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Os milionários querem sossego

Investidores de patrimônio elevado que vinham correndo mais riscos com a queda dos juros voltaram a adotar uma estratégia defensiva para proteger seu dinheiro em meio às incertezas

Os milionários querem sossego

O conceito de risco, no sentido de incerteza do que vai ocorrer, surgiu com as grandes navegações do Século XV. Centenas de anos depois, ele foi incorporado pelo sistema financeiro. Navegando ou não, risco é algo que o investidor brasileiro conhece bem devido aos solavancos do mercado e às mudanças abruptas de direção da economia. Por muito tempo, quem tinha R$ 1 milhão ou mais para investir não incluía essa palavra em seu vocabulário. Afinal, uma taxa Selic no patamar de dois dígitos fazia com que mesmo alocações conservadoras rendessem 1% ao mês. A redução dos juros de 14,25% para 6,5% ao ano pelo Banco Central (BC) mudou esse cenário durante um breve período e estimulou os milionários a aceitarem mais riscos. Porém, isso durou pouco.

Nas últimas semanas, a incerteza na política, com as eleições presidenciais, e na economia, com o aumento da turbulência global, limitaram esse movimento. Isso foi notado por gestores como Leonardo Hojaij, do Andbank, instituição que administra R$ 5 bilhões. Em meados de 2017, quando os juros começaram a cair de forma sistemática, Hojaij teve de gastar o verbo para convencer os clientes a correr mais risco. “Tivemos de atuar quase como psicólogos”, diz. A recomendação mais frequente foi transferir dinheiro da renda fixa para fundos multimercados e de ações. Nem todos, porém, mudaram sua estratégia. “Alguns clientes ainda acreditam que correr riscos é o mesmo que poder perder tudo”, afirma Hojaij.

A queda de 5,6% do iBovespa no ano pressiona o desempenho dos fundos multimercados e de ações (Crédito:Bruno Rocha/Fotoarena/Agência O Globo)

Os estudos do mercado confirmam essa percepção. Uma pesquisa realizada no ano passado pela Fundação Dom Cabral, patrocinada pelo banco suíço Julius Baer, revelou que a maior parte dos investidores são conservadores. O levantamento Brasil Wealth Report entrevistou cem famílias de patrimônio elevado, 70% delas empreendedoras. A conclusão foi que 75% delas investem com objetivo de ganhar 10% acima da inflação. Pode parecer muito. Porém, os títulos do Tesouro Direto indexados à inflação e acessíveis a partir de apenas R$ 30 rendiam inflação mais 5,7% ao ano na quinta-feira 21.

Assim, a meta perseguida pelos endinheirados é pouco superior à rentabilidade das aplicações conservadoras convencionais. Há outros indicadores de que os milionários temem o mercado: 53% deles afirmam que preferem ganhar menos do que correr o risco de perder. Eles também dizem se sentir apenas parcialmente preparados para gerir o próprio dinheiro, preferindo buscar o auxílio de gestores profissionais, como João Albino Winkelmann, diretor do Bradesco responsável pelo private bank, segmento que atende quem tem mais de R$ 5 milhões para investir.

A Anbima, associação que representa o setor no Brasil, calcula que esse segmento atende 117 mil famílias que contam com recursos estimados em R$ 964 bilhões. Desde o ano passado, Winkelmann fez diversas reuniões com seus clientes para convencê-los a aceitar mais riscos, quando a Selic começou a encolher. “A ideia era transferir os investimentos líquidos para aplicações mais arrojadas”, diz. Em 2017, eles concordaram em alterar as alocações. Porém, no início deste ano, começaram a fugir do risco, de novo.

João Winkelmann, diretor do Private Bank do Bradesco: os clientes aceitam ganhar pouco acima da inflação para proteger o patrimônio (Crédito:Leonardo Wen/Folhapress)

É fácil de entender essa aversão ao risco. O desempenho ruim da bolsa fez os fundos de ações caírem, em média, 5,9% na primeira quinzena de junho, segundo a Anbima. Com isso, a perda acumulada no ano foi de 7,2%. No caso dos multimercados, a perda média no mês é de 0,55%, o que reduziu o ganho acumulado no ano para 3,6%. Na ponta do lápis, é uma valorização pequena em relação ao avanço médio de 2,7% dos fundos de renda fixa nesse período. “A maioria dos investidores reposicionou as carteiras para um perfil bastante conservador”, afirma Winkelmann. Ele destaca que o movimento mais comum foi a volta para a renda fixa pós-fixada para garantir, ao menos, um retorno superior à inflação.

A busca por segurança também fez muitos endinheirados olharem para além das fronteiras nacionais. “É recorrente o aumento da exposição a mercados mais protegidos, como os Estados Unidos”, diz Celso Portásio, especialista em private bank e sócio da gestora gaúcha Chromo Investimentos. “Há poucas opções no Brasil para quem sai da Bolsa.” Cerca de 80% dos entrevistados na Brasil Wealth Report afirmaram querer manter parte do patrimônio no exterior, para mitigar os riscos recorrentes da instabilidade do mercado doméstico. Ainda assim, segundo os gestores, poucos alocam mais de 30% dos recursos lá fora.

A preferência é por adquirir títulos de empresas brasileiras emitidos no mercado internacional, que rendem em média 5,5% ao ano. “Os clientes ficam mais confortáveis com ativos ligados ao Brasil”, diz Rogério Zanin, sócio da GPS Investimentos, empresa de gestão de fortunas do Julius Baer no Brasil. “Recomendamos sempre um portfólio global, pois há mais chances de diversificação e maior potencial de retorno.” Esses movimentos são lentos. “Não estamos vendo nenhuma corrida, mas isso pode mudar depois da eleição”, diz Portásio. “Dependendo do resultado, podem haver mudanças radicais da estratégia.” Winkelmann é mais otimista. “O Brasil sempre se reinventa”, diz. “Nosso desafio é estar atento para aproveitar a retomada do mercado de ações quando o cenário melhorar.”