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Passaporte para os lucros

Mercado de capitais brasileiro representa apenas 1% do total de investimentos mundiais. Por que não aproveitar os demais 99%?

Passaporte para os lucros

Em 2018, 22,5 mil brasileiros deixaram o País em busca de dias melhores além mar, um crescimento de 6,1% na comparação com 2017. Segundo a Receita Federal, nos últimos oito anos 118,5 mil brasileiras e brasileiros entregaram declarações de saída definitiva do Brasil. Assim como as pessoas, os reais também podem fazer a mesma coisa. Ao destinar parte de seu patrimônio a ativos internacionais, o investidor ganha com a diversificação e se blinda contra as notícias – ou a falta delas – por aqui.

“A diversificação por meio de investimentos em ativos globais é muito mais eficiente do que a realizada com diferentes ativos locais”, diz André Natali, diretor de investimentos do fundo de pensão da empresa de infraestrutura Promon. “Tanto a renda fixa quanto a renda variável acabam sendo influenciadas pelos mesmos acontecimentos.” Nesse caso, a diversidade não protege o investidor dos solavancos. Natali administra cerca de R$ 1,6 bilhão. Desse total, 5% estão em ações dos Estados Unidos e da Europa. “Ao adicionar ao portfólio ativos com baixa correlação com os locais, conseguimos reduzir a volatilidade e o risco da carteira, o que é ótimo para momentos de incerteza”, diz Natali.

Em 2019, até o dia 23 de maio, a entidade de previdência da Promon obteve um retorno acumulado de 17% com sua alocação no exterior. No mesmo período, o Ibovespa subiu 6,8%. Ela contou com o beneficio da economia americana, que apesar da guerra comercial com a China segue pujante, tendo registrado um crescimento de 3,2% no primeiro trimestre de 2019, e da apreciação de 4,4% do dólar frente ao real no período. Dado o bom resultado, a fundação se prepara para alterar a exposição. Além do mercado acionário ela também vai iniciar a busca por ativos de crédito no exterior. “Estamos avaliando um hedge para nos proteger contra uma eventual valorização do real, que deve ocorrer com a aprovação das reformas”, diz Natali.

Carlos Takahashi, presidente da subsidiária brasileira da gestora americana de recursos Blackrock, indica outra vantagem em mandar o dinheiro para fora. “Nas bolsas dos mercados desenvolvidos o investidor pode acessar empresas e setores que não consegue encontrar no mercado local”, diz Takahashi. O exemplo mais óbvio é o setor de tecnologia, com inúmeras empresas de alto potencial de crescimento inacessíveis no Brasil. Até mesmo ações de brasileiras do nicho, como PagSeguro e Stone, só podem ser encontradas lá fora – as companhias optaram por abrir seu capital nos Estados Unidos atraídas pela liquidez muito mais abundante.

André Natali, da Fundação Promon: “Após lucrar com fundos de ações de Estados Unidos e Europa, a meta é apostar nos ativos globais de crédito” (Crédito:Divulgação)

Apenas a diferença de porte dos dois mercados justificaria o investimento. As cerca de 400 empresas brasileiras com ações negociadas em bolsa valem, ao todo, cerca de US$ 930 bilhões. Nos Estados Unidos, um só índice, o S & P 500, engloba meio milhar de companhias, avaliadas em US$ 25,5 trilhões. O mercado americano como um todo vale US$ 41 trilhões. E essas 500 são apenas uma fração das mais de 10 mil com ações negociadas em bolsa.

Historicamente, a participação dos ativos internacionais nos portfólios dos investidores brasileiros é baixa. Segundo Giuliano De Marchi, diretor da JP Morgan Asset Management para América Latina, o brasileiro destina apenas 1% de seus recursos para aplicações fora do país. Entre americanos e europeus, esse percentual varia entre 10% a 20%.

Giuliano de Marchi, da JP Morgan Asset: “Finanças comportamentais mostram que investidores preferem empresas fisicamente próximas deles” (Crédito:Divulgação)

RISCO BAIXO Há algumas razões para isso. Uma delas são as condições de mercado: por muitos anos, os títulos públicos ofereciam o conforto de um retorno elevado com risco baixo. Outra é a complicação para investir fora do Brasil, algo que só mudou recentemente. Porém, também há razões psicológicas. As finanças comportamentais apontam que é comum investidores preferirem ativos que estão fisicamente próximos deles, diz De Marchi. “Os gaúchos, por exemplo, têm uma alocação em Gerdau superior à dos paulistas ou dos cariocas, e isso vale para investidores de qualquer país”. O problema é que os ativos brasileiros representam somente 1% da capitalização do mercado global. “Ao ficar com seu capital apenas em ativos brasileiros, o investidor está deixando na mesa 99% das oportunidades”, afirma De Marchi.

O principal desafio do investidor que pretende alocar seus recursos no exterior é se educar suficientemente para estar bem preparado para saber onde está colocando seu dinheiro, diz Marc Forster, diretor da Western Asset. “O investidor que apostar em renda fixa no exterior estará exposto ao mesmo risco desse mercado aqui no Brasil, que é a alta ou a queda dos juros”, afirma Forster. “A questão é entender quais fatores influenciam esses mercados no exterior, que são totalmente diferentes dos daqui”.

Segundo De Marchi, mudanças na legislação podem aumentar os recursos de brasileiros em outras geografias. Hoje as estratégias internacionais são acessíveis apenas aos investidores com mais de R$ 1 milhão aplicados no mercado, conhecidos como qualificados. O mercado vem solicitando à CVM que investidores com menos dinheiro também possam investir em fundos offshore, mas a autarquia ainda não tomou nenhuma decisão.