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O sabor da história

Quinta geração da família a trabalhar com chocolates, Carolina Neugebauer quer transformar a Cacau Noir em uma rede nacional com 200 lojas — e sonha chegar a Nova York.

Crédito: Claudio Gatti

"Criamos um código de conduta para nossos fornecedores, que precisam adotar as melhores práticas. Em troca, pagamos até 40% acima da média do mercado” Carolina Neugebauer, proprietária da Cacau Noir. (Crédito: Claudio Gatti )

A trajetória da família da empresária Carolina Neugebauer se confunde com a história da produção de chocolates no Brasil. Seu tataravô Ernesto veio da Alemanha no final do século 19 e foi um dos fundadores da Neugebauer, fábrica pioneira no Brasil, em Porto Alegre, no ano de 1903. A marca foi vendida a outra empresa em 1982. No mesmo ano, o avô e o pai de Carolina fundaram a Harald, que também se tornou referência no setor de confeitaria. A empresa foi vendida em 2015. Agora, a empreendedora dá continuidade à tradição familiar à frente da Cacau Noir, marca carioca fundada em 2004 que oferece um portfólio variado de chocolates. Carolina quer acelerar o modelo de franquias e espera atingir a marca de 200 lojas espalhadas pelo Brasil até 2024.

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O objetivo é ambicioso. Hoje, a empresa tem 15 lojas, seis em São Paulo, em shoppings como Morumbi e Cidade Jardim, e nove no Rio, incluindo unidades de rua. A meta é fechar o ano de 2021 com 21. Das cinco novas, três serão franquias. “Queremos abrir 60 lojas por ano a partir de 2022”, disse Carolina, que é sócia majoritária da empresa e está à frente da operação desde 2018. “Com o modelo de franquias, podemos atingir muitas praças importantes”, disse. Além de endereços nas duas cidades em que já atua, a empresária vê oportunidades em Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo e Rio Grande do Sul. A Cacau Noir também passou a oferecer seus produtos em apps de delivery, por causa da pandemia, e está presente nas gôndolas da rede de supermercados St. Marche.

Para abastecer as lojas, a empresa tem uma fábrica em São Paulo. O cacau usado nos chocolates é plantado em uma fazenda própria, em Gandu, no sul da Bahia. Para completar a demanda, a Cacau Noir compra ainda insumos de produtores do Pará. Há uma preocupação em garantir a qualidade da mão de obra. “Criamos um código de conduta para nossos fornecedores. Eles precisam adotar as melhores práticas e entregar cacau fino ou tipo 1, as duas melhores classificações”, afirmou Carolina. “Em troca, pagamos um valor de 30 a 40% maior que a média do mercado.”

Para entender a diferença da produção, é preciso conhecer um pouco do processo de fabricação. Após a colheita, o cacau passa por três etapas até se tornar liquor, a versão líquida da semente que é usada nos chocolates: fermentação, secagem e torra. A fermentação é responsável por garantir aromas e sabores específicos, mas nem sempre o processo é feito com o cuidado necessário, já que leva tempo. São seis dias, em média, dentro de uma bacia de madeira até atingir a temperatura certa. Depois, o cacau passa mais dois dias secando para perder toda a umidade. Por fim, é torrado e enviado às fábricas, onde é usado em receitas que vão de barras a bombons frescos.

SEM CULPA Há ainda um esforço em assegurar melhores condições de trabalho para os fornecedores. “Compramos muito cacau diretamente de famílias de agricultores”, afirmou a empresária. Segundo ela, a remuneração adicional evita que crianças trabalhem na lavoura. A empresa confere a matrícula escolar das crianças todos os anos. “Eu até brinco que o nosso chocolate você pode comer sem culpa. Além de levar pouco açúcar na receita, ainda tem toda essa preocupação social.”

Outro objetivo da Cacau Noir é consolidar a imagem de excelência brasileira na produção de chocolates. “As pessoas falam muito dos belgas e suíços. E realmente eles têm esse reconhecimento por causa do preparo correto, da fermentação, da torra bem-feita. É uma valorização do produto”, disse Carolina. Mas são países que não têm o clima ideal para o cultivo do fruto e precisam comprar a matéria-prima de Gana, Madagascar ou Costa do Marfim. O Brasil já é reconhecido como um produtor de cacau de excelência. Falta mostrar isso ao mundo. A internacionalização, no entanto, ainda está distante. Carolina acredita que há muito espaço para crescer por aqui antes de seguir para outros mercados. “Mas eu sonho em ter uma loja na Quinta Avenida.”