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Philips dentro do hospital

Ao constatar que a demanda por equipamentos médicos multiplicou durante a pandemia, a empresa concentra seus investimentos de 100 milhões de euros para ampliar a produção de respiradores e monitores.

Crédito: Divulgação

Há cerca de uma década, a Philips decidiu deixar de ser uma empresa conhecida pela produção de lâmpadas e aparelhos de TV. De lá para cá, tem investido no aumento da participação no segmento de equipamentos médicos. O crescimento de casos da Covid-19 em todo o mundo tem acelerado, quase que na mesma proporção, o ritmo para entregar a governos e unidades de saúde máquinas que garantam sobrevida a pacientes que não param de ocupar leitos em busca de tratamento. Enquanto isso, a comunidade científica segue na corrida pela vacina.

Diante da pandemia, a companhia investirá ao menos 100 milhões de euros
(R$ 633 milhões) para aumentar o seu volume de produção neste ano. Até a terça-feira 19, o planeta registrava 4,7 milhões de casos de Covid-19. Somente no Brasil, a contagem já ultrapassava 18 mil mortes. Os números da Philips ratificam esse aumento global da demanda por equipamentos que auxiliam os infectados mais graves. No primeiro trimestre deste ano, houve aumento de 23% nos pedidos relacionados a imagens diagnósticas, respiradores artificiais e monitores.

Até março deste ano, quando a pandemia já havia sido declarada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Brasil, iniciado o processo de quarentena em boa parte dos estados, a companhia registrou faturamento de 4,16 bilhões de euros (R$ 26,3 bilhões), contra 4,15 bilhões de euros dos primeiros três meses de 2019, aumento de apenas 0,2%. E só subiu pouco porque o setor de saúde pessoal da empresa – onde estão itens como escovas elétricas, barbeadores e eletrodomésticos – despencou no primeiro trimestre, neutralizando a alta do segmento de diagnóstico e o de cuidados conectados, fatia em que se enquadram os respiradores.

“A maior preocupação é atender, o mais rápido possível, a quem está precisando. A Itália demorou muito e teve grandes problemas” Fabia Tetteroo-Bueno Ceo da Philips na América Latina (Crédito:Divulgação)

No campo relacionado aos aparelhos que garantem a respiração artificial, o aumento no trimestre foi de 9%, com 1,1 bilhão de euros (R$ 7 bilhões) em 2020, ante 1 bilhão no mesmo período do ano passado. Já a procura por itens de saúde bucal e eletrodomésticos caiu 12,1%. Respiradores e monitores representaram 24% das vendas da Philips em 2019. Com o resultado dos três meses de 2020, em plena crise por causa da pandemia e na corrida por aparelhos, esses aparelhos já somam 26,6% do faturamento. Somados aos equipamentos de imagem, atingem 70,6% de tudo o que a empresa holandesa registra como entrada em seu caixa. Em 2019, a Philips registrou faturamento de 19,5 bilhões de euros(R$ 123,4 bilhões), com ritmo de aceleração nas vendas da ordem de 7,2% sobre 2018, quando a companhia fechou com 18,1 bilhões de euros.

NO BRASIL A empresa enxerga o Brasil como grande potencial para aumentar sua receita, principalmente pela grande dimensão do Sistema Único de Saúde (SUS). A CEO da companhia para a América Latina, Fabia Tetteroo-Bueno, diz que a demanda com a pandemia cresceu pelo menos cinco vezes, num ritmo até então nunca alcançado por toda a indústria mundial de equipamentos. “Uma vez que tenha passado o pico da procura por respiradores e monitores, o que enxergamos é que os hospitais, principalmente os públicos, despertarão para a realidade de que é necessário garantir mais acesso à população”, diz. Segundo ela, o foco do País será assegurar a mesma qualidade do setor privado em hospitais e UTI’s administrados a partir de recursos públicos. “Todos vão precisar se reinventar, tanto hospitais públicos quanto privados, principalmente no atendimento primário. Ninguém mais vai querer gente no hospital com dor de cabeça para ir à emergência. Isso vai ficar no passado”.

