Tecnologia

Pinterest se inspira na receita

Rede social de compartilhamento de imagens lança no Brasil ferramentas de publicidade para transformar audiência em rentabilidade.

Crédito: Claudio Gatti

MONETIZAÇÃO Diretor-executivo para a América Latina, André Loureiro foi contratado há seis meses para comandar a implementação do Pinterest Ads na região. (Crédito: Claudio Gatti )

Um dos maiores artistas plásticos de todos os tempos, o espanhol Pablo Picasso (1881-1973) tinha uma definição peculiar sobre seus lampejos de criação, que renderam um legado de 13 mil quadros, 100 mil desenhos e 300 esculturas. “A inspiração existe, porém temos de encontrá-la trabalhando”, dizia o pintor. Uma descrição baseada na realidade do início do século 20 e que se mantém apropriada, com a diferença de que a busca por inspiração tem sido facilitada em um mundo cada vez mais tecnológico. Atualmente, quase meio século após a morte de um dos fundadores do movimento cubista, uma das principais ferramentas digitais usadas para pesquisar referências, descobrir tendências e encontrar inspirações é o Pinterest, rede social de compartilhamento de imagens. A plataforma é o ponto de partida para milhões de pessoas ao redor do planeta que caçam informações e recomendações, principalmente em áreas como decoração, moda, beleza, viagem e gastronomia. São 459 milhões de usuários no mundo, 10% deles no Brasil. Uma multidão que gera conteúdo e audiência, mas ainda não dá lucro. Para transformar audiência em rentabilidade, o Pinteret aposta em seu plano de internacionalização. Com 46 milhões de pessoas cadastradas, o Brasil é peça-chave da estratégia. Por aqui, a rede social criada em 2010 nos Estados Unidos acaba de lançar o Pinterest Ads, para que as empresas possam impulsionar seus conteúdos, divulgar seus produtos e serviços e vender mais. E, claro, engordar a receita da rede. “Os anúncios cumprem a função de fechar o looping da jornada dos usuários, que entram, pesquisam, se inspiram e agora vão saber com mais facilidade as marcas e os produtos específicos que procuram”, afirmou André Loureiro, diretor-executivo do Pinterest para a América Latina.

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“É um ganho positivo tanto para a plataforma, que se torna rentável, quanto para quem anuncia, além dos próprios usuários” Rafael Arty, diretor da Squid.

Com passagens por Waze e Google, Loureiro foi contratado em novembro do ano passado para comandar a implantação das ferramentas de publicidade do Pinterest na região. O lançamento do Ads ocorreu no início de abril no Brasil, primeiro país da América Latina a receber a novidade e virar um mercado monetizado da plataforma. As soluções já estão à disposição dos anunciantes. O próximo passo da rede social será dado no dia 12 de maio, quando realiza evento virtual para explicar melhor seu funcionamento e o perfil dos usuários brasileiros às agências de marketing e às empresas. A atividade terá participação do cofundador e CEO global do Pinterest, Ben Silbermann. Uma mostra da importância do Brasil no plano da companhia, onde é a sétima maior rede social em número de usuários, em ranking liderado pelo Facebook, com 130 milhões de inscritos, segundo dados da RD Station. Em breve, as soluções de publicidade serão levadas ao México e depois aos demais países da América Latina. Evoluir o catálogo de referências de uma distribuição orgânica para uma divulgação comercial, tanto para gigantes quanto para microempresas, é um movimento bem avaliado por especialistas em análise de publicidade digital. “O mercado ganha uma plataforma muito particular e inspiracional. O plano estratégico de investimento das marcas ganha em qualidade e complexidade, e o consumidor uma presença de marca adequada ao seu momento de consumo”, afirmou Camilo Barros, head de parcerias na América Latina da VidMob, empresa de inteligência criativa.

Além de consolidar marcas conhecidas, o Pinterest Ads serve também a descoberta de novas possibilidades pelos consumidores. De acordo com dados da própria rede, 84% dos usuários a utilizam quando estão decidindo o que comprar e 77% conheceram novas marcas ou produtos. “É um ganho positivo tanto para a plataforma, que se torna rentável, quanto para quem anuncia, além claro para o próprio usuário que terá a facilidade de compra segmentada por interesse”, disse Rafael Arty, diretor comercial da Squid, especializada em marketing de influência.

O Pinterest Ads teve uma versão beta liberada para uso de alguns parceiros antes de ser lançado no mercado brasileiro. Os retornos foram positivos. A Samsung divulgou o lançamento do smartphone S21 em fevereiro. “Queremos estar onde nossos consumidores estão. A parceria com o Pinterest reforça nossa premissa de continuarmos inovando”, afirmou Juliano Fortini, supervisor de marketing digital da divisão de dispositivos móveis da Samsung Brasil. E-commerce de casa e decoração, a Westwing também impulsionou seus conteúdos em testes práticos. “Acreditamos no potencial da plataforma também para acelerar o conhecimento e engajamento da nossa marca”, afirmou Renato Grego, CMO da Westwing Brasil.

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“O mercado ganha uma plataforma muito particular e inspiracional. O plano estratégico de investimento das marcas ganha em qualidade” Camilo Barros, executivo da Vidmob.

EQUILÍBRIO A presença mais efetiva no Brasil e na América Latina visa equilibrar a lógica de faturamento do Pinterest, em que 84% da receita são oriundos de contratos efetivados nos Estados Unidos, país que possui 21% (98 milhões) dos inscritos no mundo. Apenas 16% das vendas provêm das nações em que a empresa possui 79% de seus usuários. Em 2020, a receita global da rede foi de US$ 1,693 bilhão. O balanço fechou com prejuízo de US$ 128,3 milhões. Em 2019, a receita foi de US$ 1,142 bilhão, com US$ 1,361 bilhão no vermelho.

Os resultados negativos são explicados pelos pesados investimentos em pesquisa e desenvolvimento e nas ações de marketing realizadas para conquistar mais usuários e promover maior engajamento. Os contundentes valores depositados nessas áreas chegaram a US$ 1,049 bilhão em 2020 e US$ 1,8 bilhão no ano anterior. A tendência é diminuir o ritmo de aplicações em P&D e marketing e aumentar a arrecadação ao pulverizar os mercados monetizados, como acontece neste momento no Brasil, onde o Pinterest tem operação há sete anos. “Investimos para termos uma plataforma relevante, tanto por conteúdo quanto por presença de marca. Agora vamos enriquecer a experiência das marcas. Esperamos milhares de anunciantes, com amplitude e escala rápida”, disse André Loureiro.

O aumento do marketing digital é uma tendência observada no estudo da consultoria norueguesa Meltwater. Estima-se que os gastos com esse tipo de publicidade aumentem em 2,4% globalmente neste ano, para US$ 332,84 bilhões, o que equivale a 54,1% dos investimentos totais com anúncios de mídia. Líder entre as redes sociais com 2,7 bilhões de usuários no planeta, o Facebook fechou 2020 com receita de US$ 85,9 bilhões, alta de 21,6% em relação ao ano anterior. Para manter o crescimento, tem investido em melhoria dos motores de distribuição e performance de campanhas. Os concorrentes também. O fenômeno juvenil TikTok, com 690 milhões de usuários no mundo, lançou o TikTok For Business recentemente no Brasil. O Pinterest tem buscado seu espaço nesse mercado calcado na premissa de Pablo Picasso, de que a inspiração existe, porém temos que encontrá-la trabalhando.