Economia

O risco Palocci

Condenação de ex-ministro petista na Lava Jato aumenta chances de delação, gerando apreensão no mercado financeiro e em Lula

Crédito: Wilson Pedrosa

Na mira: Apelidado de italiano pela Odebrecht, ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil, Antonio Palocci, foi sentenciado a 12 anos de cadeia por corrupção (Crédito: Wilson Pedrosa)

Numa mensagem cifrada, o ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci, 56, sugeriu em seu depoimento ao juiz Sérgio Moro, em meados de abril, ter informações que renderiam um ano de trabalho às autoridades da Lava Jato. O petista estava preso em Curitiba há cinco meses e buscava fechar uma possível delação premiada, com potencial de alcançar não apenas o alto escalão do partido, como bancos e grandes empresas. A provocação do depoente foi respondida por Moro na segunda-feira 24, na sentença que condenou o réu a pouco mais de 12 anos de prisão. Pode ser o incentivo que faltava para fazê-lo cumprir sua palavra, possibilidade que gera apreensão em banqueiros, executivos de alto escalão e até mesmo entre os investigadores. Os rumores sugerem segredos tão profundos que poderiam causar distúrbios no sistema financeiro.

Apelidado de italiano, Palocci foi responsabilizado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Ele é acusado de participar de um esquema envolvendo a Odebrecht e contratos de sondas com a Petrobras, cujos recursos ajudaram a fraudar a eleição de Dilma em 2010. No mesmo processo, foram condenadas outras 12 pessoas, como Marcelo Odebrecht, e o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. Responsável por garantir a estabilidade econômica na era Lula, o médico começou a sua carreira como vereador de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, em 1988, e em 2001 foi convocado para coordenar a campanha presidencial de Lula, de onde seguiu para a Fazenda.

Foi lá que ganhou a confiança do mercado financeiro, ao manter as bases da política econômica da gestão anterior. Sua imagem começou a ser arranhada em 2006, quando foi acusado de ir a reuniões com lobistas numa mansão em Brasília, como relatou o caseiro, Francenildo Costa, que teve seu sigilo bancário quebrado pela Caixa Econômica Federal após ordem do então ministro. Em 2009, depois de ser absolvido, ele foi escalado para coordenar a campanha de Dilma Rousseff. Virou ministro-chefe da Casa Civil, mas sucumbiu após denúnicas indicarem que, entre 2006 e 2010, seu patrimônio havia crescido 20 vezes. A chance de Palocci delatar foi até mesmo associada à aprovação acelerada de um pleito antigo do Banco Central: a possibilidade de a instituição poder fazer investigações e fechar acordos de leniência com instituições financeiras.

A Medida Provisória (MP) tratando do tema foi editada no dia 8. Até agora, a perspectiva de delação parecia estar longe. Na divulgação da sentença, o juiz Moro disse que a intenção de Palocci de ajudar é um blefe e sua verdadeira intenção é ameaçar terceiros. E entre especialistas há dúvidas se uma eventual proposta seria aceita, por envolver fatos que vão além do esquema do petrolão. “Uma delação tem de envolver os co-autores de um crime”, diz Alexis Brito, professor de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Ela não serve para qualquer crime praticado.” Nesse perfil, o que Palocci pode oferecer são informações sobre Lula, que aguarda parecer de Moro sobre o caso do Triplex em Guarujá e é réu em outras duas ações da Lava Jato.