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Para onde vai a BRF?

A maior empresa de alimentos processados do Brasil vive sua maior crise institucional, com briga entre os sócios, desconfiança dos investidores e investigação da Polícia Federal por suspeita de manipulação de resultados laboratoriais

BRF
Operação Trapaça: policiais federais cumprem os mandados na sede da BRF, na segunda-feira 5. Nesse desdobramento da carne fraca, empresa é acusada de se unir a laboratórios para manipular resultados de exames para detecção de salmonela nas carnes (Crédito:REUTERS/Geraldo Bubniak)

A segunda-feira 5 tinha tudo para ser um recomeço para Pedro de Andrade Faria, sócio da Tarpon Investimentos. No mesmo dia em que o Conselho de Administração da BRF estaria reunido para discutir o destino do chairman Abilio Diniz, ele voltaria a dar expediente na sede da gestora. Após cinco anos no dia-a-dia da BRF, sendo os últimos dois anos como CEO, Faria havia tirado um período de descanso. Foram três meses longe do mundo dos negócios. Mas ele nem chegou a se dirigir para a avenida Faria Lima, onde fica a sede da Tarpon, uma das principais acionistas da maior empresa brasileira de alimentos processados.

Assim que amanheceu, a Polícia Federal deflagrou a Operação Trapaça, um desdobramento da Carne Fraca, que aconteceu em março de 2017. Desta vez, o alvo eram quatro unidades da BRF (duas em Goiânia, uma no Paraná e uma em Santa Catarina), que fraudavam laudos relacionados à presença de salmonela em alimentos que seriam exportados para 12 países. Segundo a investigação, havia conluio entre a empresa e cinco laboratórios credenciados ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Além da parte industrial, executivos foram levados a prestar depoimentos. Foram emitidos mandados de prisão temporária para Faria e outras dez pessoas, 27 de condução coercitiva e 53 de busca e apreensão.

Temperatura e pressão: o ministro da agricultura, Blairo Maggi, visita uma fábrica da BRF, em 2016. Na semana passada, ele passaria pela unidade de Concórdia (SC) para avaliar o projeto-piloto de um sistema de modernização da inspeção sanitária federal (Crédito:Divulgação)

Enquanto Pedro Faria seguia no carro da Polícia Federal rumo à Lapa, zona Oeste de São Paulo, para conhecer quais eram as acusações contra ele, os conselheiros da BRF começavam a chegar ao escritório da rua Hungria, na zona Sul. O encontro extraordinário foi pedido pelos fundos de pensão Petros, dos funcionários da Petrobras, e Previ, dos do Banco do Brasil, maiores acionistas da BRF, com 11,4% e 10,7% do capital, respectivamente. Com um prejuízo acumulado de R$ 1,5 bilhão nos dois últimos anos, os principais sócios da empresa partiram para a guerra e pediram a destituição de todo o Conselho de Administração, liderado por Abilio, dono de aproximadamente 4% das ações. No encontro, foram apresentados dez nomes: o de Guilherme Affonso Ferreira e José Luiz Osório, das gestoras Teorema e Jardim Botânico, respectivamente; dos executivos Roberto Funari, vice-presidente da Reckitt Benckiser, e Roberto Mendes, diretor financeiro da Localiza; além de Vasco Dias, ex-presidente da Raízen e membro do Conselho da Cosan; Dan Ioschpe, presidente do Conselho de Administração da Iochpe-Maxion; e Augusto Cruz, ex-presidente do Grupo Pão de Açúcar e membro do Conselho da JSL e da General Shopping.

Há ainda o funcionário de carreira do BB, Walter Malieni Jr, o advogado Francisco Petros e Luiz Fernando Furlan que fazem parte do grupo que está sendo derrubado. “Apesar de toda a histeria criada, os nomes devem ser bem recebidos pelo mercado”, diz uma pessoa com conhecimento do encontro. “Mas era esperada uma proposta por trás desse pedido de troca, algo que não aconteceu. Parece que ainda não existe um plano de negócio.” Por meio de nota, a Petros informou “que aguarda a aprovação da chapa apresentada para concorrer ao Conselho de Administração da BRF na Assembleia Geral Extraordinária, marcada para 26 de abril, e reforça seu compromisso em contribuir para a reformulação da estratégia de gestão e para o fortalecimento da estrutura de governança da Companhia”.

