Artigo

Os desafios das empresas para com a responsabilidade social e ambiental 4.0

Gerar impacto positivo na sociedade e no planeta com produtos, processos, serviços e projetos que ajudem a regenerar o que temos desgastado do meio ambiente e das desigualdades econômicas e sociais não é utopia. É algo que já faz sentido para investidores.

Crédito: Evandro Rodrigues

*Marcus Nakagawa é professor da ESPM, coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (CEDS) e autor dos livros Marketing para Ambientes Disruptivos e 101 Dias com Ações Mais Sustentáveis para Mudar o Mundo (Prêmio Jabuti 2019). Com este artigo, passa a ser colunista de sustentabilidade da revista DINHEIRO. (Crédito: Evandro Rodrigues)

As sucessivas versões de softwares, aplicativos e hardwares tornaram obrigatório o uso de números para que o mercado saiba a qual versão está tendo acesso (Windows 10, iPhone X, Galaxy S11 e assim por diante) Especialistas em marketing dizem que é uma forma de ter mais clara a gestão da obsolescência programada (e/ou percebida). Ou seja, o número sinaliza para o consumidor o quanto o produto é atual. Muitas vezes ele tem a mesma a mesma funcionalidade do anterior, apenas com uma cor diferente ou um botão a mais.

A Indústria 4.0 se vale do mesmo conceito para sinalizar o emprego de avanços tecnológicos como inteligência artificial, learning machine, internet das coisas, computação em nuvem, impressão 3D, sistemas ciber-físicos, drones, robótica, big data etc.

Para o Brasil, entrar nessa era é um grande desafio: em 2019, o País ficou no 66º lugar Índice Global de Inovação, perdendo duas posições entre os 129 países mais inovadores na comparação com 2018. O governo federal possui até uma ampla agenda para a Indústria 4.0, que inclui várias associações de empresas, indústrias, universidades e agências de pesquisa.

Ainda assim, uma questão se impõe: Para o novo posicionamento 4.0 das indústrias e empresas, será que as questões ligadas à Responsabilidade Social e Ambiental (RSA) precisam ser repensadas?

O princípio do tripé da sustentabilidade (ambiental, social e financeira) foi concebido por John Elkington, que acabou de fazer um “recall” do termo, em junho de 2018, na Harvard Business Review. Em 2019, o conceito fez 25 anos e Elkington colocou que precisa fazer uma afinação ou uma melhoria – como as montadoras fazem com os carros que apresentam problemas. O visionário diz que daqui a 25 anos poderemos olhar para trás e apontar que neste momento começamos a colocar efetivamente a tríplice hélice na criação de valor e no código genético do capitalismo, estimulando a regeneração de nossas economias, sociedades e biosfera.

Estamos falando de uma responsabilidade social e ambiental (RSA) 4.0 que, efetivamente, crie valor e tem propósito nas organizações. Empresas que cada vez mais minimizem sim o seu impacto social e ambiental, atividades que podemos observar na maioria das grandes empresas e seus relatórios de sustentabilidade. Porém, a evolução para a RSA 4.0 exigirá que passem a gerar impacto positivo na sociedade e no planeta com produtos, processos, serviços e projetos que ajudem a regenerar o que temos desgastado do meio ambiente e das desigualdades econômicas e sociais. Isso tudo sem abrir mão dos retornos financeiros. Não é utopia, já existem muitas organizações, associações e empresas desenvolvendo tais conceitos na prática. Termos como Capitalismo Consciente, Negócios de Impacto social, Finanças Sociais, Empreendedorismo Verde, Empresas B, entre outros, começam a aparecer e fazer muito sentido para grandes investidores e empresários. Talvez seja esse tipo de obsolescência programada ou percebida que precisamos trabalhar, colocando impactos positivos e propósitos, somados à essa tecnologia do movimento do 4.0. As empresas precisarão se movimentar para a Indústria 4.0 e para a RSA 4.0.