Entrevista

Rodrigo Navarro, presidente da Abramat

Para salvar a economia e os empregos, o Brasil precisa resolver logo a saúde

Claudio Gatti

Para salvar a economia e os empregos, o Brasil precisa resolver logo a saúde

Apesar de ver como prioridade a segurança da população em meio à pandemia, executivo defende a adoção de medidas para a retomada econômica.

Angelo Verotti
Edição 30/04/2021 - nº 1220

Desde 2018, o engenheiro Rodrigo Navarro comanda a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat). A entidade representa 50 empresas de 22 segmentos da construção que, em 2019, responderam por 13% (R$ 58 bilhões) de tudo o que foi produzido pela cadeia no País, o correspondente a 7% do Produto Interno Bruto. No ano passado, o ramo fechou praticamente no zero a zero, com queda de 0,3%. Para ele, foi um resultado “até positivo” em meio ao cenário da Covid-19. Já em 2021, a perspectiva é de um crescimento de 4%. A construção gera 620 mil empregos diretos. A seguir, os principais trechos da entrevista:

DINHEIRO – Qual análise o senhor pode fazer a respeito de 2020 para o setor?
RODRIGO NAVARRO – Temos basicamente três canais de vendas: o varejo, as construtoras e as empreiteiras, responsáveis por grandes obras de infraestrutura. O varejo, nos últimos anos, tem sido um canal importantíssimo nas vendas. Com a chegada da pandemia, com muita gente em casa, em home office, começaram as melhorias nas residências, as pequenas reformas. Isso demandou muito material e ajudou a alavancar os negócios.

Os números foram satisfatórios?
Se eu puder resumir 2020 diria que foi um ano de superação. A previsão em janeiro indicava crescimento de 4%. Só que, em março, a Covid-19 se instalou. Em julho, a Fundação Getulio Vargas (FGV) revisou esse número para -7%. Diante disso, trabalhamos muito entre entidades, com os associados e com o governo federal, e encerramos o ano com esse -0,3%.

E o desempenho do mercado em 2021?
O trabalho continua, porque 2021 tem que ser para construir uma base para o crescimento sustentável que a gente estava tendo. O primeiro trimestre foi bastante positivo. Tivemos 15,6% de aumento no faturamento (na comparação com o mesmo período de 2020). A tendência é fechar o ano com 4% de crescimento ou até um pouco acima.

Acredita que o ritmo da vacinação vai definir o crescimento no Brasil nos próximos meses?
Para salvar a economia e os empregos, o Brasil precisa resolver logo a questão da saúde. Sem saúde, nada anda. O próprio ministro Paulo Guedes já afirmou que a melhor medida econômica é vacinar. E a gente precisa ter a regularidade da economia retomada para que possa gerar os empregos necessários.

E como fazer isso diante da velocidade da imunização no País?
O nosso setor é um dos pilares para a retomada da economia. Mesmo durante a pandemia ocorreram as aprovações do programa Casa Verde e Amarela, do Marco Regulatório do Saneamento Básico. Andamentos importantes para a indústria. Agora faltam outros, como a retomada das grandes obras de infraestrutura. Você tem de contratar pessoas, que vão receber recursos e injetá-los na economia. Assim, a engrenagem começa a girar.

O movimento de abre e fecha nas cidades tem influenciado nas vendas?
Com certeza. Esse é, inclusive, um ponto que a gente vem trabalhando. De estar toda a cadeia (materiais, varejo e construtoras) na mesma página, fazendo diagnóstico, propostas. Não é porque a obra está em atividade que a loja pode fechar. Pequenos comércios estão quebrando.

“Com a chegada da pandemia, com muita gente em casa, começaram as pequenas reformas. Isso demandou muito material de construção” (Crédito:Istock)

E qual a saída?
Temos de encontrar uma forma de olhar para a saúde, que é o principal. E, em paralelo, sempre que possível olhar de forma diferente para outros setores, que, dependendo, podem voltar a funcionar sob protocolos que assegurem a saúde. Não adianta só olhar para um lado (saúde) e não olhar para o outro (economia). Esse debate é bastante quente. E necessário.

A indústria de materiais foi impactada?
Pelo contrário. Estamos com um nível de capacidade instalada superior a 80%, mais alto do que antes da pandemia (70% em média). Até para fazer frente à demanda, que aumentou bastante. Nos casos das lojas, aí você está vendo problemas, principalmente nas menores. Quando conversámos com o governo, nós pedíamos linha de crédito, flexibilização da legislação trabalhista e de postergação de impostos para toda a cadeia. Conseguimos. As lojas menores tiveram esse alento. Mas, com o avanço da pandemia, a situação voltou a se complicar.

Quais são os principais desafios no segmento?
É óbvio que no curto prazo tem essa questão da saúde. E não é só no Brasil. Todos querendo acelerar a vacinação. Segunda coisa: acho que a tecnologia pode desempenhar um papel bastante relevante. Porque já tivemos outras crises, inclusive de saúde. O que difere hoje? A tecnologia.

