Negócios

Papaiz com novo gás

Herdeira da família cujo sobrenome virou sinônimo de cadeados, chaves e fechaduras muda o foco dos negócios após a venda da empresa e começa a produzir reguladores para botijões — antigo sonho de seu pai

Crédito: Claudio Gatti

Na direção: Sandra Papaiz Velasco na lambreta em que andava com o pai na infância. Ela agora é a comandante dos negócios (Crédito: Claudio Gatti)

O imigrante e técnico mecânico italiano Luigi Papaiz, nascido na região de Udine, no norte da Itália, chegou em São Paulo em 1952. Deixava para trás uma Itália em reconstrução após a Segunda Guerra. E escolheu um país em que poderia crescer com as suas habilidades e conhecimentos. O seu plano era trabalhar fazendo ferros elétricos e reguladores de gás, aqueles conectados às mangueiras plásticas que ligam o botijão ao fogão. Mas não conseguiu encontrar clientes para esses produtos. Conversando com outros imigrantes da Zona Leste da capital paulista, Luigi descobriu que havia um mercado para cadeados. Nos primeiros anos, andava para lá e para cá pela cidade na lambreta que se vê na foto ao lado. No banco de trás, carregava a esposa. No guidão, à sua frente, ia a filha, Sandra. Os três percorriam a São Paulo dos anos 1950 levando as encomendas para os primeiros clientes da Papaiz. O resto, como se diz, é história. O seu sobrenome virou quase que sinônimo de cadeados e trancas.

O grupo Papaiz virou uma fábrica na Zona Leste antes de se mudar, na década de 1980, para Diadema, na região do ABCD, para um complexo fabril, que também incluía a sua empresa de esquadrias Udinese. Depois da morte do fundador, em 2003, esses negócios ficaram sob o comando da segunda geração da família, até serem negociados em 2015 para o grupo sueco Assa Abloy, dono também das marcas de fechaduras La Fonte e Silvana. “Dos três irmãos, eu era a única que não queria vender”, diz Sandra Papaiz Velasco, herdeira do grupo. “Mas eles tinham motivo para isso. O negócio ficaria cada vez mais difícil em médio e longo prazo, porque os rivais teriam escala global.” Com a negociação, a holding da família, a Popait, manteve apenas os seus negócios imobiliários e o espaço do parque fabril em Diadema, que continua a alugar para outras empresas, inclusive para a Assa Abloy.

Mas Sandra, que acompanhava o pai no trabalho desde a infância, afirma não conseguir deixar para trás o sangue industrial da família, e pretende ressuscitar o sobrenome Papaiz para os negócios fabris. “Devo ser maluca, mas não queria desperdiçar o conhecimento que acumulamos em décadas de atuação”, diz. “Quando falam que o Brasil não tem vocação industrial, eu quero pegar a pessoa pelo pescoço. Com 19 anos, eu era gerente de exportações do grupo e vendíamos para mais de 40 países. Os produtos brasileiros eram conhecidos pela qualidade.”

Virando a chave: a empresa de cadeados criada pelo imigrante Luigi Papaiz (1924-2003) foi vendida em 2015, em seu lugar, surge a Alquileia (Crédito:Daniel Wainstein e Divulgação)

Agora, ela está criando, com investimentos de R$ 15 milhões, a Aquileia (nome de outra cidade italiana), uma empresa para produzir justamente os reguladores de gás com os quais o pai esperava trabalhar quando chegou ao Brasil na década de 1950. “É assunto para minha sessão de terapia”, diz a empresária de 65 anos. “Mas foi uma coincidência.” Quando a Papaiz foi vendida, a família manteve o direito de usar o seu sobrenome em qualquer negócio que não competisse com as trancas e fechaduras da Assa Abloy.

SEM GLAMOUR Uma consultoria, a Accepta Inteligência Estratégica, foi contratada para que mostrasse em que segmentos o nome Papaiz teria força. Foi percebido que a marca é forte para produtos de médio e alto valor, e que traz atributos de segurança, confiança e robustez. Também está relacionada a produtos metalúrgicos. Não adiantaria fabricar nada de plástico, por exemplo, e com preços populares. Dos produtos que mais serviriam para a volta aos negócios estavam os reguladores de gás, um mercado estimado em R$ 300 milhões e que possui uma cadeia de fornecedores e de comércio similar ao de cadeados. “Talvez seja um dos produtos de menor glamour que poderíamos explorar inicialmente, mas seria o mais fácil para nos estabelecermos”, diz a empresária, que poderá migrar a marca Papaiz para artigos de maior valor. Sandra não adianta quais mercados a interessam mais. Tudo será feito passo a passo. Bem ao estilo da família: de forma conservadora. A Papaiz costumava crescer com investimentos próprios e sem se endividar com os bancos. A receita será mantida.

A Aquileia está em fase de aprovação de certificação dos seus produtos no Inmetro e espera chegar ao mercado ainda em abril. Ela também parece protegida da competição mais predatória, já que as normas estritas para vender reguladores de gás no Brasil impedem a chegada de concorrentes chineses, que já derrubaram empresas de diversos outros setores industriais nos últimos anos. “Antes de minha mãe morrer, há dois anos, eu garanti para ela que nunca o nome da família apareceria metido em esquemas de corrupção ou em dívidas”, afirma. Afinal, para empresária, o ativo mais valioso que herdou do
pai é o seu sobrenome.