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Perda bilionária em Wall Street

Bill Hwang, da Archegos Capital Management, parecia ter um patrimônio de US$ 10 bilhões. Até que tudo desmoronou.

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PERFIL DISCRETO Avesso à exposição, Hwang montou posições enormes com ações de empresas americanas usando dinheiro de terceiros. (Crédito: Divulgação)

O gestor de fundos coreano Sung Kook Hwang, apelidado Bill Hwang, sempre evitou publicidade. Criado na Coreia do Sul, ele emigrou para os Estados Unidos no início dos anos 1990 e começou sua carreira na Hyundai Securities. Mais tarde, ele foi trabalhar com o gestor Julian Robertson, fundador do Tiger Management, um dos maiores fundos de hedge americano. Recebeu o apelido de “filhote de tigre” e aprendeu os macetes de fazer apostas extremamente alavancadas.

Hwang saiu de lá em 2010, para fundar o Tiger Asia Management. Três anos depois, declarou-se culpado de usar informações privilegiadas ao especular com ações de bancos chineses. Pagou US$ 44 milhões em multas, fechou fundo e criou um family office denominado Archegos Capital Management, onde depositou seu patrimônio pessoal. Sumiu de vista e dedicou-se a multiplicar seu dinheiro, que cresceu para US$ 10 bilhões. Até o dia 26 de março. Na tarde daquela sexta-feira, a Archegos, termo bíblico oriundo do grego que quer dizer “o que lidera”, liderou a mais recente catástrofe envolvendo fundos de hedge do mercado americano, provocando perdas bilionárias e destruindo bilhões de dólares em valor de mercado de alguns dos maiores bancos de investimento do mundo.

O roteiro é clássico. Um gestor de fundos usa dinheiro de terceiros, em geral bancos de investimento, para fazer apostas pesadas e arriscadas em algum ativo financeiro. Para emprestar o dinheiro, os bancos exigem garantias. Em geral, o próprio ativo financeiro que é usado na operação.

Quando dá certo, o gestor vende os ativos com lucro, os bancos são remunerados por seu crédito, os executivos embolsam os bônus do fim do ano e todos ficam felizes. Quando algo sai errado, os bancos têm dois caminhos. Ou cortam o crédito, ou executar as garantias, um movimento denominado “chamada de margem”. Foi o que ocorreu na sexta-feira.

O que precipitou a tragédia foi uma tentativa da empresa de mídia Viacom de captar recursos por meio de uma emissão de ações, lançada no dia 22 de março. A iniciativa deu errado, os papéis encalharam e as cotações desabaram, recuando todos os dias até amargar uma baixa de 52% na semana. A cada queda, maiores eram as garantias exigidas pelos bancos, uma vez que Hwang possuía centenas de milhões de dólares nas ações da empresa.

Como é praxe nesses casos, a chamada de margem precipitou vendas de ações por parte da Archegos. As vendas de ações provocaram prejuízos. Os prejuízos fizeram os bancos realizar novas chamadas de margem. Estas obrigaram a Archegos a vender ainda mais ações. Quando a ciranda acabou, o prejuízo total contabilizado pelos bancos era estimado pelos mais pessimistas em US$ 30 bilhões.

Os dois bancos que mais forneceram garantias para a Archegos, o japonês Nomura e o suíço Credit Suisse viram suas ações cair mais de 14% em um só pregão. Menos envolvidos, bancos americanos como Citigroup, Wells Fargo e JP Morgan sofreram perdas menores, mas ainda não acabaram de contabilizar os prejuízos. É bastante provável que mais problemas surjam nos próximos dias. Quem sofreu menos foi o Goldman Sachs. A falta de transparência da Archegos o desestimulou a fazer negócios com Hwang. Porém, as reticências sumiram ao ver os lucros dos concorrentes.

TRANSPARÊNCIA A situação foi agravada pela falta de transparência da Archegos. Por ser um family office e gerir apenas recursos próprios, ela estava legalmente dispensada de divulgar informações financeiras. Os family offices não são obrigados a informar suas posições à Securities and Exchange Commission (SEC), equivalente americano da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Hwang conseguiu blindar mais ainda as informações sobre suas posições, pois ele especulava com as ações por meio de contratos derivativos – compromissos de compra e venda negociados com os próprios bancos que forneceram as garantias (parece nebuloso e é mesmo). E, pelas regras, esses derivativos não têm de ser declarados nem pelos bancos nem pelos fundos que os compram.

Casos assim vêm ocorrendo há anos. O maior até agora foi a fraude realizada por Bernard Madoff, que provocou prejuízos de US$ 65 bilhões em 2008, na esteira da crise do subprime. Agora, a liquidez elevada e os juros baixos baratearam a especulação financeira. O episódio da Archegos não será o último.