Por quê?
Você tem o acesso a muitas atividades, como ensino a distância, entretenimento, trabalho. Você precisa ter a inclusão digital. Há alguns anos, nem todo varejista tinha um site, um comércio eletrônico. Aqueles que perceberam essa tendência e fizeram investimento já possuíam sistema de entrega, de vendas, desempenharam melhor. Acho que, particularmente para nós, algo preocupante é a questão das matérias-primas (o cobre e a resina plástica, por exemplo, são cobrados em dólar). A gente está tendo um custo elevado. Essa é a preocupação no médio prazo.

Há previsão de normalização?
Há dois aspectos: a questão de preço para estabilizar e parar de subir, e a questão do abastecimento. Em muitos casos, porém, existem os dois. Você tem a lei da oferta e da demanda. O que tem, está mais caro. A perspectiva inicial era que isso já tivesse sinalização de melhora no fim do primeiro trimestre, ou seja, em março. Não aconteceu. Acho que só veremos isso no segundo semestre. Uma estabilização de preço ou até algum decréscimo. Esse contexto das commodities envolve não só o Brasil, mas vários países, como China e Estados Unidos, além da Europa.

E como solucionar isso?
Tem uma série de questões envolvidas. É praticamente como trocar a turbina de um avião em pleno voo. Você sabe que precisa fazer, mas não pode parar. Por isso que as reformas são difíceis. Vamos pegar o caso da tributária. Trabalho com isso há 20 anos e acredito que, agora, a gente tem a chance de acelerar. E não só ela. Precisa acontecer rapidamente para que a gente tenha essa base de redução do custo Brasil,
de sermos competitivos.

E como a indústria pode ajudar nisso?
Um dado que eu posso dar é a perspectiva de investimento do nosso setor nos próximos 12 meses. De históricos 65%, 70% que prevíamos investir para modernizar os meios de produção, seja para expandir a capacidade ou outra coisa, esse número subiu para 80%. A indústria ainda está com esse otimismo moderado, cauteloso, por questões de externalidades, mas continua produzindo como nunca e investindo como nunca.

Há muitos contratempos?
Há preocupações. Temos que continuar nesse ritmo para fazer frente às competições internacionais. Você tem que reduzir o seu custo. Por isso que também celebramos a aprovação da Lei do Gás, que vai permitir, ao que tudo indica, a redução do preço. É um insumo que impacta não só a nossa indústria. A mesma coisa no saneamento. É um problema o País ter cerca de 100 milhões de pessoas sem tratamento e coleta de esgoto adequada. Teremos meios de atrair investimento e, consequentemente, gerar emprego.

A indústria vai ser muito beneficiada?
Sim, e você melhora também a vida de todo mundo. Há menos gente doente ocupando leito. Isso não é um dado nosso. É da Organização Mundial da Saúde. De cada dólar que você investe em saneamento, voltam US$ 34. Por isso o papel importante da construção civil. Ela sempre foi vista como uma indústria atrasada. Tem muita coisa que a gente está fazendo, de melhoria de competitividade, de custo, além da construção industrializada, que agiliza o processo, com menos perdas.

“Comemoramos a aprovação do Marco do Saneamento. Teremos meios de atrair investimento e gerar emprego” (Crédito:Evaristo Sa)

Como o senhor analisa o trabalho do governo em relação a sua indústria?
O governo, antes da crise, criou a mesa executiva da construção. Então, você tinha encontros a cada 45 dias em Brasília, com cerca de dez entidades, para ver o que precisava ser feito. Muita coisa andou. O que aconteceu com o efeito da Covid-19? Essas discussões passaram a ser semanais e não mais apenas com dez entidades e, sim, com 50. O governo tem ouvido o nosso setor. Temos procurado trabalhar em parceria, com uma postura propositiva.

Como você analisa as críticas ao governo federal em relação à condução da pandemia?
Temos que procurar fazer o melhor e cada um na sua esfera. No início, houve um posicionamento diferente do governo com relação à aceleração do ritmo de vacinação. Acho que isso é página virada. O que não pode acontecer é politizar os assuntos, seja de qual lado for. Isso atrapalha o ritmo. Estou falando de governos municipal, estadual e federal.

Na última semana, a LafargeHolcim, maior fabricante de cimento do mundo, anunciou o fim das atividades no Brasil, a exemplo do que fizeram Cabify, LG e Ford recentemente. O que tem motivado essas decisões?
O mundo todo passa por um momento complicado, com as empresas buscando tomar as melhores decisões estratégicas possíveis em meio a esses cenários incertos. De qualquer forma, fatores como previsibilidade, segurança jurídica e adequação de ambientes regulatórios a diferentes modelos de negócio – por exemplo – são sempre levados em consideração para um movimento estratégico empresarial. Por isso defendemos que além da óbvia prioridade com a saúde de todos, precisamos dar continuidade rápida às reformas estruturantes que estão em discussão no Congresso, de forma a estimular a retomada do crescimento da economia, com atração de investimentos e geração de empregos em setores chaves, como é o caso da cadeia da construção civil.

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