NOVOS MODELOS A executiva da Philips destaca que o setor hospitalar passará por mudanças. “Todos vão precisar se reinventar, tanto hospitais públicos quanto privados”, declara Fabia
Tetteroo-Bueno. (Crédito:Eduardo Valente)

Para ela, mesmo sem reajuste significativo no preço dos produtos da Philips a partir da enorme demanda – em contraste com o que se tem percebido nas aquisições de equipamentos médicos por vários países –, os custos para chegada dos itens ficaram mais altos. Especialmente, por causa do transporte, já que há menos voos disponíveis e possibilidade de embarques por navios. A maioria dos respiradores produzidos pela Philips é fabricada nos Estados Unidos, com componentes que vêm do México e da China. Já os monitores são feitos na Alemanha e na China. No mês passado, a Philips iniciou a produção de um modelo de respirador mais simples, com menos recursos tecnológicos, mas que pode ser usado em leitos de hospitais. Em virtude da pandemia, a companhia recebeu autorização especial do FDA para uso, enquanto durar o período de emergência de saúde pública. Por ter capacidade menor, esse aparelho é direcionado para pacientes com sintomas menos graves, mas que ainda assim necessitam de auxílio para conseguir respirar.

ANVISA Com isso, a expectativa é de produzir 15 mil unidades do equipamento por semana. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também aprovou a comercialização do produto. Já há pedidos no País, mas a empresa não revela os números. A CEO da companhia na América Latina diz que, no Brasil, a procura de equipamentos em geral tem sido maior por parte dos governos estaduais do que pela União. “A maior preocupação é atender, o mais rápido possível, a quem está precisando. Nesse sentido, a Itália, por exemplo, demorou muito e teve grandes problemas.”

POTENCIAL Pela grande dimensão do Sistema Único de Saúde (SUS), a empresa enxerga o Brasil como mercado promissor. (Crédito: Antonio Molina)

Já o superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratórios (Abimo), Paulo Henrique Fraccaro, observa que a indústria nacional, que até então tinha capacidade de produção de cerca de 15 mil respiradores ao ano, teve de se redimensionar para garantir essa demanda ao governo federal em até três meses.

Para conseguir atender à demanda, as quatro indústrias que produzem respiradores no Brasil uniram forças. O prazo, no entanto, poderá ser alterado, caso haja dificuldade na importação dos componentes necessários, que, vindo em sua maioria da China, sofreram variação de preço desde o início da crise. “Antes da pandemia, tínhamos cerca de 60 mil respiradores nos hospitais do País e nossa necessidade era de pelo menos mais 15 mil. Vamos ter de administrar bem esses equipamentos depois do pico”, afirma Fraccaro. Para ele, é necessário um melhor controle dos recursos públicos, especialmente em saúde. “O que falta para o SUS é uma administração mais eficiente. Não podemos aceitar que haja tantos equipamentos sucateados e sem manutenção na rede pública.”

TECNOLOGIA Mas também há ações positivas no País. Criado em 2016, o centro de excelência em tecnologia da Philips em Blumenau, Santa Catarina, por exemplo, tem sido responsável por desenvolver softwares que ajudam na redução de custos e facilitam acessos a dados de pacientes. Segundo Fabia Tetteroo-Bueno, uma das principais apostas de crescimento está no sistema de gerenciamento Tasy, espécie de prontuário médio eletrônico e contínuo criado no Brasil. “Já fizemos do programa uma importante ferramenta de gerenciamento. Agora, com a Covid-19, vem crescendo muito. Em duas semanas, já são mais de 1 mil hospitais interessados”, afirma a CEO da Philips. “O Brasil deixou de ser conhecido como um grande polo consumidor de iluminação e TV, para hoje ser um polo de software e saúde.”

Para o executivo da Abimo, as regras rígidas de compras públicas prejudicaram aquisições mais rápidas de equipamentos do exterior. “As compras atrasaram porque o Brasil estava amarrado ao sistema de licitação que era proibido pagar antecipado e só comprava com pagamento 30 dias após a entrega. Hoje, é necessário pagar antecipado. O governo federal demorou para entender que o mundo mudou”, diz Paulo Fraccaro. Com várias denúncias de superfaturamento em aquisições e até de equipamentos com defeitos adquiridos por governos estaduais, o fato é que essa demora está custando muito caro aos brasileiros. Em todos os sentidos.