Negócios

O salto da JHSF

Especializado no atendimento a clientes de alta renda, o grupo mantém investimentos e vê resultado de seus negócios ter lucro de 5.000%.

Crédito: Silvia Zamboni

SATISFAÇÃO O CEO Thiago Alonso de Oliveira comemora o sucesso da empresa. “Existe demanda para esse tipo de produto ou serviço”, disse. (Crédito: Silvia Zamboni)

A pandemia do coronavírus não abalou o patrimônio dos bilionários brasileiros. Ao contrário, ele cresceu US$ 34 bilhões entre 18 de março e 12 de julho, segundo estudo da organização não governamental Oxfam Brasil. De acordo com o levantamento, a fortuna desses super-ricos passou de US$ 123,1 bilhões para US$ 157,1 bilhões. E basta analisar os resultados financeiros do segundo trimestre do grupo JHSF, especializado no segmento de alta renda no País, para constatar que a Covid-19 também pouco minou o apetite dos mais endinheirados por consumo de primeira linha. Apesar de as operações dos shoppings, restaurantes e hotéis da holding terem sido bastante afetadas pelas restrições impostas pela quarentena, o CEO Thiago Alonso de Oliveira não tem do que reclamar. O bom desempenho dos setores de incorporação e de aviação executiva garantiu à companhia crescimento de 5.000% do lucro líquido consolidado (de R$ 5 milhões para R$ 254,7 milhões), na comparação com o mesmo período de 2019, além de aumento de 236,3% (de R$ 51,2 milhões para R$ 172,1 milhões) do Ebitda Ajustado Consolidado. A receita bruta consolidada passou de R$ 156,3 milhões para R$ 266,2 milhões, alta de 70,3%. “Existe demanda para esse tipo de produto ou serviço. Nossa empresa organizar a oferta desse portfólio para manter um relacionamento de longo prazo com o cliente de alta renda. Tudo o que a gente pensa é materializado no propósito de surpreender, inspirar e realizar”, disse Oliveira.

Mesmo acostumado aos grandes números e resultados da JHSF, o CEO ficou surpreso com o rendimento do ramo de incorporação, que apresentou alta de 465,4% nas vendas contratadas (de R$ 60,1 milhões para R$ 339,7 milhões) em relação ao mesmo período de 2019, puxada, principalmente, pelo aumento de 531,8% nas transações do condomínio Fazenda Boa Vista (de R$ 45,6 milhões para R$ 288,4 milhões), em Porto Feliz, interior de São Paulo. Os últimos dois lançamentos da companhia, o Fasano Cidade Jardim (mix de clube, residências e um hotel conectado ao shopping), lançado em setembro de 2019, e o Boa Vista Village (lotes, vilas, residências e hotéis), em fase de pré-lançamento, apresentaram vendas de R$ 5,1 milhões e R$ 46,1 milhões, respectivamente. Os preços, no caso do Fazenda Boa Vista, partem de R$ 3 milhões, e no Fasano Cidade Jardim, de R$ 7 milhões.

NAS ALTURAS A aviação executiva contribuiu para o crescimento da empresa. (Crédito:Divulgação)

Setor de incorporação faturou R$ 339 milhões no segundo trimestre, com crescimento de 465% nas vendas consolidadas

“A velocidade dos negócios foi o que me surpreendeu, especialmente no caso da Fazenda Boa Vista. Tanto que, para seguir com o desenvolvimento do Complexo (que inclui também o Boa Vista Village), anunciamos na semana passada a compra de um terreno adjacente (de 6,6 milhões de m², por R$ 134 milhões)”, afirmou Oliveira. É bastante provável que esse investimento renda novas e boas surpresas ao executivo. Estudo do Grupo Zap, dono dos portais imobiliários Zap e Viva Real, indicam crescimento de 340% na busca por imóveis no interior de São Paulo desde o início da pandemia, na comparação com o mesmo período do ano passado.

