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Onde estão os negros no mercado de trabalho?

Enquanto a taxa de desocupação média entre os brancos é de 9,9%, entre os pretos e pardos é de 14,6%. E o rendimento médio destes é de pouco mais da metade do salário dos brancos

Onde estão os negros no mercado de trabalho?

Apenas 622 cidades, entre os 5.570 municípios brasileiros, comemoraram o Dia da Consciência Negra, no último dia 20. Não se importar com a data da morte de Zumbi dos Palmares, que simboliza a luta contra a escravidão, representaria o fim do racismo para um país miscigenado como o nosso? O assunto entrou em debate pelo compartilhamento de uma frase atribuída ao americano Morgan Freeman. Em 2006, no programa “60 Minutes”, o ator, que participou de filmes como “Conduzindo Miss Daisy”, “Seven” e “Menina de Ouro”, entre tantos outros, disse que era preciso parar de discriminar e rotular racialmente as pessoas. Por esse motivo, ele era contra a celebração do Mês da História Negra, que acontece em fevereiro nos Estados Unidos.

O Brasil atingiu esse patamar libertador, certo?! #sóquenão. O detalhamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgado pelo IBGE três dias antes do feriado comemorativo, mostra um cenário desolador para a igualdade racial no mercado de trabalho. A cada três desempregados no País, dois são negros, ou seja, pretos e pardos – o instituto de pesquisa usa a raça como termo genérico para abranger a cor da pele. Enquanto a taxa de desocupação média entre os brancos é de 9,9%, entre os pretos e pardos é de 14,6%. Mais: o rendimento médio destes é de pouco mais da metade do salário dos brancos.

Você já se perguntou onde estão os negros no mercado de trabalho? Olhe no seu entorno e conte quantos estão próximos a você. Se eles representam quase 55% da população brasileira com mais de 14 anos, por que são invisíveis no momento da contratação e do preenchimento de vagas? O que fazemos de errado para manter esse desequilíbrio de condições? Fiz um exercício, dentro de um pequeno banco de currículos que mantenho comigo. Guardo e-mails de pessoas que se interessam em trabalhar na editora e que gosto do perfil. Queria ver encontrava uma resposta para essas dúvidas. Não fui bem-sucedido, pois as pessoas descrevem suas qualificações e habilidades e não suas características.

Mas lembrei de uma conversa recente que tive com Theo Van der Loo, o presidente da multinacional Bayer. Ele é uma das principais vozes entre os executivos brasileiros na defesa da igualdade de condições para negros, mulheres e para a comunidade LGBT. O que ele vem incentivando dentro da companhia parece ser um caminho razoável para diminuir esse vale. Para Van der Loo, as pessoas não querem favor, querem oportunidade e reconhecimento. O importante é dar equidade de condições num processo de seleção e não promover uma contratação imediata e obrigatória apenas por um candidato representar uma minoria. Por isso, na fase final de escolha, é preciso ter equilíbrio (homem e mulher, branco e negro etc) para que o mais bem preparado e adequado para a posição seja o escolhido.

O tema não é simples e não vai ser resolvido de maneira simplória. Mas é importante que o debate seja franco, aberto e verdadeiro. Até para mostrar que a frase atribuída a Freeman, que circulou nas redes sociais e em diversos grupos de WhatsApp (“O dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência Negra, Amarela ou Branca e nos preocuparmos com Consciência Humana, o racismo desaparece”) foi uma livre adaptação do que ele realmente disse há 11 anos. Em tempos de fake news, não podemos nos contentar em receber um conteúdo pronto e considerá-lo verdadeiro, principalmente quando ele se enquandra naquilo em que acreditamos. É preciso ir além e não aceitar tudo com inocência.