Finanças

Os abutres têm fome

Os chamados “fundos abutres” se preparam para comprar bilhões em créditos vencidos e mudar a negociação de dívidas no Brasil

Os abutres têm fome

A dura realidade econômica dos últimos anos levou muitos brasileiros a caírem na inadimplência. Em julho de 2018, o número
de consumidores com dívidas vencidas alcançou o recorde de 61,8 milhões, segundo a Serasa Experian. Mas é como diz o ditado: “enquanto uns choram, outros vendem lenços”. A dificuldade dos negativados junto aos grandes bancos representa oportunidade de negócios. Gestoras que compram carteiras de créditos inadimplentes, conhecidas como “fundos abutres”, encheram o caixa de recursos no ano passado. No foco, empréstimos a empresas de médio porte vencidos há três ou quatro anos. Depois de tentativas frustradas das instituições financeiras em recuperar as dívidas, elas são colocados à venda por um valor bem abaixo do montante total.

“Tivemos uma expansão do crédito por um período muito prolongado, de 2002 a 2014, que terminou com a recessão. Isso pegou no contrapé muitas empresas alavancadas que esperavam a continuidade do crescimento”, diz Guilherme Ferreira, sócio da gestora de recursos Jive. Só no segundo semestre de 2018, a empresa levantou cerca de R$ 1,7 bilhão no mercado. Com esses recursos, pretende comprar R$ 10 bilhões em créditos inadimplentes, considerado o valor de face dos ativos, além de outros R$ 3 bilhões entre precatórios e imóveis.

Simão Kovalski, Banco do Brasil: “A gestora já chega com um preço pré-definido, e bem abaixo do que queremos” (Crédito:Carlo Ferreri)

Por se tratar de um segmento ainda pouco explorado, não há um consolidado estatístico com os números desse mercado. Os dados disponíveis têm como base o acompanhamento dos próprios gestores. Segundo Ferreira, entre R$ 30 bilhões a R$ 40 bilhões em créditos inadimplidos devem ser vendidos em 2019. Já Rafael Fritsch, CIO da Canvas, aponta para um valor de
R$ 400 bilhões, considerando todas as carteiras de crédito vencidas dentro dos grandes bancos.
Na Canvas, a captação de US$ 470 milhões em junho de 2018, feita somente junto a estrangeiros habituados a esse tipo de operação, se soma ao capital que a gestora já tinha em caixa. Com isso, ela tem no total cerca de R$ 3,5 bilhões para ir às compras. “A conta mais simples indica um valor médio pago de 20% do valor de face dos créditos, o que resultaria numa compra de quase R$ 15 bilhões de créditos vencidos”, diz Fritsch. Esse percentual, contudo, varia muito. Nos casos em que as chances de recuperação são maiores, a gestora já pagou 70% do valor de face.

As incertezas de 2018 mantiveram esse mercado em compasso de espera, diz o gestor da Canvas. Já neste primeiro trimestre de 2019, o ritmo começa a melhorar. Os bancos públicos, que tiveram uma atuação tímida nesse setor no passado, já demonstram maior interesse com a nova administração. “Esperamos o início de alguns projetos-piloto bem interessantes no segundo trimestre”, afirma Fritsch.

PLATAFORMA DIGITAL O ambiente macroeconômico desfavorável, no entanto, não foi o único motivo que impediu a concretização de transações, afirma o diretor de reestruturação de ativos operacionais do BB, Simão Kovalski. “A gestora já chega com um preço pré-determinado e muito abaixo do que queremos”. Para driblar o problema e não ficar refém das ofertas dos “fundos abutres”, o banco criou uma plataforma digital em junho do ano passado. Nela, a instituição coloca à venda títulos de direitos creditórios vencidos e já ajuizados. Só entram créditos com garantia, como imóveis e propriedades, com maiores chances de recuperação. A plataforma foi inaugurada com cem títulos, com a negociação de cerca de 20% do total, que geraram aproximadamente R$ 50 milhões ao BB, que considera a iniciativa bem sucedida. Em novembro, outros mil títulos foram incluídos na plataforma, gerando mais R$ 100 milhões em vendas até agora.

“Estamos em negociações que envolvem cerca de R$ 200 milhões e vamos incluir na plataforma outros três mil títulos”, diz Kovalski. Ele conta do caso de um devedor com quem o banco negociava o pagamento de uma dívida há 10 anos. Depois de inserir o débito para negociação, os interessados começaram a visitar a propriedade que serve como lastro. Incomodado com a exposição, o proprietário quitou a pendência. “O comportamento do consumidor às vezes é muito engraçado”, comenta o diretor, com ar de satisfação.