Ciência

Para pneumologista, Bolsonaro ‘ilude’ brasileiros com cloroquina

Para pneumologista, Bolsonaro ‘ilude’ brasileiros com cloroquina

Caputa de um vídeo publicado em 19 de julho de 2020 no Facebook oficial do presidente Jair Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro tenta “iludir” a população brasileira afirmando que a hidroxicloroquina ajuda a superar os sintomas do coronavírus contra todas as evidências científicas, declarou à AFP a pneumologista Margareth Dalcomo, do instituto de referência Fiocruz.

Bolsonaro, que anunciou ter testado positivo para a COVID-19 em 7 de julho, afirmou em várias ocasiões ter visto sua saúde melhorar graças à hidroxicloroquina.

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No domingo, exibiu como um troféu uma caixa do polêmico medicamento – que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também elogiou – para partidários do lado de fora do Palácio do Planalto, em Brasília.

PERGUNTA: A melhoria da saúde do presidente Bolsonaro pode ser atribuída à hidroxicloroquina?

RESPOSTA: “Absolutamente não. Quando eu fiquei doente, eu não tomei cloroquina, e não autorizaria quem nenhum colega meu usasse em mim.

Isso porque é um fármaco que, comprovadamente não tem nenhuma ação para a COVID-19. Esta politização que o presidente norte-americano e o presidente brasileiro fizeram desse fármaco, por razões, ao meu ver, muito pouco claras, não tem nenhuma justificativa e é uma maneira muito séria de iludir as pessoas.

Obviamente nós ficamos felizes de saber que ele está evoluindo bem, mas ele ficaria bom com a cloroquina, sem a cloroquina e apesar da cloroquina. Porque a cloroquina é um fármaco que tem inclusive alguns efeitos colaterais, razão pela qual, de maneira muito ortodoxa, ele está fazendo dois eletrocardiogramas por dia. O que significa que ele também se preocupou com a carga e toxicidade que o fármaco pode ter.

Mas o povo não pode fazer dois eletrocardiogramas por dia, nenhum lugar no SUS pode fazer isso.

Q: Esta atitude de Bolsonaro pode comprometer o combate à COVID-19 no Brasil?

R: “Desde que a epidemia chegou ao Brasil, o grande problema que nos fez perder tempo, ter uma informação paradoxal, desencontrada para a opinião publica, foi exatamente a falta de uma coordenação central que tenha trabalhado de forma harmônica com a comunidade científica, a comunidade médica, e a opinião publica.

O que está sendo feito no Brasil, um presidente mostrar uma caixa de cloroquina é um episódio lamentável, que nada tem a ver com a doença dele.

A cloroquina não é um fármaco que seja recomendável para nenhuma forma de gravidade de COVID-19.

O FDA americano contra-indica o uso. O NIH dos Estados Unidos contra-indica o uso. A OMS contra-indica o uso. As sociedades médicas brasileiras tanto de infectologia, quanto de pneumologia, a qual eu sou filiada, contra-indicam o uso.

A gente não entende, é uma coisa realmente muito difícil de ser entendida, qual a lógica que leva um presidente da República, não sendo médico, a se envolver num assunto absolutamente médico, colocar no ministério da Saúde pessoas que não são ligadas à área médica e estão tomando decisões sem ouvir a comunidade cientifica.

P: Como avalia o protocolo do ministério da Saúde que recomenda o uso da cloroquina para pacientes com sintomas leves?

R: Ele é prejudicial, embora não seja compulsório – ninguém é obrigado a seguir protocolos, a atividade médica no Brasil é uma atividade liberal, e os médicos são autorizados a fazer uso de medicações ditas “off-label” se assim os quiserem.

Eu considero equivocado, porque ele inclusive usa um chamado termo de consentimento, que é um processo longo e cuidadoso, e não é o que está sendo feito. A pessoa, na ilusão, recebe um “saquinho da ilusão”, onde são colocados comprimidos de cloroquina, eventualmente junto com um vermífugo, que também não serve para nada, com prednisona, que é uma cortisona, com vitamina C, vitamina D, com zinco… Ou seja, uma mistura de coisas que não têm o menor sentido. E isso está sendo feito em várias prefeituras do Brasil, impunemente, porque não há nada que impeça isso.

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