Finanças

Olhando para fora

André Laport, primeiro brasileiro a ser sócio da Goldman Sachs, terá de mostrar que tem brilho próprio com a sua gestora Vinland, focada no mercado internacional

Crédito: Claudio Gatti

Laport: experiência de 17 anos no exterior e bons contatos (Crédito: Claudio Gatti)

O carioca André Laport faz questão de manter corpo e mente em forma. Aos 49 anos, ele se exercita diariamente, alternado corrida, natação e musculação. Também pratica uma hora de meditação todas as manhãs, único momento do dia em que não pensa em trabalho. Tanta dedicação rendeu frutos. Trabalhando há quase três décadas no mercado financeiro, ele foi o primeiro brasileiro a tornar-se sócio do banco de investimentos americano Goldman Sachs, onde passou dez anos. Desde o início de 2018, quando deixou a instituição comandada por Lloyd Blankfein, Laport dedica toda a sua energia a um novo projeto: a gestora de recursos Vinland Capital, fundada em março e focada em ativos internacionais. “Diversificar o portfólio de modo a incluir ativos de outros países reduz o risco do investidor”, diz Laport. Essa é uma tendência crescente. “Os brasileiros estão cada vez mais interessados em investir em ações no exterior, onde a rentabilidade das empresas é mais expressiva”, diz Pedro Martins, reitor da Euro American Business School.

A Vinland foi criada em sociedade com James Oliveira, que comandou por dez anos a tesouraria do BTG Pactual. Oliveira tem muita experiência em renda fixa e na montagem de estratégias baseadas nas variáveis macroeconômicas. “Já eu trouxe a bagagem da renda variável, com foco em investimentos no exterior”, diz Laport. Ele também recrutou alguns ex-colegas da Goldman, como o economista Paulo Leme, que presidiu o banco no Brasil por quatro anos, e Igor Mansour, que chefiou a mesa de operações brasileira por quatro anos.

Laport traz na bagagem, além dos contatos, a experiência de quem já enfrentou sua parcela de crises. Ele concluiu seu MBA na Harvard Business School em 2007 e entrou na Goldman um ano depois, como diretor da mesa de ações da América Latina. No ano seguinte, encarou o terremoto da bolha imobiliária americana. Foi o maior desafio de sua carreira. “Estávamos operando em um mercado extremamente difícil e ainda tínhamos de lidar com perdas de patrimônio”, diz. Isso incluiu dores no próprio bolso. Quase toda a sua reserva financeira estava aplicada nas ações do próprio banco, que caíram mais de 50%. Laport respirou fundo e não vendeu. “Navegar nesse mar incerto me fez crescer como profissional”, afirma. Também lhe ensinou a cuidar das relações pessoais. “Aprendi a aconselhar os colegas e a alinhar as pessoas nos cargos mais compatíveis com as suas habilidades”, diz. “E isso não significa ser bonzinho.” O desempenho positivo lhe valeu o convite para ser sócio da instituição.

Sede do Google, na Califórnia: empresa de tecnologia é uma das preferidas do gestor (Crédito:Justin Sullivan/Getty Images)

A experiência na Goldman não foi a primeira fora do Brasil. Laport começou no mercado em 1992 como operador de mesa do banco carioca Ômega, um dos mais importantes no mercado de juros antes da estabilização da economia. Ficou lá por oito anos. Depois foi gestor de recursos no Safra e diretor do BNP em Nova York. Os cargos permitiram que ele trabalhasse nos Estados Unidos e na Inglaterra. “Passei 17 anos no Exterior”, diz. Hoje, a Vinland administra dois fundos, com um patrimônio total de R$ 1,55 bilhão. Oliveira cuida do Multimercado Macro, com patrimônio de R$ 1,3 bilhão. O fundo, que iniciou suas atividades em março, rendeu 1,51% na primeira quinzena de julho, mas acumula perdas de 2,27% desde sua fundação. E Laport administra o Multimercado Long Bias.

O fundo segue uma estratégia long short, que consiste em apostar, simultaneamente, na alta e na baixa de duas ações cujos preços oscilam de maneira correlacionada. A diferença da Vinland é emparelhar papéis brasileiros e americanos, como Itaú Unibanco e Google (observe o quadro ao lado). “Temos até uma companhia chinesa no portfólio, a Xiaomi, que é a terceira maior fabricante de aparelhos celulares, atrás da Apple e da Samsung”, diz Laport. O fundo, com patrimônio líquido de R$ 258 milhões, acumula valorização de 4,04% em julho de acordo com a Economatica. Desde sua abertura, o retorno está negativo em 0,98%. “Estamos focados em rentabilizar os fundos e operar com cautela para preservar o patrimônio dos clientes”, diz.

Nos seus primeiros meses, a Vinland captou recursos apenas de brasileiros. Porém, no fim deste mês, os dois fundos vão começar a receber também aportes de estrangeiros. A intenção é captar recursos de investidores institucionais de grande porte, como fundos soberanos. Na avaliação do economista Newton Campos, professor de finanças da Fundação Getulio Vargas, este é um bom momento para os estrangeiros entrarem no País. “A desvalorização do real, que está na faixa de 18% no ano, estimula esse movimento”, diz Campos. Ter bons contatos facilita essa captação. Segundo Laport, os investidores internacionais estão mais acostumados a pensar no longo prazo, o que reduz a possibilidade de resgates em momentos de volatilidade acentuada.

Para enfrentar a turbulência que deve ser provocada pelas eleições e pelo cenário conturbado da economia mundial, a equipe da Vinland montou estratégias de curto prazo, válidas até dezembro. A casa projeta um crescimento de apenas 0,5% na economia brasileira neste ano, bem abaixo do consenso mais recente do mercado, que é de 1,5% em média. Para traçar cenários com a variável eleitoral, os analistas vêm se debruçando sobre as propostas econômicas de cada candidato. “O importante é que o próximo presidente consiga aprovar as reformas, não importa de qual partido for”, diz Laport. Ele avalia que a incerteza política deve continuar trazendo volatilidade para a Bolsa e prevê um Índice Bovespa oscilando entre 70 mil e 80 mil pontos até a eleição. “Se o candidato eleito for reformista, o índice pode chegar até os 100 mil pontos. Do contrário, pode cair abaixo dos 60 mil”, diz.