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O risco reluzente

As cotações internacionais do ouro estão em baixa. Porém, um mundo mais arriscado pode fazer isso mudar depressa

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Donald Trump: retórica incendiária inflama o mercado (Crédito: Divulgação)

Coreia do Norte. Fundamentalismo islâmico. Atentados na Europa. Russos espionando americanos. O noticiário internacional hoje lembra muito o dos anos 1970, quando havia riscos vindos de todos os lados. Mas com uma grande diferença: após oito anos de tentativas dos Estados Unidos, presididos por Barack Obama, de buscar soluções pacíficas com seus desafetos ao redor do globo, Donald Trump está pouco disposto a conversas conciliadoras. Isso eleva o risco mundial, o que aumenta o interesse pelo ouro. Prova disso foi o movimento recente na bolsa de mercadorias americana Comex. Na terça-feira 27, em apenas um minuto, foram negociados contratos futuros representando 1,8 milhão de onças-troy (55,8 toneladas) de ouro, com um valor de face de US$ 2,25 bilhões.

Protesto na Coreia do Norte: riscos estão maiores do que no tempo de Barack Obama (Crédito:AFP Photo / Kim Won-Jin)

Num intervalo de 60 segundos, o equivalente a 2% da produção mundial do metal trocou de mãos. “Esse tipo de movimento é raro, típico de momentos de crise, o que não é o caso”, avalia o analista americano Patrick Montez, especialista em ouro. “Isso indica um aumento da procura pelo metal.” A aposta do mercado é que os compradores foram fundos de hedge. Seus gestores anteciparam-se a um crescimento da demanda, que pode ocorrer a qualquer momento. Quando os riscos aumentam e há menos confiança nos ativos financeiros, o ouro é uma alternativa clássica de proteção. Não depende de governos e sempre encontra compradores. E esse movimento abre espaço para um pouquinho de especulação.

Os riscos políticos não são o único fator a aumentar o apetite pelo metal dourado. O excesso de dinheiro no mercado também alimenta a alta dos preços. Ao longo dos últimos três anos, os presidentes dos principais bancos centrais vêm prometendo encerrar os estímulos econômicos. Isso implica em enxugar os trilhões de dólares que vêm sendo injetados na economia, desde 2009, para mitigar os efeitos da crise provocada pelo subprime. Essa inundação de recursos impediu os bancos de quebrar após a crise imobiliária americana. Graças ao nível baixo de atividade econômica, as medidas de estímulo não provocaram uma pressão forte sobre a inflação. Porém, esse tsunami de dinheiro distorceu os preços dos ativos financeiros. Desde o fim da crise, os índices de ações dos Estados Unidos vêm enfileirando recorde atrás de recorde.

Mário Draghi, do Banco Central Europeu: retirar estímulos, só quando houver confiança (Crédito:AFP Photo / Daniel Roland)

Os preços do ouro também subiram. Em setembro de 2007, um ano antes da quebra do banco de investimento Lehman Brothers, a onça-troy (31,1 gramas) era negociada em Nova York a US$ 753. Na quarta-feira 28, ela fechou a US$ 1.249, patamar em que vem se mantendo desde a eleição de Donald Trump (observe o gráfico abaixo). Enquanto durarem os estímulos econômicos, haverá menos espaço para quedas sustentadas nas cotações do metal. E o fim deles não está à vista. Na segunda-feira 26, Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), disse, durante um evento em Portugal, que o BCE está avaliando cuidadosamente o fim desses programas.

Mesmo assim, na linguagem neutra dos banqueiros centrais, Draghi deixou claro que vai demorar. “No contexto atual, em que as incertezas mundiais permanecem elevadas, há fortes razões para a prudência no ajuste da política monetária, mesmo quando nota-se uma recuperação da economia”, disse ele. Para os especialistas americanos, a conjunção entre juros baixos, dinheiro abundante e um cenário internacional mais arriscado pode abrir boas oportunidades de especular com o metal. Uma deterioração do cenário político nos próximos meses deve elevar ainda mais os preços do metal. Como investir? O caminho mais simples é comprar o ouro diretamente, por meio de corretoras, no pregão da B3. Na quarta-feira 28, o grama do ouro encerrou a R$ 131,50.

No ano, a alta acumulada é de 10,7%, após uma baixa de 12,3% no ano passado. O investimento mínimo são dez gramas, ou R$ 1.315,00. Além da taxa de corretagem, em geral de 0,5% sobre o total negociado, será preciso pagar uma taxa de custódia que pode chegar a 0,8% do valor investido. O ouro é negociado como o dólar: há uma cotação de compra e uma de venda, com um intervalo entre elas. É preciso estar atento aos riscos. Dentre os ativos financeiros, o ouro é um dos mais voláteis. Reflete imediatamente qualquer mudança de humor no mercado internacional, e pode ter seus preços alterados por algo inesperado e não econômico, como um atentado em uma capital europeia, por exemplo. Mesmo assim, em tempos de Trump e sua retórica incendiária, pode ser uma boa ideia procurar um pouco da segurança reluzente.