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O varejo e a concorrência do setor financeiro

No varejo, serviços financeiros podem ser prestados de maneira eficaz, automatizada e com uma proporção bem menor de custos fixos

Crédito:  Paulo Fridman/Bloomberg

De cartões de marca própria (ou private labels) a seguros variados, os brasileiros já encontram uma oferta gigantesca de serviços financeiros à disposição em qualquer varejista. Oferecidos em parceria com grandes instituições financeiras, esses serviços trazem margens representativas de lucro para a maioria das grandes redes. Em breve, as varejistas estarão aptas a oferecer os mesmos serviços de forma independente, sem a necessidade de um banco parceiro para a liquidação das operações. Uma das razões para acreditar nisso está no movimento crescente de APIs abertas. Com a regulamentação de Open Banking criada na Europa (a PSD2) e suas perspectivas de chegada ao Brasil em 2019, mais players terão acesso a informações relevantes e valiosas de clientes, capazes de trazer novos modelos de negócio à tona.

No Brasil, um passo importante dado este ano foi a regulamentação das startups de crédito pelo Banco Central, por meio da resolução número 4.656 de abril de 2018. Com a nova norma, fintechs regulamentadas podem conceder crédito a empresas diretamente, utilizando seu próprio capital, assim como intermediar empréstimos entre pessoas através de um modelo chamado de P2P (peer-to-peer).

Essa abertura gradual aos diversos setores para lidar com serviços financeiros, somada ao cenário brasileiro de aproximadamente 60 milhões de pessoas desbancarizadas — sempre frequentando as redes físicas de grandes varejistas — deve fazer com que esses players passem a atuar no segmento financeiro de forma cada vez mais autônoma, investindo mais nessa frente de serviços.

Além da facilidade de acesso ao público consumidor, varejistas devem investir nesse tipo de serviço em função das altas margens de lucro. Enquanto cadeias logísticas exigem alta complexidade, serviços financeiros podem ser prestados de maneira eficaz, automatizada e com uma proporção bem menor de custos fixos.

Nesse cenário, para não perderem espaço em meio à nova concorrência, instituições financeiras devem investir num modelo diferenciado de oferta, chamado “Banco como Plataforma” (ou BaaP). Trata-se, basicamente, de uma nova estratégia que acelera a transformação da instituição financeira tradicional permitindo que ela se transforme em uma plataforma de serviços aberta e modular, estruturada em modelos ágeis e digitais, e que alavanca fortemente parcerias para acelerar a oferta de novas experiências para os clientes finais e obter novas receitas.

Os bancos vão precisar de cada vez mais conhecimento para se adaptarem às novas exigências do novo mercado — o que, levado a certo extremo, pode colaborar para a redução do spread bancário no País, que hoje tem um dos maiores índices do mundo. Mais do que atrair novos clientes, será necessário cruzar a maior quantidade de dados possíveis para gerar insights significativos e oferecer produtos adequados às necessidades de cada consumidor.

É fundamental que líderes — não somente CIOs, mas todos os executivos de alto escalão — estejam envolvidos a fim de decidir qual é a melhor estratégia para cada companhia conseguir crescer de maneira sustentável em um cenário cada vez mais competitivo. O varejo brasileiro, é claro, não vai ficar de fora desse processo.