Mercado Digital

O superaplicativo da Movile

A dona do iFood quer concentrar todos os programas de smartphones em um único lugar. A questão é saber se os consumidores comprarão essa ideia

Crédito: Claudio Gatti

Tudo em um: (da esq. para a dir.) Mauro Piazza, da Rapiddo, e Paulo Curio, da Movile, querem integrar até serviços de transporte no aplicativo (Crédito: Claudio Gatti)

Ser dono do iFood poderia ser suficiente para qualquer empresário do mercado digital. Afinal, o popular aplicativo de comida realiza 4,4 milhões de entregas por mês no Brasil, Argentina, Colômbia e México. Mas para a brasileira Movile, que tem em seu catálogo ainda o PlayKids e outros programas de sucesso, não é o bastante. A mais recente aposta da startup cujos investidores são o fundo sul-africano Naspers e o brasileiro Innova Capital responde pelo nome de Rapiddo. Trata-se de um superaplicativo que vai unir em um único local diversos outros serviços online que funcionam via smartphone. “Queremos criar o marketplace dos marketplaces”, diz Paulo Curio, diretor de negócios da Movile.

A plataforma do Rapiddo, por enquanto, permite realizar a recarga de créditos do celular, pedir pizzas e lanches, obter cupons de desconto para restaurantes, lojas e eventos, além da leitura notícias. “Vamos adicionar mais serviços até o fim do ano”, afirma Mauro Piazza, CEO da Rapiddo. Para atrair usuários, a companhia desenvolveu uma estratégia arriscada, o cashback. Funciona como uma espécie de troco. A cada compra realizada, o usuário recebe um percentual do valor de volta para ser usado como crédito no superaplicativo. Esse crédito pode ser usado em qualquer serviço disponível no Rapiddo.

Ao realizar uma recarga de créditos do celular por R$ 50, o usuário recebe R$ 5 de volta no aplicativo. A ideia é fazer com que esse dinheiro seja utilizado para movimentar os serviços disponíveis na Rapiddo. Ou seja, para manter a roda girando. “Não queremos competir com nenhum aplicativo, mas aumentar as transações deles”, diz Curio. “Queremos levar o internauta que usa o iFood a realizar recargas e a comprar ingressos de shows.” O plano de fazer os superaplicativo vingar, no entanto, não é uma missão fácil. “É uma aposta extremamente ambiciosa”, diz Luca Belli, pesquisador do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getulio Vargas.

Superaposta: José Renato Hopf fundou a 4all, pioneira brasileira no mercado de aplicativos que unem várias funções em um só programa (Crédito:Marcos Nagelstein / Istoé)

De acordo com o especialista, criar um superaplicativo de sucesso seria algo inédito no Brasil. “Eu nunca vi um aplicativo novo se transformar em um superaplicativo.” Para Belli, a estratégia mais segura para a Movile teria sido incorporar novas funções ao seu principal produto, o iFood, que já conta com uma base de usuários relevante. Apesar de parecer uma aposta arriscada, a ideia de juntar vários serviços em uma única plataforma não é exatamente uma novidade. O chinês WeChat, por exemplo, tem 800 milhões de usuários. Criado pela Tencent, o aplicativo nasceu como uma espécie de WhatsApp, mas ganhou várias funções ao longo do tempo. É possível realizar transações financeiras e pagamentos de contas, agendar consultas médicas e até realizar a reserva de serviços de viagem.

A Índia abriga o segundo principal superaplicativo do mercado, o PayTM. Apesar de relevante no país, o programa tem apenas um quarto dos usuários de seu rival chinês. No Brasil, os superaplicativos começam a buscar um lugar ao sol na preferência dos consumidores. Com investimentos de R$ 25 milhões, o gaúcho 4all é o pioneiro. O aplicativo nasceu em novembro de 2016 por iniciativa de José Renato Hopf, que dois anos antes vendeu a GetNet, empresa de processamento de pagamento de cartões, para o Santander por R$ 1,1 bilhão. Apesar de rechaçar o título de superaplicativo e se descrever como uma plataforma multisserviços, o programa reúne características que o tornam semelhante ao WeChat. “Nossa plataforma funciona como um grande showroom de soluções para o usuário”, diz Thiago Ribeiro, diretor de centrais digitais e de comunicação da 4all.

Pesquisas mostram que a estratégia adotada por essas empresas pode dar certo. Segundo dados da startup mineira Opinion Box, 46,2% das pessoas já realizaram compras por algum tipo de aplicativo. O índice de abandono também é relevante: 78,9% dos usuários desinstalaram algum aplicativo baixado nos últimos 30 dias. “As empresas precisam mostrar que seu aplicativo não merece ser desinstalado”, afirma Felipe Schepers, diretor de operações da Opinion Box. “Os superaplicativos viáveis porque são práticos e economizam a memória dos aparelhos.” Resta saber em qual das estatísticas o Rapiddo vai estar presente no próximo estudo.