Além da área do Boa Vista, outro foco da companhia é o chamado Parque Catarina, em São Roque, onde ficam mais dois empreendimentos do grupo: o Catarina Fashion Outlet e o São Paulo Catarina Aeroporto Executivo. No local, que está em desenvolvimento, será construído o Catarina Resort. O empreendimento imobiliário híbrido entre hotel e residencial irá atender à demanda do aeroporto e do fluxo de consumidores do Catarina Fashion Outlet, que passa por processo de expansão com a adição de cerca de 130% de área à atual – são 49 mil m² de área construída e 29 mil m² de área bruta locável. O CEO da JHSF citou mais dois planos para a área do Parque Catarina.

“Temos o projeto da Villa XP (a nova sede da corretora financeira XP Investimentos, que negocia a aquisição de uma área de até 500 mil m²) e a intenção de seguir com o desenvolvimento imobiliário de uma cidade sustentável e tecnológica (ainda sem prazo para ser implementado)”, afirmou. Segundo Oliveira, o Valor Geral de Vendas (VGV) do Complexo Boa Vista e do Parque Catarina será de R$ 26 bilhões, sem contar o VGV adicional que virá do terreno adquirido recentemente.

A terceira área de interesse da JHSF fica na capital paulista, no entorno do Shopping Cidade Jardim, onde está em construção o Fasano Cidade Jardim. Na mesma região, a empresa adquiriu um terreno de 34,5 mil m² (por R$ 157 milhões). “A ideia é fazer um projeto multiuso no Real Parque, com mescla de residencial e shopping, a exemplo do que foi realizado no Parque Cidade Jardim. O VGV estimado é de R$ 1,5 bilhão.”

REALIDADE O presidente do Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo (Secovi- SP), Basílio Jafet, acredita que o modelo de empreendimentos lançados pela JHSF no interior – caso, por exemplo, do condomínio Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz – se tornou realidade. No entanto, mesmo com a adoção do trabalho remoto por muitas empresas no pós-pandemia, o executivo afirmou que esses imóveis adquiridos fora da capital não devem se tornar moradias definitivas e, sim, opção de descanso e lazer no fim de semana ou para mais alguns dias. “As pessoas têm de estar em um centro, onde o trabalho existe. Apesar do homeoffice, haverá a necessidade de reuniões presenciais, eventos, networking.”

Jafet disse, ainda, que empreendimentos mesclando áreas comerciais e residenciais – além de hotel e clube, como é o caso do Fasano Cidade Jardim – devem conquistar espaço na capital paulista. “O Conjunto Nacional (inaugurado em 1958, na Avenida Paulista) foi um dos grandes pioneiros neste mix de residência e comércio. Um ícone”, afirmou. “Com esse tipo de empreendimento, você diminui a necessidade de movimentação das pessoas. Estando no escritório ou em casa, basta usar o elevador e ter, por exemplo, um shopping à sua disposição. Esse modelo de incorporação é tendência há alguns anos e tem de ser levado para outros bairros. Não é um privilégio para o segmento de alta renda.”

Com a mesma velocidade com que desenvolve tantos projetos em terra firme, a JHSF também investe de olho no céu. Pouco mais de seis meses após a inauguração do São Paulo Catarina Aeroporto Executivo, a companhia trabalha na expansão dos atuais dois hangares para cinco – estrutura deve estar pronta até o fim deste ano. Dinheiro 26/08/2020 31 A decisão foi motivada pelo aumento de 31,1% no número de pousos e decolagens e de 117,4% na quantidade de combustível abastecido (os números não foram divulgados). Já a receita líquida cresceu 105,3%, de R$ 1,9 milhão para R$ 3,9 milhões. Os dados são comparativos ao primeiro trimestre – espaço foi inaugurado em 16 de dezembro.

O objetivo da organização é de que, em 2023, o aeroporto esteja com uma geração operacional de caixa de R$ 100 milhões por ano. A receita será proveniente de locação das áreas de hangaragem, tarifas aeroportuárias e comercialização de combustíveis. A JHSF solicitou à Agência Nacional de
Aviação Civil (Anac) autorização para voos internacionais. “É um processo que envolve uma série de departamentos, como ministérios e secretarias. Tudo leva a crer que seja concluído neste ano”, disse Oliveira.

