. Quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu, a política externa brasileira estava traçada por Fernando Henrique Cardoso: o destino do Brasil seria se tornar uma potência regional.

Esse sonho, acalentado com certo grau de megalomania por Lula, foi escanteado por Dilma Rousseff e definitivamente enterrado com a recessão econômica, a partir de 2015, o impeachment e as dificuldades enfrentadas, na sequência, pelo presidente Michel Temer. De pretensa potência global em 2009, o Brasil passou a mero líder regional e, agora, nem isso.

Do “imperialismo brasileiro”, com negociações multilaterais, tentativa de influenciar as negociações nucleares com o Irã, participação de empresas brasileiras em megaprojetos de infraestrutura na América Latina e na África, sobrou pouca coisa. “É preciso entender que houve uma mudança de cenário. O Brasil no período Lula foi favorecido pela expansão dos mercados emergentes, principalmente a China, e pelo boom de commodities”, disse Stuenkel.

Lula tentou ampliar agenda da política externa
Mantidas as bases que guiaram o governo Fernando Henrique, Lula tentou ampliar a agenda externa para temas como armas nucleares e aumentar investimentos em países da América do Sul, África e Ásia. Com Dilma, a diplomacia adotou outra postura. Abandonou tentativas de influenciar grandes questões e manteve a agenda Sul-Sul. Mas a crise deixou o cenário obscuro.

“A predisposição de um presidente em relação à política externa é importante. A Dilma não se interessou pelo tema e não quis manter o ativismo. Mas depois (no governo Temer) foi afetada pela crise interna que demandou todas as energias”, afirmou o professor Matias Spektor, coordenador do Centro de Relações Internacionais da FGV.

Depois do impeachment, o Brasil ficou com dificuldades em estabelecer uma agenda propositiva em política externa. Teve alguns momentos de atuação, principalmente, no caso da Venezuela, mas acordos bilaterais e negociações com outros governos emperraram. “Como alguns países consideraram que a mudança de governo no Brasil foi irregular – expressando isso em notas e chegando até mesmo a ordenar a volta de embaixadores –, é compreensível que a política externa tenha sido de reação. Mas, aos poucos, as coisas devem começar a entrar na normalidade neste campo”, disse o embaixador Rubens Ricupero.

A dificuldade em manter uma agenda de política externa só deve diminuir após as eleições. “Hoje, tudo depende do resultado da eleição. O cenário internacional para toda a América Latina em 2019 será complexo e turbulento”, afirmou Stuenkel. Enquanto isso, pautas comerciais e acordos multilaterais tendem a continuar no limbo. Em 2019, o Brasil vai sediar a cúpula dos Brics para decidir quem ocupará a próxima presidência do organismo. A negociação entre Mercosul e a União Europeia, em andamento desde 1999, também deve ser concluída em 2019. “Talvez as incertezas aumentem, se o eleito for uma pessoa radical que afaste o Brasil das negociações”, disse Stuenkel.

O QUE DIZEM OS PRESIDENCIÁVEIS
Como o Brasil deve tratar o governo de Maduro, da Venezuela?

““Defendo as medidas que visam impulsionar o restabelecimento da ordem democrática na Venezuela.”

Alvaro Dias, CANDIDATO DO PODEMOS

“O papel do Brasil, por sua posição na América Latina e relações com a Venezuela, é o de mediar o conflito interno.”

Ciro Gomes, CANDIDATO DO PDT

“O Brasil respeita a autonomia dos povos e deve manter esta linha. E investigar denúncias de infração a direitos humanos.”

Fernando Haddad, REPRESENTANTE DO CANDIDATO DO PT

“O Brasil deve se posicionar contra as violações de direitos humanos pelo governo autoritário de Maduro.”

Geraldo Alckmin, CANDIDATO DO PSDB

“O Brasil deve se pautar nos organismos internacionais pela defesa da autonomia e soberania dos países.”

Guilherme Boulos, CANDIDATO DO PSOL

“O Brasil deve condenar o governo ditatorial na Venezuela em todos os órgãos internacionais.”

João Amoêdo, CANDIDATO DO NOVO

“A Venezuela deixou de ser uma democracia, mas acredito que a diplomacia é o caminho para solucionar o problema.”

Marina Silva, CANDIDATA DA REDE

“Devemos restringir a imigração.”

Cabo Daciolo, CANDIDATO DO PATRIOTA

“Ditadura merece o nosso repúdio.”

Vera Lúcia, CANDIDATA DO PSTU

“É preciso solidariedade internacional.”

Eymael, CANDIDATO DA DEMOCRACIA CRISTÃ

Não respondeu: Jair Bolsonaro, CANDIDATO DO PSL