Finanças

Os planos do banco do Uber para o Brasil

Como a fintech de origem holandesa Adyen, que processa os pagamentos das gigantes da tecnologia, quer revolucionar o varejo por aqui

Crédito: PimHendriksen.COM

Pieter van der Does, CEO e um dos fundadores da Adyen: ideia para a empresa enquanto surfava em búzios durante um período sabático (Crédito: PimHendriksen.COM)

Pieter Van der Does, presidente da fintech holandesa Adyen, tem uma satisfação especial ao chegar ao trabalho. Localizado em um edifício moderno no centro de Amsterdã, o escritório oferece uma ampla vista para o Mar do Norte. Van der Does é um entusiasta do windsurf. “Pratiquei muito quando passei um ano sabático no Brasil, em 2005”, diz. Foi deslizando nas ondas da praia de Tucuns, em Búzios, que o executivo descobriu o que iria fazer da vida após ter vendido uma fintech a que se dedicara durante alguns anos. “O mercado de pagamentos estava maduro para uma empresa inovadora”, diz ele. “Percebi que haveria um grande espaço para ganhos de eficiência com o uso maciço da tecnologia.”

Os investidores concordam. Fundada há 13 anos, a Adyen abriu seu capital em junho do ano passado, em uma das maiores listagens de empresas de tecnologia na Europa. Avaliada em € 7,1 bilhões (R$ 31,8 bilhões) na abertura de capital, seu valor de mercado era de € 19,8 bilhões (R$ 88,7 bilhões) na quarta-feira 15, um resultado bem superior ao do IPO do Uber (leia mais na página 58). E, para Van der Does, isso é apenas o começo. O nome Adyen (ou “recomeço” no dialeto do Suriname, terra de um dos primeiros engenheiros contratados) não é conhecido para além dos círculos de investidores em tecnologia. Entre seus clientes, contudo, estão nomes como Uber e Netflix. “Começamos processando pagamentos de clientes com forte base tecnológica”, diz Van der Does. “Com o tempo, percebemos que muitas das soluções que oferecíamos poderiam ser estendidas a outros segmentos do varejo tradicional.”

Um bom exemplo é uma tendência do varejo de borrar, ou mesmo eliminar, as fronteiras entre o comércio físico e o virtual. Conhecida pelo termo omnichannel, que poderia ser traduzido como multicanal, essa prática impede que o comerciante perca uma venda. Assim, se a loja não tiver um calçado ou uma peça de roupa do tamanho do cliente, a transação é fechada por um terminal. “Com as ferramentas tecnológicas certas, conseguimos que o item vendido esteja esperando pelo cliente quando ele retornar para sua casa”, diz o executivo.

Dominique Oliver, CEO da Amaro: “Pensamos na Amaro não como uma empresa de moda, mas como uma companhia de tecnologia” (Crédito:Divulgação)

O modelo de negócios se apoia pesadamente em tecnologia. Em uma sala projetada para isolar os ruídos, uma dúzia de robôs desenvolvidos e produzidos pela Adyen testa as várias fraudes possíveis nas transações com cartões. “Medimos quantos segundos o cartão tem de ficar na processadora após a transação ser processada, para evitar fraudes”, diz o executivo. “Como os robôs são muito barulhentos, programamos os testes para o período noturno, quando a maior parte das pessoas já foi para casa.”

Além dos testes físicos, a Adyen está lançando uma solução que vai além dos pagamentos e integra estoque, logística e produção. Ao colocar tudo na mesma plataforma, a Adyen promete tornar os processos mais ágeis e, principalmente, rentáveis. Parece história de ficção científica (ou papo de consultor), mas é exatamente o que Dominique Oliver, fundador e CEO da marca de moda feminina Amaro, pretende fazer, sendo um dos primeiros a usar as ferramentas da Adyen no Brasil.

Fundada em 2012 e com um faturamento não-revelado, a Amaro confecciona mais de 10 mil modelos, que vão de camisetas a casacos, passando por sapatos e acessórios. Quase toda a produção é própria. Uma em cada quatro unidades é vendida pela internet. A empresa tem 16 pontos de venda físicos nas capitais, mas eles não completam nenhuma transação. Servem apenas para as clientes provarem o que estão comprando.

