Negócios

O trator que acelera o governo federal

Pragmático, com bom trânsito político e flexível, Tarcísio Gomes de Freitas, o ministro da Infraestrutura, lidera um ambicioso programa de concessões de aeroportos e de rodovias para garantir melhorias logísticas no Brasil

Crédito: Edsom Leite

MINISTRO PÉ NA LAMA Para garantir a desobstrução de uma rodovia no Pará, Tarcísio foi ao interior do estado e acompanhou pessoalmente os trabalhos de desatolar os caminhões (Crédito: Edsom Leite)

No time ministerial do governo Bolsonaro há alguns grupos perfeitamente identificáveis. Há os nomes estelares de Paulo Guedes, da Economia, e Sergio Moro, da Justiça. Existem os folclóricos, como Damares Alves, da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, e Abraham Weintraub, da Educação. Em meio a todos eles está um ministro com posição singular, mesmo dentro dos quadros mais técnicos. Bem avaliado por todas as áreas do governo, dos bolsonaristas mais radicais, passando pelos economistas, empresários, militares e até por políticos da oposição, Tarcísio Gomes de Freitas, de 44 anos, é unanimidade à frente do Ministério da Infraestrutura. Apesar de discreto, já é considerado o terceiro superministro, pela importância de sua pasta, capacidade de trabalho e empenho. Qualidades que garantem sua escolha como Empreendedores do Ano na Economia.

Dormindo apenas entre três e quatro horas por noite, um hábito que vem da época de estudos de madrugada, durante o colégio militar, ele pode ser considerado o verdadeiro trator do governo. “Não quero fazer parte da geração perdida”, costuma dizer em suas palestras. A meta definida para o governo para a área de infraestrutura envolve a concessão de 40 aeroportos até 2022, de portos e de rodovias, incentivo à cabotagem e ampliação de estradas e ferrovias. Em meio a todos esses projetos, ele ainda liderou as negociações com caminhoneiros sobre o preço de frete, evitando uma nova greve.

Para cumprir tantas missões, o ministro tem perfil pragmático, liberalizador e flexível, além de se mostrar um bom articulador político. Os seus interlocutores notam que não é afeito a conversas fiadas, e costuma ser direto nas respostas. Talvez por isso seja uma exceção no governo atual, o único “herdado” das gestões anteriores dos ex-presidentes Michel Temer (MDB) e Dilma Rousseff (PT). Em menos de três anos, liderou cerca de 150 concessões. Apenas nos 100 primeiros dias de governo Bolsonaro, foi responsável por 23 leilões, incluindo aeroportos, terminais portuários e a Ferrovia Norte-Sul. “Temos um enorme déficit de investimento em infraestrutura e há a expectativa que começaremos a ver bons resultados a partir de 2020, o que ajudará a impulsionar a atividade econômica”, diz Venilton Tadini, presidente da Abdib, a associação de infraestrutura.”

“Não quero fazer parte da geração perdida. Na última reunião do PPI, o governo traçou a meta de realizar 59 projetos e fazer a concessão de 14,5 mil km de rodovias”

Carioca, Tarcísio é flamenguista, fã de música (o seu pai teria composto músicas em parceria com Pixinguinha) e católico, uma fé reforçada pela cura de um câncer na época em que era estudante. Ele se formou na Academia Militar das Agulhas Negras (RJ), a mesma por onde passou Bolsonaro, e em engenharia civil no Instituto Militar de Engenharia (IME), com uma das melhores notas médias da história da instituição. Subiu a capitão e fez pós-graduação em gestão de projetos. A trajetória de aluno brilhante o levou a se tornar consultor legislativo da Câmara dos Deputados e à chefia de gestão técnica da missão brasileira de reconstrução do Haiti, quando ficou à frente do planejamento e da realização de obras.

Entre 2011 e 2014, foi diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), num momento que a presidente Dilma fez uma “faxina” ética de posições ligadas ao Ministério dos Transportes, envolvido em denúncias de corrupção. Na época, ficou conhecido como incorruptível. Ficou famosa a história de que, ao receber uma sugestão de propina de um executivo de empreiteira, perguntou: “Você sabe voar?” E então teria dado a opção para ele sair da sala pela porta ou ser arremessado pela janela. No governo de Temer, assumiu a secretaria de coordenação de projetos do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI).

Indicado para Bolsonaro, precisou de poucas horas para convencê-lo que era o nome certo para a pasta e da necessidade de seguir o que já estava sendo feito. Afinal, Tarcísio acredita que a infraestrutura exige política de estado de décadas. Isso não significa que não há pressa. É preciso destravar os investimentos, bloqueados com a operação Lava Jato. Na última reunião do PPI, o governo previu realizar 59 projetos e conceder 14,5 mil km de rodovias. Tarcísio ainda decidiu colocar o Exército, com cerca de mil soldados, pra fazer obras de infraestrutura — como melhorias na BR 115, no Rio Grande do Sul, e a pavimentação da BR 163, no Pará. Em relação a essa última obra, ele viajou ao interior do Pará e coordenou o resgate de caminhões atolados na lama em fila de 50 km e que já durava 11 dias. De fato, mais do que um ministro “pé na lama”, Tarcísio tem sido um verdadeiro trator do governo.