Às pessoas próximas, Abilio tem dito que vai atuar com sabedoria, para negociar a permanência da atual gestão da companhia. Esse é o ponto que mais o preocupa, pois considera vital a manutenção dos atuais executivos para a empresa sair rapidamente da crise. Neste momento, Abilio não quer partir para a briga com seus sócios. Esse tom ameno ficou explícito no documento oficial, de três páginas, disponibilizado para o público. Não houve faísca no encontro do Conselho, que se mostrou coeso com a aprovação de todos os itens da pauta, por unanimidade. Mas DINHEIRO ouviu relatos diferentes, que não constam na ata, que só se concentrou na ordem do dia.

De olho no amanhã: Abilio Diniz, Chairman da BRF, tentará convencer os conselheiros, que serão escolhidos em 26 de abril, a manter a atual gestão da empresa. Enquanto isso, ele avalia o que fazer com a sua participação (Crédito:Ana Paula Paiva/Valor )

Houve uma áspera discussão sobre a Operação Trapaça. O ambiente ficou tenso quando Francisco Petros, vice-presidente do Conselho de Administração e coordenador do comitê de auditoria, foi interpelado pelos demais conselheiros sobre o andamento das investigações internas sobre os problemas apontados pela Carne Fraca. O constrangimento foi grande quando veio à tona que ele não sabia e que, desde agosto do ano passado, não assina os documentos do comitê. “Pegou mal”, resume um conselheiro. Petros é um dos três remanescentes do atual Conselho na nova chapa.

Na sede da Polícia Federal, Pedro Faria soube que um único documento estava sendo usado contra ele: uma mensagem trocada com Helio Rubens, então vice-presidente de operação da BRF. A mensagem, enviada pelo então CEO, diz: “É um absurdo! Impressionante como sempre levamos bucha dos mesmos lugares. Hélio por favor avalie algo drástico por lá. Tem coisa que ofende nosso senso de propósito”. Para a acusação, a mensagem seria um pedido para acobertar ilegalidades que estavam sendo cometidas pela empresa. No entanto, o texto é inconclusivo. O depoimento de Rubens à PF diz que Faria pedia para fazer o que era certo, que os gestores da unidade foram demitidos e que uma diligência foi instaurada.

Alguns empresários saíram em defesa de Faria, como Elie Horn, da Cyrela; Anderson Birman, da Arezzo; Rubens Menin, da MRV; Eugenio Mattar, da Localiza; e Pedro Navio, da Kraft Heinz. “Foi uma barbaridade o que fizeram com o Pedro”, contou à DINHEIRO, em condição de anonimato, uma pessoa próxima ao executivo. “Ele teve três anos muito bons e dois de resultados ruins, mas foi o campeão da causa da transparência e do jeito certo de fazer negócio na BRF. A alegação de que ele patrocinava um esquema causa indignação.” O depoimento de Faria aconteceu na quinta-feira 8 e, no final da tarde de sexta-feira 9, ele foi liberado.

Lado a lado: Luiz Fernando Furlan, acionista da BRF, acompanhou o encontro do CEO José Drummond Jr. com o Ministro Blairo Maggi, em Brasília (Crédito:Rogerio Albuquerque)

O fato é que, com a aprovação ou não do alto escalão, as irregularidades estavam acontecendo com frequência. E isso é grave, pois colocou em xeque a credibilidade da companhia e os produtos que ela exporta para mais de 150 países. “O caso coloca em risco o trabalho de décadas para Sadia e Perdigão. A empresa está demorando para se posicionar de forma transparente para minimizar o impacto”, diz Julio Moreira, professor de branding da ESPM. “Mas elas são marcas fortes, o que ajuda em momentos de crise.” Ainda não se sabe se isso terá um efeito maior nas exportações da BRF e se contaminará a imagem do Brasil como exportador de proteína animal. Mas o estrago já está feito.

