Finanças

Pequenos IPOs em alta

Plataformas de captação de recursos facilitam às startups encontrar investidores e obter capital para crescer.

Crédito: Gabriel Reis

DINHEIRO EM PROFUSÃO Camila Nasser, fundadora da plataforma Kria, comemora o bom momento do mercado. (Crédito: Gabriel Reis )

O amadurecimento do mercado de capitais brasileiro vai além da Bolsa. Em 2017, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) regulamentou as ofertas públicas de distribuição de valores mobiliários de pequeno porte. O processo é mais simples do que os Initial Public Offerings (IPOs) tradicionais, e pode ser realizado por meio de plataformas eletrônicas de investimento participativo. Houve poucos negócios durante os primeiros anos de vigência da regra. No entanto, a queda dos juros e o interesse dos investidores em aproveitar os lucros polpudos gerados nas primeiras fases de crescimento das startups estão fazendo esse mercado florescer. No primeiro semestre de 2021 foram investidos US$ 5,2 bilhões em startups brasileiras, um recorde. O número supera em 45% o total de 2020, e em 299% a cifra de US$ 1,3 bilhão do primeiro semestre do ano passado. No mundo, as startups receberam US$ 288 bilhões no primeiro semestre – alta de 95% em comparação com os US$ 148 bilhões do primeiro semestre de 2020.

Esses números são fonte de alegria para a CEO da plataforma de investimentos Kria, Camila Nasser. Fundada há sete anos, sua empresa auxilia startups promissoras a conseguir capital para crescer. “Quando começamos, nem se falava em IPOs de pequenas companhias”, disse ela. “Mas esperar que uma empresa lance ações só quando ela for grande é perder parte do valor gerado durante o crescimento.”

A Kria acompanhou os exemplos de sucesso do crowdfunding internacional, que abre espaço para inovação, como a Crowd Cube, maior plataforma do Reino Unido. Por ela passaram 19% dos unicórnios britânicos – as startups que valem mais de US$ 1 bilhão antes da abertura de capital. Por aqui, entre os sucessos recentes da Kria estão a operadora de telefonia digital Fluke e a cervejaria Leuven, que captou R$ 5 milhões em agosto do ano passado, estabelecendo um novo patamar para o crowdfunding no Brasil.

De acordo com professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Bruno Diniz, a regulamentação publicada em 2017 permitiu o surgimento das plataformas de equity crowdfunding como uma alternativa mais viável para a captação de recursos. “Numa economia bastante digital é fundamental que as empresas cresçam mais rapidamente, e essas ferramentas são essenciais”, disse. As plataformas são democráticas e qualquer um pode se cadastrar e participar. Porém, o advogado e sócio do escritório de advocacia Demarest, João Minetto, adverte que é preciso ter cuidado para se investir em novatas. “O maior risco nesses casos é mais na natureza do negócio. Em estágio preliminar, essas empresas estão mais sujeitas a testes de maturação do que a riscos jurídicos propriamente ditos”, afirmou.

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“Numa economia bastante digital é fundamental que as empresas cresçam mais rapidamente” João Minetto sócio do escritório de advocacia Demarest.

Segundo ele, as plataformas permitem às startups evitar os custos elevados dos processos de abertura de capital. Há alguns anos, a B3 criou o programa Bovespa+ para quem não estivesse maduro suficiente para atingir o Novo Mercado. Porém, a ferramenta não evoluiu tão bem quanto se esperava, o que levou essas empresas a buscar o crowdfunding. Muitas plataformas se especializaram nisso. Nomes como a Captable, que também oferece cursos de inovação, a SMU Investimentos, a Eqseed e a Kria. “É uma porta que se abre para todo os tipos de investidor e mais caminhos para que empresas da nova economia captem recursos”, disse Diniz, da FGV. “A Bolsa se ocupa com companhias de outros portes.”

Na visão de Camila Nasser, a probabilidade de ganho tem sido mais forte para o investidor do que a preocupação com os riscos. Por isso, o mercado brasileiro vem batendo recordes, e já transacionou 84% a mais de 2019 para 2020. E para este ano a expectativa da Kria é crescer 400%, por causa do foco total em atrair novos investidores com boas oportunidades, disse ela. “Usamos todo o conhecimento armazenado em sete anos para selecionar bons negócios para os investidores. Para isso, temos um modelo rígido como dos fundos de venture capital, analisando premissas, e contamos com experts que validam essa seleção.”