PREJUÍZO O entusiasmo demonstrado pelo executivo ao comentar os resultados dos segmentos de incorporação e aviação executiva se transforma em certa frustração ao analisar o desempenho dos setores de renda recorrente (shopping centers e fashion retail) e hospitalidade e gastronomia. Com as operações prejudicadas durante a quarentena, a receita líquida no segundo trimestre despencou na comparação com o mesmo período do ano passado: -74,5% na primeira (de R$ 47,5 milhões para R$ 12,1 milhões) e -88,2% na segunda (de R$ 45,6 milhões para R$ 5,4 milhões), o que, neste último caso, impactou no lucro bruto, que saiu de um resultado positivo de R$ 11,5 milhões para um salto negativo de R$ 9,2 milhões. Já o Ebtida ajustado reverteu de R$ 6 milhões positivos para R$ 12 milhões negativos. “Optamos por não realizar a linearização dos efeitos da Covid-19. Reconhecemos todo o impacto da perda de receita.”

As atividades nos shoppings, hotéis (Grupo Fasano) e restaurantes (como Fasano, Gero, Baretto e Parigi) começaram a ser retomadas gradualmente nos últimos dois meses. Mas Oliveira não acredita em recuperação plena até o fim do ano. “Olhando o curto prazo, ainda existem desafios para todos os negócios. No pós-vacina, acho que a tendência é voltar à normalidade. É fato também que muitas empresas vão colher frutos maiores e outras vão deixar de existir.” Os números em queda não reduziram a voracidade da JHSF em expandir os negócios nos dois segmentos. Em renda recorrente, a empresa avança rumo ao centro financeiro de São Paulo, na Avenida Brigadeiro Faria Lima, onde vai erguer o Faria Lima Shops, comércio de luxo previsto para ser inaugurado em 2023 e similar ao Cidade Jardim Shops, nos Jardins. Já em hospitalidade e gastronomia, a JHSF vai seguir com o modelo asset light (em que a companhia opta por ter a menor quantidade possível de ativos necessários para conduzir as suas operações). “Essa estratégia passa pela abertura de quatro unidades de hotéis já contratadas: Fasano Cidade Jardim (previsto para ser inaugurado em 2022), Fasano Itaim (2021), Fasano Trancoso (este ano) e Fasano Fifth Avenue (já em funcionamento), nos Estados Unidos.”

INTERNACIONALIZAÇÃO A inauguração do Fasano Fifth Avenue, ocorrida em janeiro, em Nova York, é parte do projeto de dar prosseguimento à expansão do grupo além do território nacional, iniciada em 2010, com a abertura do Hotal Fasano Punta Del Este, no Uruguai. O plano atual da JHSF passa ainda pelas cidades de Miami e Los Angeles, também nos Estados Unidos, além de outros quatro importantes centros na Europa: Londres (Inglaterra), Paris (França), Milão (Itália) e Lisboa (Portugal). “Mas ainda não existe uma data definida para a abertura dessas unidades. Nosso foco de curtíssimo prazo está em Nova York, onde vamos abrir também um restaurante (Fasano New York), que teve as obras paralisadas por causa da Covid-19”. A ideia é que entre em funcionamento ainda neste ano ou no início de 2021.

Com os restaurantes e shoppings fechados no segundo trimestre, as unidades da JHSF reforçaram o delivery. O Cidade Jardim Fashion, com mais de 300 marcas no portfólio, apresentou crescimento de 271,5% nas vendas. O serviço CJ Concierge, que leva aos clientes qualquer produto, teve alta de 332,5%. Os pedidos do Delivery Fasano aumentaram 963,6% na comparação com o mesmo período do ano passado. A empresa encerrou o semestre com vendas de R$ 94,9 milhões pelos canais digitais, enquanto que, em todo o ano passado, o montante foi de R$ 53 milhões.

O CEO da JHSF evitou fazer projeções para o terceiro trimestre, mas disse que o desempenho dos segmentos de shopping, restaurante e hotéis tende a ser melhor. Na área de incorporação, tem observado ritmo de comercialização semelhante ao do segundo trimestre. “E a parte do aeroporto depende de como vai ser a retomada de mais voos ou uma manutenção da quantidade de voos que tivemos nos últimos três meses”, disse Oliveira, que revelou tranquilidade financeira para atravessar a pandemia. “Temos R$ 900 milhões em caixa.”

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