Para entender Vladimir Putin é preciso ler Fiódor Dostoiévski

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Detalhe da capa do livro "Vladimir Putin: three landmark speeches by the president of Russia" (algo como três discursos capitais do presidente russo). para entender como Putin pensa, mais importante até do que ler o que ele diz é voltar ao século 19 e à descrição da alma russa feita por um dos mais célebres autores dos país (Crédito: Reprodução)

No último 24 de fevereiro, o mundo acordou sobressaltado com a notícia de que as tropas russas cruzaram as fronteiras com a Ucrânia iniciando uma nova e preocupante guerra na Europa. Apesar dos evidentes sinais que apontavam para a inevitabilidade deste acontecimento, muitos de nós, “ocidentais”, não críamos possível, em pleno século 21, que tal “descalabro” poderia de fato acontecer. Afinal, tínhamos por certo que a maneira de se fazer política internacional, pelo menos no mundo ocidental pós-guerra fria, já tinha superado a fase das hostilidades bélicas explícitas e diretas que caracterizaram a história da Europa desde os mais remotos tempos. A decisão de Vladimir Putin, entretanto, mostra que nossa convencional maneira de julgar os tempos que correm padece de uma notável miopia.

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Tal miopia, penso eu, provém de uma superestimação do suposto poder apaziguador e padronizador que a globalização, fundamentada na lógica da liberdade de consumo como base da felicidade e da estabilidade, parece oferecer. Os fatos históricos deste início de século – cuja invasão da Ucrânia apresenta-se como uma das manifestações mais evidentes – apontam para o fato de que a crença que o sonho da humanidade se reduziria à posse tranquila da versão mais atualizada do iPhone, ao livre acesso às redes sociais e ao trânsito pelo metaverso parece estar gravemente comprometida. O modus operandi de Vladimir Putin e os valores que norteiam suas ações e decisões, cada vez mais explícitas e desconcertantes para nós, mostram que há mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa vã e decadente filosofia desconhece.

Intrigado e assustado com o rumo dos recentes acontecimentos, deixei por um momento a leitura sistemática dos clássicos da literatura russa para mergulhar no oceano da internet em busca de informações mais precisas sobre a história recente da Rússia, assim como da biografia do seu atual líder. E qual não foi minha surpresa ao constatar que, na tela do meu celular, parecia estar lendo a mesma coisa que acabara de ler nos livros recém-fechados e deixados ao pé da poltrona. Sim, foi surpreendente encontrar nos artigos da imprensa internacional, referentes aos mentores intelectuais e espirituais de Putin e seu círculo mais próximo, ideias, conceitos e até palavras idênticas às que encontro costumeiramente em romances como “O Idiota” e “Os Demônios”, de Fiódor Dostoiévski. Tal como dezenas de personagens deste grande autor do século 19, um dos ideólogos mais influentes do Kremlin na atualidade, Alexander Dugin, define-se como um eurasiano, pan-eslavista e “velho crente” – corrente dissidente do cristianismo ortodoxo russo que surgiu como reação às reformas introduzidas pelo patriarca Nikon em 1666. Imagine você, leitor(a), deparar-se neste exato momento do presente com ideias e conceitos tão familiares para um leitor contumaz da literatura russa do século 19, até então associadas a um tempo histórico supostamente superado, de repente não só ressuscitadas, mas ativadas, desempenhando papel mobilizador e justificador de decisões e ações políticas e militares.

Diante disso, não é preciso muito esforço para concluir que nós, “ocidentais” pós-modernos ou hipermodernos, estivemos lendo as coisas erradas, ou, pelo menos, lendo demais certo tipo de literatura e lendo de menos outro tipo, considerada inútil ou desimportante, mas que agora constatamos ser essencial. Nossa soberba cartesiano-burguesa nos levou a desenvolver uma miopia mental assustadoramente desastrosa, cujas consequências começamos a viver de forma desesperadora no momento atual. Em “Os Irmãos Karamázov”, Dostoiévski nos ensina que “o ser humano é vasto, demasiadamente vasto”. A modernidade ocidental, em sua delirante razão científico-burguesa, acreditou que poderia estreitá-lo, defini-lo, dominá-lo. Percebemos agora que tudo não passou de uma ridícula ilusão. Uma ridícula ilusão cujas consequências estão se mostrando deveras trágicas. Para realmente entender Putin, é preciso ler Dostoiévski. Para entender o humano em sua vastidão, para além das crenças, dogmas e ilusões racionalista-burguesa-ocidentais, é preciso, com urgência, ler e entender (na medida do possível) os russos. Antes que seja tarde demais.

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Sobre o autor

Doutor em História pela USP, Dante Gallian é professor da EPM-Unifesp, coordenador do Laboratório de Leitura e colaborador da Responsabilidade Humanística. Publicou o livro A Literatura como Remédio – Os Clássicos e a Saúde da Alma (Martin Claret)


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