As denúncias, que provocaram essa nova operação contra a BRF, aconteceram em 2016 (antes da Carne Fraca) e foram feitas pela granjeira Cristianne Liberti, que diz ter recebido 46 mil pintos contaminados para engorda. Esses animais teriam provocado um surto de salmonela na unidade paranaense de Carambeí, mas a empresa teria conseguido manipular os resultados do laboratório. Esse foi o gatilho para o surgimento da Trapaça. “Foi uma operação requentada, que ninguém entendeu nada e só serviu para tumultuar ainda mais o ambiente da BRF”, diz um dos principais acionistas da companhia. “Mas a empresa vai superar esse problema mais uma vez.”

As ações da BRF, que já estavam sendo bastante penalizadas pelos investidores, em razão da briga entre os fundos de pensão e Abílio, sofreram uma desvalorização brusca no dia da operação da PF. A queda de 19,75% foi a maior perda diária da história da empresa, formada em 2009 pela fusão de Perdigão e Sadia. Nesse único pregão, o valor de mercado da empresa encolheu R$ 5 bilhões, para R$ 20,1 bilhões, fazendo a companhia regredir para os mesmo níveis da época da união. Assim como aconteceu com Petrobras e Eletrobras, investidores americanos estão avaliando se vão processar a BRF nos EUA, caso encontrem provas de que o alto comando burlou regras do mercado de capitais americano.

Palavras ao vento: em e-mail, Pedro Faria (à direita), então CEO da BRF, pede que Helio Rubens (à esquerda), vice-presidente de operações, resolvesse o problema de uma vez. para a investigação, ele tentava acobertar um esquema de fraude. Mas as palavras são inconclusivas (Crédito:Divulgação)

Em meio a todo o caos instalado e o pânico criado, o executivo José Drummond Júnior foi para a linha de frente do combate e movimentou-se para controlar a crise. Ele foi escolhido para assumir a presidência da BRF, no lugar de Pedro Faria, em 22 de novembro do ano passado. O executivo atendia os requisitos pedidos pelos principais acionistas da companhia: ser um profissional com experiência de mercado. Drummond Jr. havia sido presidente da Whirpool, Eneva e Alcoa. Suas ações causaram boa impressão, inclusive em Furlan, que viajou com ele para Brasília, na terça-feira 6, para um encontro com o ministro da Agricultura, Blairo Maggi.

O objetivo era tranquilizar o governo e mostrar que a BRF tem força financeira para aguentar o choque. A empresa detém R$ 7,4 bilhões em caixa, uma liquidez suficiente para amortizar as dívidas do curto prazo (veja quadro Caixa Forte, na pág. ao lado). Além disso, há um crédito de US$ 1 bilhão aprovado com instituições financeiras no exterior, que pode ser utilizado. “Infelizmente, a BRF foi a que mais foi acusada. Tenho até dó porque ela ficou sob nossa orientação, passamos a fiscalizar com freqüência e de fato fizeram a lição de casa, subiram de patamar. No momento em que começava a ganhar elogios, leva uma bordoada. Mas são coisas do passado”, disse Maggi. Na sexta-feira 9, o ministro faria uma visita à unidade da BRF na cidade catarinense de Concordia para ver como está o andamento de um projeto experimental de modernização do Sistema de Inspeção Federal (SIF), do Mapa.

Após o encontro com Maggi, o CEO da BRF voltou para a sede da empresa em São Paulo e grudou o telefone na orelha: ligou para os principais bancos brasileiros e para os maiores fornecedores para explicar o que estava sendo feito. Uma comunicação direta também foi aberta com os funcionários. “O Drummond está fazendo um excelente trabalho desde que assumiu, mostrando liderança e inspiração para todo o time”, afirma um executivo da companhia. A produção das quatro unidades fechadas foram remanejadas. Em Goiás, cerca de 300 mil aves são abatidas na cidade de Rio Verde e 125 mil, em Mineiros. O total diário da BRF é de, aproximadamente, seis milhões de aves.

