Negócios

O valor de um boicote

Grupo J&F sofre com protestos de consumidores nas redes sociais, o que pode impactar os seus produtos nas gôndolas dos supermercados

Crédito: Victor Moriyama/Bloomberg/Getty Images

A carne é fraca: nesta semana, a JBS sofreu os mais diversos ataques. em destaque, a foto de um boicote de uma churrascaria de Curitiba. (Crédito: Victor Moriyama/Bloomberg/Getty Images)

A crise que atinge o Brasil desde 2015 deixou apenas um segmento incólume em todo o País: o de memes. Nas últimas semanas, as conhecidas piadas compartilhadas nas redes sociais receberam um combustível. A delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista, controladores do grupo J&F, dono da JBS, foi alvo de montagens e sátiras, como a criação do personagem Joesley Safadão, em alusão ao cantor de forró eletrônico Wesley Safadão. Ainda menos engraçado para a J&F vem sendo os vídeos e mensagens fazendo campanhas pelo boicote às marcas do grupo, como Friboi, Seara, Vigor e Havaianas.

Nas redes sociais, Fernanda Tedeschi, irmã da primeira dama, Marcela Temer, fez um protesto em seu perfil do Instagram
Nas redes sociais, Fernanda Tedeschi, irmã da primeira dama, Marcela Temer, fez um protesto em seu perfil do Instagram (Crédito:Reprodução)

Trata-se do segundo golpe que a empresa sofre em um curto espaço de tempo. Em março, a operação Carne Fraca, da Polícia Federal, que investigou fraudes na produção de companhias como a JBS e a BRF, já tinha atingido a imagem da empresa. A consultoria britânica especializada em consumo Dunnhumby fez uma pesquisa com 530 pessoas, que apontou que 59% dos participantes tinham diminuído a compra de carne bovina. O impacto nas marcas da JBS foi ainda mais forte. Antes da operação, 70% dos respondentes afirmaram consumir produtos da Seara regularmente.

No caso da marca Friboi, o percentual era de 52%. Após a divulgação da Carne Fraca, esses índices caíram para 20% e 1%, respectivamente. “O consumidor atual procura marcas que sejam transparentes e em que possam confiar”, diz José Gomes, diretor-geral da Dunnhumby. Os impactos do novo boicote ainda não podem ser medidos, mas, segundo especialistas, a empresa não pode ignorar o momento de reprovação dos seus clientes – algo que deve ter impacto no próprio varejo.

Fontes afirmam que está sendo negociada uma diminuição das compras de produtos da J&F por grandes varejistas, como o Pão de Açúcar. Por meio de nota, o GPA afirma que “repudia qualquer situação de corrupção e que solicitou esclarecimentos acerca das recentes notícias divulgadas”. Walmart e Carrefour seguiram a mesma linha do discurso adotado pelo rival. A partir de agora, a companhia dos irmãos Batista precisará criar uma estratégia para limpar a sua imagem, assim como outras gigantes vêm tentando.

A montadora alemã Volkswagen, em janeiro, concordou em pagar US$ 4,3 bilhões por conta de fraudes nos testes de emissão de poluentes em milhões de carros no mundo. A varejista espanhola Zara ainda é lembrada por denúncias passadas de trabalho escravo. “O mundo digital tem a capacidade de aumentar o estrago de ações como essas”, diz Roberto Kanter, professor de marketing da FGV-RJ. Procurada, a J&F, por meio de nota, afirma que nenhuma delação envolve “a qualidade dos produtos ou a excelência operacional.”