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Os desconfortos da liderança feminina

­Um estudo abrangente e bastante detalhado, feito pela consultoria Kantar, mostra que só 41% dos brasileiros se sentem confortáveis com uma mulher como líder de uma grande empresa. Conduzido em 11 países, o resultado coloca o Brasil na posição intermediária do grupo liderado pelo Canadá (os mais confortáveis, 62%) e fechado pela Rússia (11%).

Crédito: Istock

Antes mesmo de tentar entender esses números, é possível dizer que a conclusão mais importante do estudo é outra. Ao perguntar onde a liderança de uma mulher é mais bem aceita para quem está confortável com a ideia, a resposta aponta para setores tradicionalmente “femininos” como educação, moda, beleza, saúde e bem-estar. Já o mundo das máquinas, da tecnologia, dos bancos (e do poder) parece mais adequado, diz o estudo, aos homens. Em resumo: uma mulher pode até liderar, desde que continue no seu quadrado.

O nome disso é estereótipo.

Escancarar estereótipos, aliás, não é algo exclusivo desse estudo. Na verdade, eles vêm à tona em dezenas de análises sobre mulheres na liderança, o que é excelente — porque permite que sejam identificados e, com boa vontade, combatidos. O problema é quando os estereótipos acabam (perigosamente) escondidos debaixo de dados celebrados como conquistas, porque podem sobreviver.

Para focar em um único exemplo, repetido como uma dessas conquistas: hoje, no Brasil, já há mais mulheres em cursos universitários que homens. É verdade. Mas, vamos aos dados, as mulheres ultrapassaram os homens frequentando cursos que abastecem carreiras “femininas” — de novo, educação, moda, beleza, saúde e bem-estar. Já carreiras mais bem pagas e prestigiadas, onde o futuro do trabalho está sendo desenhado com a formação em Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (a famosa sigla STEM, em inglês), continuam sendo territórios predominantemente masculinos.

E de onde surgem a maior parte dos líderes.

Uma das maneiras de ter mais mulheres em posições de liderança e nesses centros de decisão é, portanto, desmontar o estereótipo que diz que certas carreiras e ocupações não são para elas (já desmontamos, nos últimos séculos, o que dizia que a universidade não era para elas…). Políticas afirmativas e planos de ação, sejam públicos ou privados, podem criar mais portas de entrada para mulheres nos ambientes em que se formam e/ou atuam as lideranças. E cotas não são uma má ideia para acelerar toda essa mudança (mas vamos falar desse tema polêmico em outra oportunidade, certo?).

Só não podemos cair na armadilha de confundir participação com liderança. É importante ver as mulheres avançando na igualdade de direito e oportunidades, mas essa igualdade será real quando, em vez de apenas participar, pudermos liderar a tomada de decisões, em especial as que nos afetam. É para isso que precisamos de mais mulheres preparadas para a liderança. Porque estamos falando por metade da população do planeta – que, sempre bom lembrar, é mãe da outra metade.

Nota da autora: Esta coluna, que agora migra para a plataforma on-line, nasceu de um desconforto. Há algumas semanas, IstoÉ DINHEIRO publicou uma capa sobre empreendedores de sucesso que retratava apenas homens. Cartas, e-mails e mensagens chegaram à redação e a revista entendeu que precisava dar uma resposta. Escolheu a mais correta: publicou os protestos, buscou mulheres de sucesso para produzir uma nova capa e decidiu abrir espaço para tratar de liderança feminina em sua pauta — e nesta coluna. Fazer parte disso será um prazer.