Economia

Papai Noel magro: juros altos e renda baixa devem prejudicar vendas de Natal

Crédito: Any Lane/Pexels

Corrosão do poder de compra do brasileiro aliado à inflação e à dificuldade de acesso ao crédito devem prejudicar as vendas de fim de ano (Crédito: Any Lane/Pexels)

A sensação de que a vida está finalmente voltando normal, causada pela queda do número de casos e óbitos por Covid-19, não será o suficiente para garantir um Natal gordo ao varejo brasileiro. Essa é a avaliação dos economistas ouvidos pela IstoÉ Dinheiro, que apontam a perda do poder de compra e os juros altos como os adversários do comércio neste fim de ano.



“A população já está sem renda. Há muitos desempregados (13,7% no segundo trimestre deste ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE]), não há injeção de renda na sociedade: este Natal deve ser pior que o do ano passado”, avalia Agostinho Celso Pascalicchio, professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

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Ele explica que a lógica do Banco Central (BC) é a aumentar os juros (Selic atualmente em 7,75% ao ano) para frear o consumo e, assim, reduzir os preços. Mas a atual inflação no Brasil foi causada pelo aumento dos custos (matérias-primas e bens industriais), não do consumo.

“A eficiência do aumento da Selic (no controle da inflação) neste cenário de desemprego, com renda baixa, com crescimento baixo do PIB, é menor que em outros anos”, afirma Pascalicchio. “O aumento da Selic não tem essa eficiência quando se trata de inflação de custo, de aumento de preço de matérias-primas e na procura. A Selic controla a inflação na ponta do consumidor”, avalia Pascalicchio.

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“O consumo será reduzido pela falta de renda da população, não necessariamente pelo desemprego ou pela Selic”, acrescenta.

Otimismo entre empresários

A avaliação contrasta com a análise realizada pela Federação de Comércio do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ), que está otimista em relação ao final do ano. Uma pesquisa em parceria com o Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises (Ifec-RJ) aponta uma confiança de consumidores e empresários cariocas com a retomada econômica.

Diretor do Ifec e economista, João Gomes argumenta que o avanço da vacinação contra a Covid-19 e a recuperação de empregos formais no estado, aliada à redução de inadimplência, podem fazer com que as vendas do final deste ano sejam maiores que as de 2020 e semelhantes aquelas registradas em 2019.

A pesquisa, que retrata apenas o estado do Rio de Janeiro, indica que houve redução do número de consumidores com medo de perder o emprego (de 63,6% em setembro para 60,7% em outubro), além do aumento da confiança dos cariocas em relação à estabilidade econômica de 45,7% para 42,6%. O número de fluminenses que tiveram redução de renda familiar caiu de 57,8% em setembro para 55,8% em outubro. O percentual de endividamento também caiu de 44,9% para 42%.

“Houve um boom de serviços puxado pelos setores de eventos e turismo no segundo semestre deste ano no Rio de Janeiro. O cenário hoje é de crescimento em função da vacina. A gente vê aceleração muito forte desde o início do segundo semestre na sustentação do emprego formal, o que justifica as expectativas”, aponta Gomes.

Perda de poder de compra

De acordo com um levantamento da consultoria Tendências, com dados do IBGE, a renda para consumo da classe C caiu quase 10%: de R$ 286 milhões, em 2016, para R$ 259 milhões neste ano.

Entre os motivos que levaram à perda de poder de consumo estão a alta do dólar e a redução de renda – segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), o salário médio do brasileiro neste ano é de R$ 2.433, o menor desde 2017.

A alta dos juros torna mais caro o acesso ao crédito e a empréstimos, o que tende a gerar impacto negativo no consumo de final de ano sobretudo às classes sociais menos favorecidas economicamente. Além disso, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da Federação de Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio-SP) aponta que o endividamento das famílias na cidade de São Paulo atingiu recorde de 69,2% no último mês de setembro.

“Este aumento de vendas, se houver, não vem das camadas de renda mais baixa da população. Como existem diversas contas fixas no orçamento, é natural que falte dinheiro para gastos não essenciais. Grande parte deste impacto é pelo aumento dos juros, que deixa ainda mais caro o financiamento e o parcelamento. Ou seja, menos renda para quem não tem dinheiro para comprar à vista. Não deve ser um final de ano forte (em consumo)”, observa Vinicius Machado, economista e gestor de investimentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

“Minha expectativa é que o final do ano seja de Papai Noel magrinho para a maior parte da população”, analisa Machado, que explica que o aumento da Selic ainda é importante à venda de títulos, necessária para pagar a dívida pública e evitar (mais) fuga de investimentos no País.

Neste contexto, Pascalicchio ressalta o perigo de um cenário de estagflação: aumento da inflação com baixo crescimento. “Com a diminuição de renda, mesmo programas como o Auxílio Brasil (que substitui o Bolsa Família) não serão suficientes para dar crescimento ao consumo”.

O impacto da Selic no consumo

A taxa básica de juros é o mecanismo que o BC possui para regular a inflação. Quanto mais alta, mais caros são os juros pagos pelo consumidor pelo crédito e para empréstimos. Com a Selic alta, há menor circulação de dinheiro – o BC, no último dia 5, divulgou que houve retirada líquida de R$ 7,430 bilhões das poupanças brasileiras em outubro, o maior saque líquido ao mês de outubro desde 1995. O BC indica que houve mais retirada do que aplicação em poupança pelo terceiro mês consecutivo, mesmo com os juros atrativos à aplicação.

A alta dos juros também incentiva investimentos estrangeiros no Brasil, sobretudo em títulos brasileiros e de renda fixa, como a própria poupança e CDBs, mas reduzem o consumo. Com menos pessoas comprando, a economia tende a encolher, o que aliviaria a inflação se ela fosse causada pelo aumento do consumo, o que não é o caso do Brasil, que tem uma inflação de custos sentida pelo consumidor final.


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