Negócios

O retorno do Fleury

Depois de cinco anos ajustando a casa e melhorando a rentabilidade, o segundo maior grupo de exames diagnósticos do Brasil retoma as aquisições e os aportes na expansão da sua rede

Crédito: Karime Xavier/Folhapress

Rentável: o discreto CEO, Carlos Marinelli, priorizou, nos últimos anos, o aumento da margem de lucro (Crédito: Karime Xavier/Folhapress)

Para uma empresa de capital aberto, o Fleury esteve bastante fechado nos últimos tempos. Segundo maior grupo de exames diagnósticos do Brasil, com uma receita de R$ 2,4 bilhões, a companhia foi uma das consolidadoras do setor no começo desta década, ao lado do Dasa, dono da marca Delboni Auriemo e seu maior concorrente. Mas, nos últimos cinco anos, o Fleury virou notícia pelas negociações de suas ações, após o interesse do grupo de médicos controladores em vender as suas participações. Para assessorá-los nesse objetivo, eles contrataram, em 2013, o JP Morgan. Mas não houve negócio. Apenas um aporte do fundo Advent, que comprou 13% de participação, em setembro de 2015, quando a fatia era avaliada em R$ 350 milhões. Dois anos depois, o private equity vendeu essa posição, por R$ 1,3 bilhão, aproveitando o melhor momento da empresa na bolsa de valores, e a chance de utilizar os recursos para investir no setor educacional, por meio da Estácio.

A imensa valorização do Fleury tem relação com o trabalho de Carlos Marinelli, nomeado CEO no segundo semestre de 2014. Um executivo de perfil discreto e que é bem visto pelo mercado. Entre julho e setembro de 2015, quando o Advent comprou a sua participação, até o primeiro trimestre deste ano, a margem Ebitda subiu de 20,6% para 28,5%. Nesse período, enquanto a nova gestão trabalhava internamente nas melhorias de margens, por meio de aprimoramento de processos e ganhos de eficiência no atendimento aos clientes, a empresa deixou de fazer anúncios de impacto. Mesmo o lançamento de uma plataforma de genômica, em novembro de 2017, uma grande aposta da companhia e uma importante inovação no mercado brasileiro, não chegou a merecer um comunicado oficial.

Por meio dela, o grupo pretende se comunicar com clientes e médicos, e divulgar conhecimento sobre exames genéticos. Ela ainda servirá para vender online esses exames e serviços de assessoria médica personalizada para a investigação de diagnósticos mais complexos. “A inovação em medicina diagnóstica ajuda médicos a salvar vidas e são recursos tão necessários a um sistema que encara desafios como o envelhecimento populacional e o desenvolvimento crescente de opções terapêuticas”, diz Marinelli. “Seguimos investindo no desenvolvimento de produtos e serviços no segmento de genômica de forma a consolidar nosso posicionamento e confirmar a vanguarda do grupo na medicina personalizada e de precisão.”

Inovação: segundo Jeane Tsutsui, diretora da marca Fleury, 100 novos exames são apresentados por ano (Crédito:Gabriel Reis)

Apesar desse desejo por discrição, a companhia está voltando gradualmente aos holofotes. Desde setembro de 2017, o Fleury já anunciou a compra do laboratório Serdil, de Porto Alegre, e do Instituto de Radiologia de Natal, por R$ 29,8 milhões e R$ 90,5 milhões, respectivamente. A empresa também traçou um plano de ampliar a sua rede em 70 unidades, até 2021, aumentando em até 60% a base de atendimento. Apenas no último ano, foram abertas 30 delas, contabilizando 169 unidades de suas seis bandeiras. As mais conhecidas são a Fleury, que deu origem ao grupo e está voltada à classe alta de São Paulo e de Brasília, e a a+ (em letra minúscula), de alcance nacional, com foco na classe média e que concorre mais diretamente com o Delboni. “Com a abertura de duas grandes unidades no ano passado, completamos o posicionamento do Fleury, mas na a+ há muitas oportunidades”, diz a médica Jeane Tsutsui, diretora executiva da marca Fleury e que passou a ser a principal porta-voz do grupo na comunicação de inovações e de estratégias para o mercado.

Os investimentos em expansão e inovações ultrapassaram os R$ 295 milhões em 2017. E devem se manter nesse nível, à medida que o plano de abrir mais unidades e comprar empresas avança. “O desafio para crescer nesse setor é conseguir registrar os pagadores, que são os planos e seguradoras de saúde, para que passem a aceitar as novas unidades. Eles costumam pensar que, com mais opções próximas das pessoas, vai aumentar o número de pedidos de exames”, diz Thiago Macruz, analista de investimentos do Itaú BBA. “Mas o Fleury defende que vai ganhar participação de mercado, não ampliar os gastos dos planos. E também tem apresentado uma maturação mais rápida do que o esperado para as suas novas unidades a+.”

No plano do Fleury, o ganho de receita deve vir desse aumento de participação e de novos exames que estão sendo lançados, cada vez mais sofisticados. “Estamos apresentando mais de 100 novos produtos ou alterações de diagnósticos, por ano”, diz Jeane. “Temos uma estratégia clara de que o que estamos construindo hoje será o que precisamos para o futuro.” A plataforma de genética e o uso do Watson, plataforma de computação cognitiva da IBM, para a área de oncologia, são apenas os mais vistosos. Esse último é capaz de avaliar alterações existentes em 366 genes, ao custo de R$ 8 mil. Mas há uma série de outras novidades, muitas delas inéditas no País, como a impressão 3D de órgãos e partes do corpo em gesso ou acrílico, que permitem aos cirurgiões visualizarem melhor, por exemplo, tumores em ossos. Com tudo isso, parece que o período de discrição do Fleury nos últimos anos está encerrado.