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Os estímulos vieram para ficar

Os Estados Unidos já estão em recessão. Os pedidos de seguro-desemprego na última semana confirmaram este diagnóstico: entre 2 milhões e 3 milhões de americanos já entraram na fila, mais de três vezes o maior número computado em toda a série histórica.

Crédito: Evandro Rodrigues

Em vez de se instalar ao longo de muitos meses, a atual crise aconteceu de maneira surpreendente e rápida, em menos de um mês. A economia parou completamente e indicadores como desemprego e PIB irão, rapidamente, atingir seus piores patamares. A partir daí, eles somente podem melhorar. É muito possível, portanto, que este seja o período recessivo mais curto da história. E também, infelizmente, o pior: estimativas colocam o índice de desemprego no segundo semestre entre 20% e 30%.

O governo dos Estados Unidos, entendendo a gravidade da situação, negocia junto ao Congresso um pacote de estímulos fiscais sem precedentes. O objetivo é gastar US$ 2 trilhões, cerca de 10% do PIB, para fazer a ponte entre o abismo e o outro lado de tudo isso – que ainda nem sequer sabemos como será. Basicamente, o governo americano fará o papel de todos os agentes econômicos de maneira simultânea: pagará salários diretamente, mandando cheques aos americanos, e indiretamente, dando dinheiro para pequenas e médias empresas que mantiverem o seu quadro de funcionários estável durante este período. Além disso, dará empréstimos-ponte para empresas em dificuldades, repondo a liquidez perdida pela falta de receita.

Os estímulos monetários também são sem precedentes. O Federal Reserve, além de baixar juros para zero, está garantindo liquidez para os ativos de renda fixa como um todo e parece ter resolvido boa parte dos deslocamentos que aconteceram neste mercado até agora. Estima-se que o total injetado na economia, entre estímulos fiscais e monetários, ultrapasse os US$ 6 trilhões.
O tamanho dos pacotes parece dar conta do recado – pelo menos por enquanto. Empresas que enfrentavam dificuldades antes continuarão a sentir as mesmas dificuldades depois, agravadas por esse momento de recessão. Setores que operam muito alavancados, como o de energia, sofrerão depuração: muitas companhias provavelmente vão ficar pelo caminho.

O setor de lazer e entretenimento deve mudar de maneira importante: as aglomerações de pessoas em bares, restaurantes, concertos, teatros e outros eventos não combinam com o novo conceito de distanciamento social. Aeronaves e trens apertados como latas de sardinha também não. Cadeias de suprimentos serão revistas. O conceito de produção global será testado e deverá privilegiar empregos locais. Vendas on-line e empresas que viabilizam o trabalho remoto sairão ganhando desta crise e podem se tornar players ainda mais importantes nesse novo cenário econômico.

A atual crise é exógena à economia, mas a notícia boa é que ela tem prazo para acabar. Do outro lado, os estímulos fiscais e monetários vieram para ficar. Os mercados seguirão voláteis, mas a recuperação econômica virá forte e rapidamente. Quando o número de casos de infecção atingir o pico em um lugar, ela já estará em curso em outro. Temos que atravessar essa fase com serenidade, cuidando do caixa, da saúde de todos e, claro, do próximo.