Pandemia econômica

Pandemia econômica

Não são poucos os alertas sobre a “pandemia econômica” que se vislumbra no horizonte próximo. Ao contrário, eles estão chegando por todos os lados. Das empresas que temem a insolvência. Dos trabalhadores que enxergam a escalada do desemprego. Dos investidores que amargam prejuízos históricos. Dos bancos que precisam fazer a arbitragem de crédito. Mas, na semana passada, o Banco Central brasileiro tratou de lançar o cenário mais sombrio, jamais esperado até aqui. Em reunião com o Tribunal de Contas da União (TCU), o presidente da instituição, Roberto Campos Neto, não apenas falou em um quadro “altamente recessivo”, como deu um número capaz de surpreender até os mais pessimistas. Compartilhando uma previsão de queda elaborada pela “The Economist Intelligence Unit”, disse que o PIB pode ficar em 2020 no patamar de 5,5% negativo. Isso mesmo. A pior marca jamais registrada na história do País. Na prática, caso confirmado, o índice deverá comprometer qualquer capacidade de reação no médio prazo, condenando a economia a anos de paralisia e estagnação. É um coquetel demolidor diante da perspectiva que se tinha, inicialmente, de crescimento na casa de 2,5% em 2020 e de 3,5% no ano seguinte. Esqueça essa perspectiva. As estimativas já foram acentuadamente revistas para baixo. O próprio governo prevê que a receita líquida da União deverá cair mais de R$ 150 bilhões até o final do ano. É um valor equivalente ao dobro do inicialmente previsto e inclui também queda expressiva na arrecadação com royalties de petróleo, nas concessões de serviços públicos e na venda de ativos e dividendos de empresas estatais. O calendário de concessões já foi irremediavelmente adiado. Além da suspensão de audiências públicas, com a justificativa de evitar aglomerações, foram feitos cancelamentos de leilões nas áreas de energia e de portos. Nos estados e municípios, já se verifica, neste início de ano, o mais baixo valor de investimento desde 1947. Empresas, de uma maneira geral sufocadas, estão pedindo revisões de contrato, por motivos de “força maior”. A crise fez disparar o índice de incerteza, calculado pela Fundação Getúlio Vargas, que alcançou inéditos 167,1 pontos. O recorde anterior era de 136,8 pontos, de 2015, às vésperas do impeachment de Dilma Rousseff. O que vem de resposta contra esse tsunami depende da condução da equipe econômica de Paulo Guedes. O ministro, há poucos dias, sugeriu comprar títulos e carteiras de maneira direta das empresas, como forma de evitar o chamado “empoçamento” de crédito em dinheiro nas instituições financeiras. O mercado como um todo reclama que existem muitas propostas, boas intenções e pouco resultado prático nas ações oficiais. O que todos querem e precisam são soluções emergenciais urgentes e efetivas, que tardam a chegar.


Sobre o autor

Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três e escreve semanalmente os editoriais da revista DINHEIRO


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