O tamanho da queda

O tamanho da queda

De novo em recessão técnica com o tombo gigante movido a pandemia, o Brasil tortura os números para mostrar que não estaria tão mal frente às demais nações. Afinal, com um PIB negativo de 9,7% no segundo trimestre teve comportamento semelhante ao de grandes nações, como os EUA, ficando no pelotão intermediário dos que perderam mais ou menos. A relembrar a frase memorável da ex-presidente Dilma Rousseff: “Todos vão perder, quem ganhar e quem perder irá perder”. E assim se deu na pororoca de países acometidos pela Covid-19, em suma quase o mundo inteiro. Dos 9,7% registrados por aqui há de se tirar algumas conclusões que não deixam a economia interna tão bem na fita, como querem fazer crer alguns senhores do Estado. Sim, foi um baque relativamente previsível, talvez até “razoável” para as circunstâncias. Mas sobre que base? Tome-se, por exemplo, o comparativo com os EUA. Antes da crise sanitária, a potência americana vinha avançando em ritmo acelerado, pujante, com índices sonoros. Entre 2013 e 2020, para se ter uma ideia, ele viu seu PIB subir 14%. E o Brasil? No mesmo período, o desempenho havia sido medíocre. Para não dizer frustrante. Entre anos de recessão e outros de absoluta paralisia, andando de lado, amargou, entre 2013 e 2020, um recuo alarmante, da ordem de 9% do PIB. Em outras palavras: a base sobre a qual se registram o novo baque dramático de 9,7% já era muito baixa. O País retornou mais de uma década no tamanho de seu Produto Interno Bruto. Para ser exato, não se via nada igual desde 2009. Recuperar fôlego para encarar a hecatombe vai exigir muita criatividade e disciplina. Algo que, de saída, o governo Bolsonaro não parece mostrar. Gastos seguem na ordem do dia do mandatário. Desperdícios como aumentos fora de hora de funcionários públicos e destinações indevidas, e reajustadas para cima, em pastas nada vitais como a da Defesa estão a exigir uma ginástica absurda da equipe comandada pelo czar Paulo Guedes. O ministro, fazendo uso de um otimismo desmedido – talvez para inglês e investidores verem –, diz que o crescimento interno ocorrerá em “V”, rapidamente. Já estaria até sendo verificado, nos seus cálculos. Para ilustrar sua teoria apelou a raios e trovões, literalmente, dizendo que o barulho dos 9,7% nada mais é do que eco de um problema que já passou. Há de se ter muita boa vontade para acreditar na tapeação. O problema está claro e estampado no dia a dia de todos. Não passou nada. O risco de uma tentação populista ronda o Planalto e ameaça as contas futuras como uma espada sobre a cabeça dos brasileiros. O fato existente – e desse não se pode fugir – é a recessão implacável que assola o País, de novo e mais uma vez. Dilma Rousseff, talvez nisso, tenha sido profética: todos vão perder.

Carlos José Marques, diretor editorial

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Sobre o autor

Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três e escreve semanalmente os editoriais da revista DINHEIRO


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