Oliver está distante do perfil tradicional do estilista. Administrador de empresas com passagem por bancos de investimento, ele criou a Amaro com mais dois sócios, todos com perfis semelhantes. “Pensamos na Amaro não apenas como uma empresa de moda, mas também como de tecnologia”, diz ele. Não por acaso, 10% dos 450 funcionários são engenheiros de software e analistas de dados. Essa musculatura digital permite saber em tempo real qual peça de roupa, com qual tecido e de qual modelo está agradando e deve ter sua produção reforçada, e qual corre um grande risco de encalhar. Nos tempos em que esse fluxo de informações não era controlável, a ignorância dos desejos do consumidor resultava em peças não vendidas e em prejuízos. Van der Does avalia que essa é apenas uma das possibilidades que a nova tecnologia oferece. “O varejo estará irreconhecível em poucos anos”, diz ele. E ele não quer deixar de surfar nenhuma dessas ondas de inovação.


Essa corrida não dá para cancelar

Abertura de capital do Uber em Wall Street já se consagra como um dos maiores fracassos do mercado de capitais americano

Nyse: executivos do Uber na abertura do capital na bolsa de NY: ações em marcha à ré (Crédito:Johannes Eisele)

O Uber, que revolucionou o mercado de transportes nos últimos anos, fez sua estreia na bolsa de valores de Nova York na sexta-feira 10. A empresa levantou US$ 8,1 bilhões. Porém, assim como foi disruptivo para os taxis, o Uber também sacudiu os fundamentos do mercado acionário. Ao estabelecer o preço de lançamento das ações, o banco de investimentos americano Morgan Stanley havia previsto um valor de mercado entre US$ 90 bilhões e US$ 100 bilhões. No anúncio do negócio, no dia 9 de maio, essa cifra havia sido reduzida para US$ 82 bilhões.

O sino em Wall Street tocou na sexta-feira, dia 10, com as ações a US$ 42. No encerramento dos negócios, elas haviam caído 7,6%. Na segunda-feira 13, nova queda. Os papéis fecharam a US$ 37,10 e a desvalorização atingiu 11,7%. Na quarta-feira 15, as ações fecharam a US$ 41,29, queda de 1,7%. Com isso, o valor de mercado da companhia caiu US$ 655 milhões, passando para US$ 69,7 bilhões. Foi a maior perda na história para uma ação logo após o IPO.

O que deveria ser a mãe de todas as aberturas de capital já está consagrado como um dos maiores fracassos do mercado. Ao contrário do que ocorre no Brasil, por lá o julgamento das ações é muito mais severo. Se fecham em baixa no primeiro dia, ou mesmo se caem muito nas primeiras semanas após a abertura, todas as previsões para a empresa se tornam pessimistas.

O aplicativo enfrenta dificuldades em diversas cidades do mundo, inclusive no Brasil. Vários governos buscam regular a atividade e formalizar os empregados, o que vai aumentar os custos e reduzir os lucros. O prejuízo de US$ 1,1 bilhão no primeiro trimestre de 2019 também pesou. As perdas do Uber seguem pelo mesmo caminho observado por sua rival Lyft, que abriu seu capital na Nasdaq em março levantando US$ 2,3 bilhões. Desde então, suas ações caíram 30%.

A queda não é exatamente uma surpresa no caso do Uber. Um mês antes da abertura de capital, um sarcástico leitor do jornal inglês Financial Times resumiu o prospecto de mais de 300 páginas em 12 parágrafos. O sumário viralizou nas redes sociais graças a frases curtas como “nós não ganhamos dinheiro e provavelmente nunca vamos ganhar” ou “não pagamos imposto, por isso temos muitos problemas com o Fisco” e “esperamos que vocês comprem ações, pois os nossos investidores atuais estão loucos para sair daqui”.

Além dos fatores microeconômicos, a operação teve a má sorte de chegar em um momento de aversão ao risco por parte dos investidores. A guerra comercial entre Estados Unidos e China tem aumentado a volatilidade e deixado os agentes de mercado com os nervos à flor da pele, vendendo ações toda vez que Donald Trump vai ao Twitter com críticas aos chineses.