“Essas são unidades de exportação. Com as vendas suspensas, temos de esperar”, diz Edson Novaes, diretor-executivo do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag). “Mas o lado positivo é que foi o Mapa que suspendeu e não os importadores. Além disso, são problemas do passado, que aconteceram de 2012 a 2014.” O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), entidade que representa as cadeias agroindustriais de aves, ovos e suínos no País, Francisco Turra, concorda: “Isso tem de ser levado em conta pelo ministério. Monitorando e acompanhando, não há razão para brecar a produção. Ele pode tratar sobre o lote que teve problema e não sobre a produção toda”.

INTERESSADAS Longe do dia a dia da produção, os principais investidores avaliam o que fazer com as participações na BRF. Fundos estrangeiros, como o Temasek, do governo de Cingapura, teriam mostrado interesse em adquirir quantidades relevantes de ações. Mas, nenhum dos principais sócios se mostra interessado em fazer uma venda em bloco. A não ser que o interessado chegue a um preço satisfatório. Abilio Diniz, que adquiriu R$ 1,25 bilhão em ações, entre 2012 e 2013, teria em mãos algo em torno de R$ 770 milhões e não estaria disposto a arcar com esse prejuízo.

A Tarpon, outra investidora relevante, já decidiu que é hora de encerrar a história na BRF – mas não por qualquer pechincha ou no “grito”. A gestora estaria em uma posição desconfortável, pois agora não tem mais o comando da empresa. Internamente, foi decidido que as ações serão vendidas, independentemente de demorar poucos meses ou alguns anos. Nas últimas semanas, os principais sócios da gestora vêm fazendo um balanço sobre os erros e acertos cometidos na BRF. Eles têm dito que é preciso aceitar, aprender e “cair para frente”.

Um dos equívocos apontados foi aceitar que um comitê de notáveis, chamado de steering commitee, criado por Abilio, em 2016, interferisse na gestão da companhia, inclusive com a indicação e nomeação de executivos. Para os sócios da Tarpon, foi nesse momento que Pedro Faria se transformou num subordinado, deixou de tomar decisões que caberiam a um CEO e ficou à deriva. “Os sócios têm dito que o Conselho só dividiu as responsabilidades nos três anos de bons resultados. Agora, é muito conveniente culpar só o Pedro e a Tarpon, que também têm responsabilidade pela governança da companhia, por decisões erradas e resultados ruins”, diz uma fonte com bom trânsito na gestora.

Logo após a Carne Fraca, no ano passado, a Tarpon tentou unir o Conselho de Administração. Numa das reuniões, José Carlos Reis de Magalhães Neto, o Zeca, sócio da gestora e conselheiro da BRF, teria dito que todos ali deveriam parar de brigar e se concentrar em estratégias para ganhar mercado da Seara, que pertence à JBS, e era a mais atingida naquela operação da PF. “Mas a paz durava só um dia. Depois voltava o jogo sujo”, afirma uma fonte. Zeca, que tinha uma relação muito próxima de Abilio e foi o articulador da eleição dele para chairman, hoje o trata apenas com cordialidade.

A maneira como Abilio “queimou” Pedro Faria, que foi comunicado de sua demissão três meses antes do Conselho escolher Drummond Jr, prejudicou ainda mais a reputação da Tarpon, que agora enfrenta uma nova mancha. A prisão de Faria, acusado de práticas antiéticas, acontece num momento em que outro fundador da gestora, Eduardo Mufarej, encabeça o movimento apartidário Renova Brasil, que pretende inserir a transparência e a ética na política. Mesmo que seja inocente, Faria terá de explicar que o “senso de propósito”, que ele escreveu na mensagem destacada pela PF, é realmente o que a Tarpon e seus sócios praticam no dia a dia. Algo que a BRF também precisará mostrar para garantir o seu futuro.

Colaboração: Carlos Eduardo Valim e Vera Ondei