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O sedutor de grifes

O empreendedor português José Neves fez a plataforma online Farfetch ser imprescindível para as principais marcas globais. Agora, ele aumenta o foco no Brasil e mira a abertura de capital nos EUA

Crédito: Toby Melville

Sem sossego: o fundador Neves prepara a empresa para o próximo passo, que deve ser o IPO nos EUA (Crédito: Toby Melville)

A tradicional grife francesa Chanel prometeu resistir ao avanço das vendas pela internet. Por isso, foi vista com surpresa a aproximação da empresa com a Farfetch, uma companhia de comércio eletrônico criada em Londres pelo português José Neves, em 2007. Em fevereiro deste ano, além de comprar uma participação minoritária na empresa britânica, a grife fechou contrato para usar a plataforma da Farfetch como forma de contato digital com os seus clientes. A parceria com a Chanel era um sonho antigo de Neves, mesmo que o acordo não inclua a venda pela internet de artigos da clássica marca. Mas, em um contraponto à resistência da Chanel, as principais grifes de luxo estão buscando a Farfetch para vender seus produtos online no marketplace da empresa.

Dessa forma, a companhia está se firmando como uma das favoritas na batalha para dominar o varejo digital de luxo e para se consolidar como uma espécie de Amazon dos produtos mais sofisticados, além de ter sido eleita uma das 50 empresas mais inovadoras, segundo a revista americana Fast Company. Assim como a companhia de Jeff Bezos conseguiu dominar o varejo online de itens que vão de produtos eletrônicos a livros, a empresa de Neves tem demonstrado potencial para se consolidar como a principal plataforma de venda de artigos de luxo do mundo. Por esse motivo, elas querem estar no portal para garantirem boas vendas pela internet. “A Farfetch está em um estágio emocionante em sua jornada. Começamos com 25 boutiques de cinco países e, agora, trabalhamos com mais de 800 marcas e butiques parceiras”, disse Neves à DINHEIRO. “Há dez anos, você não acreditaria se alguém dissesse que enviaria produtos de Cracóvia para Xangai e vice-versa.”

Perspectivas: Funis, diretor no Brasil, espera que a empresa cresça acima do mercado de luxo e do comércio eletrônico local (Crédito:Divulgação)

O Brasil tem se tornado fundamental na estratégia da Farfetch. Em 2011, o País foi o terceiro mercado a receber uma operação da Farfetch, depois da Inglaterra e de Portugal. Na época, ela se estabeleceu em um escritório em cima de uma padaria, na Vila Madalena, bairro da zona oeste de São Paulo. E, em agosto deste ano, mudará para o seu quarto escritório, que ocupará dois andares de um edifício em Pinheiros, para que possa abrigar 150 pessoas. Atualmente, mais de 50 grifes brasileiras, entre elas Osklen e Reinaldo Lourenço, fazem parte do portfólio global da companhia, que inclui nomes como Giorgio Armani Cartier e Dolce & Gabbana. Esses clientes negociam seus produtos na plataforma, que alcança 190 países.

A Farfetch recebe uma porcentagem não revelada por cada venda efetuada. Com uma receita global de US$ 180 milhões, ela cresceu 74% em 2016. No Brasil, a expansão tem superado os 50% ao ano. Embora não revele a receita no País, Daniel Funis, diretor da operação local, ressalta que a empresa projeta seguir nesse ritmo. Isso significaria registrar, em 2018, um salto superior aos 15% previstos pela Associação Brasileira de Comércio Eletrônico para o setor, que deve atingir uma receita de R$ 69 bilhões. O avanço da Farfetch é ainda mais destacado se a comparação se restringir ao seu segmento de atuação. Em 2016, o mercado brasileiro de luxo cresceu 9%, para R$ 33,9 bilhões, segundo a MCF Consultoria, especializada no setor. Uma desaceleração considerável em relação à média de 16% de expansão anual na última década. “O mercado de luxo permanece retraído”, diz Carlos Ferreirinha, presidente da MCF Consultoria. “Hoje, a meta no setor é de apenas manter a receita no mesmo nível do ano passado.”

A Farfetch, no entanto, tem planos de expansão, mas não só no mercado interno. A companhia também quer aumentar as vendas de produtos brasileiros para o exterior. Neste ano, as marcas Track & Field, Isla, Framed e Zeferino estarão disponíveis em todo o mundo por meio do programa Destination Brazil. “Quando falamos de moda praia, o País já é responsável por 40% das vendas”, diz Funis. Ele destaca que, em 2017, o projeto exportou quase 10 mil peças nacionais. “É uma excelente forma de marcas menores se posicionarem internacionalmente sem custos da operação.” A plataforma fica responsável por toda a logística, facilitando a entrada no mercado externo e eliminando riscos. “A vantagem de vender na Farfetch é a visibilidade do site no exterior”, diz a designer Serpui Marie, da grife de acessórios Serpui, que vende bolsas e sapatos pelo marketplace da companhia.

A empresa diz ser capaz de fazer qualquer entrega em até sete dias. Um produto da Itália para o Brasil costuma chegar em quatro dias. “Ela gerencia o estoque das marcas, o que dá a flexibilidade de ter sempre os produtos disponíveis”, afirma Ferreirinha. Tudo isso deve ajudar em sua próxima fase. A expectativa é a de que a Farfetch faça a sua abertura de capital (IPO) nos EUA. Para o processo, contratou os bancos Goldman Sachs e JP Morgan. O valor estimado está entre US$ 5 bilhões e US$ 6 bilhões. A principal rival, a Yoox Net-a-Porter Group, que tem uma década a mais de existência e um faturamento superior a US$ 2 bilhões, atingiu valor de US$ 6,2 bilhões. Se repetir apenas uma pequena parte do sucesso do IPO da Amazon, cujas ações se valorizaram quase 90 vezes desde maio de 1997, já será um feito sem precedentes para a Farfetch.