Economia

Piora da guerra comercial pode reduzir o PIB do Brasil em 2019, alerta Itaú Unibanco

Se a guerra comercial se intensificar, o PIB brasileiro poderia ser impactado por uma redução de até 1 ponto percentual em 2019

Piora da guerra comercial pode reduzir o PIB do Brasil em 2019, alerta Itaú Unibanco

Crédito: Daniel Teixeira/Estadão

A escalada de riscos sobre a economia mundial vem ganhando força e deve representar um dos principais pontos de atenção para o Brasil no próximo ano. Se a guerra comercial se intensificar, o PIB brasileiro poderia ser impactado por uma redução de até 1 ponto percentual em 2019, nos cálculos do Itaú Unibanco. A conta considera uma desaceleração mais forte da China. A previsão original é que a economia asiática cresça 6,1% no ano que vem. Num cenário de aumento das barreiras pelo mundo, esse número poderia cair para 4,5%. Para o Brasil, o banco estima originalmente um crescimento de 2,5% do PIB em 2019.

A China é o principal destino das exportações brasileiras, responsável por cerca de 30% das vendas externas. O país é o principal alvo das medidas protecionistas anunciadas pelo presidente americano, Donald Trump. Em reunião do G20, no último final de semana, Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, prometeram uma trégua na imposição de tarifas adicionais sobre os produtos de ambas as origens, por um período de 90 dias. O temor do mercado acerca do real compromisso de ambas as partes, porém, levou uma tormenta nas bolsas mundiais nos últimos dias e fez reviver a perspectiva de um impacto mais profundo na economia mundial.

Entidades internacionais vêm emitindo alertas nas últimas semanas para a trajetória de desaceleração do PIB global e convocando autoridades a trabalhar contra a imposição de novas barreiras. “A guerra comercial já está tendo algum impacto. Vemos economias da Ásia mais abertas tendo que injetar estímulo para evitar o efeito sobre a atividade econômica”, afirmou o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita. A expectativa do banco é de um crescimento da economia mundial de 3,5% em 2019, ante 3,8% neste ano.

Há riscos também de uma desaceleração mais brusca nos Estados Unidos, com o fim dos efeitos positivos do estímulo fiscal injetado por Trump e a alta dos juros pelo banco central (Fed, na sigla inglês). A hipótese de uma recessão da economia americana não está descartada. “Não parece ser o cenário de curto prazo, mas o ambiente para 2019 já parece um pouco mais nebuloso”, afirmou Mesquita. “A própria linguagem do Fed já está na linha de que o gato subiu no telhado.”

A conjuntura desfavorável no exterior aumenta a pressão pela aprovação das reformas no Brasil. Caso contrário, a fragilidade das contas públicas seria interpretada mais uma vez como uma frente de vulnerabilidade pelos investidores estrangeiros e poderia impactar indicadores como o dólar e a taxa de juros. As projeções do Itaú Unibanco para o Brasil em 2019 pressupõem um avanço na revisão das regras de aposentadoria, considerada essencial para frear o crescimento das despesas públicas.

Para os economistas do banco, seria oportuno que o governo já aproveitasse o projeto de reforma elaborado pelo governo do presidente Michel Temer, que já avançou no Congresso. A apresentação de uma nova proposta pela equipe do presidente Jair Bolsonaro atrasaria a apreciação do texto em no mínimo seis meses, deixando a discussão para o final de 2019. “Se mandar uma reforma em março, o mais cedo que tem para votar é setembro”, afirma Mesquita.

No geral, a fotografia atual da economia brasileira mostra um avanço em relação aos últimos meses, quando o ritmo de crescimento caiu a próximo de zero após a greve dos caminhoneiros e diante das incertezas eleitorais. Com a melhora da confiança e das condições financeiras, a velocidade do PIB está hoje próximo de 2%, calculam os economistas. Para que chegue a 2,5% como previsto para 2019, é preciso que as reformas saiam do papel. As projeções do Itaú Unibanco indicam ainda que dólar deve terminar o próximo ano em R$ 3,90, o IPCA (índice oficial de inflação) fique em 4,2% e a taxa básica de juros fique estável em 6%.