Investidores

Onda jovem na B3

A maior parte dos investidores que aportam recursos em títulos públicos federais do Tesouro Direto ou em ações pela internet é considerada jovem e antenada com as novas funcionalidades das plataformas de investimentos

Crédito: Rodrigo Trevisan

INFLUENCIADORES Da esquerda para a direita na foto estão: Thiago Nigro (youtuber do canal O Primo Rico), Marilia Fontes (especialista em renda fixa), Louise Barsi (investidora e fundadora do site Ações Garatem o Futuro) e Bruno Perini (investidor e fundador do site Você Mais Rico), badalados influencers do mercado financeiro. (Crédito: Rodrigo Trevisan)

Num período de dez anos, desde que o último pregão viva-voz da BM&FBovespa se calou em 30 de junho de 2009 muita coisa mudou no mercado de renda variável no Brasil. Numa velocidade muito rápida, a voz ao telefone deu lugar para operações via computador (desktop e laptop) e depois para poucos cliques no smartphone em plataformas de investimentos. Junto com essa transformação tecnológica, as corretoras também perceberam seu público mudar, de executivos engravatados e profissionais liberais sem muito tempo disponível para uma geração jovem que passa o dia acompanhando o sobe e desce do mercado, as últimas notícias e relatórios na tela do celular e postagens em áudios e vídeos de seus analistas preferidos.

“Nosso público é muito jovem, a maior parte não tem 30 anos. Temos um trabalho de educação financeira bastante importante e numa linguagem bem acessível. O mercado para o varejo está crescendo, e, cada vez mais, as pessoas estão buscando informações sobre como operar na bolsa de valores”, diz o analista-chefe da Rico Investimentos, Roberto Indech, em entrevista, após participar do evento Rico Connect. O encontro – que praticamente lotou o auditório Simón Bolívar, com capacidade para 1.778 pessoas, no Memorial da América Latina, em São Paulo – mostrou que a nova geração da bolsa de valores curte influenciadores digitais badalados como Thiago Nigro (youtuber do canal O Primo Rico), Louise Barsi (investidora e fundadora do site Ações Garantem o Futuro), Marilia Fontes (especialista em renda fixa da Nord) e Bruno Perini (investidor e fundador do site Você Mais Rico), e também está atenta aos conselhos de traders mais antigos ,como Roberto Lombardi,que atuou no pregão viva-voz da BM&F.

PORTA DE ENTRADA Na visão de Indech, o primeiro contato desse público com as corretoras ocorreu com a popularização do Programa de Compra e Venda de Títulos Públicos Federais pela Internet, o chamado Tesouro Direto, nos últimos anos. “O investimento em Tesouro Selic ou Tesouro IPCA+ é uma porta de entrada para a bolsa de valores (B3), serve como aprendizado. E depois que a pessoa entende como funciona, com maior conhecimento em outros produtos, fica mais fácil investir”, afirma.

A opinião sobre o Tesouro Direto como “porta de entrada do mercado” é compartilhada pelo economista do BTG Pactual Digital Alvaro Frasson. “Os influenciadores digitais ajudam muito nessa educação. É um processo cultural, a pessoa começa com o Tesouro Direto, aplica em LCAs, LCIs, CDBs, fundos de ações e multimercados, e quando está mais bem informada vai para ações”, diz.

Roberto Indech, analista da Rico Investimentos: “Nosso Público é muito jovem, a maior parte ainda não tem 30 anos. temos um trabalho de educação financeira muito importante e numa linguagem bem acessível” (Crédito:Divulgação)

Os dados do último boletim do Tesouro Direto mostram que o número de investidores cadastrados no programa já ultrapassou cinco milhões de pessoas, sendo 1,15 milhão de aplicadores ativos. Do total de cadastrados, 18,6% dos usuários possuem idade entre 16 e 25 anos, e 37,5% tem idade entre 26 e 35 anos. Ou seja, a maioria (56,1%) é considerada jovem. Há ainda uma pequena amostra de 0,3% dos cadastrados formada por crianças e adolescentes, de zero até quinze anos, que foram inscritas por seus pais ou responsáveis para investirem em títulos do governo brasileiro.

A própria bolsa de valores (B3) reconhece a importância do Tesouro Direto para sua estratégia de expansão e de comercialização, tanto que, nos últimos anos, renova seu programa de incentivos para as corretoras que operam no segmento. O resultado aparece para os clientes na forma da política de promoções de “taxa zero” de administração no Tesouro Direto, prática adotada inicialmente por 32 corretoras e depois acompanhada pelos maiores bancos – Itaú, Banco do Brasil, Bradesco, Santander Brasil, Caixa Econômica Federal, BTG Pactual, Safra e Banrisul.

INCENTIVO GERAL Em entrevista sobre o último balanço trimestral da B3, Rogério Santana, diretor de relações com investidores (RI) da Bolsa respondeu que a companhia distribuiu R$ 130,7 milhões em incentivos aos participantes do mercado (bancos e corretoras) no período entre janeiro a setembro de 2019 por cumprirem metas de adesões e de volumes no Tesouro Direto e na renda variável (ações e derivativos). “Quanto mais o participante negocia e agrega novas pessoas físicas, e atinge as metas de volumes na depositária de ações e títulos, maior é o desconto da B3 [nas tarifas]. Por isso, estamos vendo instituições com promoções como a isenção total da taxa de custódia em fundos imobiliários e ações”, afirma Santana.

Segundo o balanço detalhado pelo diretor, o aumento de 79,8% no número médio de contas na central depositária foi parcialmente compensado pelos incentivos oferecidos aos clientes por meio do programa de expansão da base de pessoas físicas no mercado de renda variável. Programa que totalizou R$ 17,7 milhões no terceiro trimestre de 2019, ou R$ 38,5 milhões nos primeiros nove meses do ano. Já na linha de renda fixa, a B3 considerou o desempenho positivo das corretoras na atração de novos clientes no Tesouro Direto e na expansão do volume em títulos públicos. E, com isso, os incentivos aos participantes somaram R$ 92,2 milhões no acumulado de 2019 até setembro.

O modelo da Bolsa de dividir seus ganhos com os participantes está gerando resultados. O número de investidores ativos na B3 cresceu 95% nos últimos doze meses até outubro último, de 788 mil para 1,53 milhão de pessoas. “Temos parceria com as corretoras em educação financeira”, diz Santana. Ele completou que a companhia desenvolve uma série de produtos para aumentar os volumes de negociação, como BDRs e opções de juros e ações.