Estilo

O renascimento de Bariloche

Com investimentos de US$ 32 milhões até 2025, Via Bariloche aposta na modernização de estações de esqui para atrair mais esquiadores brasileiros.

Crédito: Divulgação

A simples menção ao nome “Bariloche” desperta a memória afetiva de milhares de brasileiros. Localizada na região da Patagônia, próxima à Cordilheira dos Andes, a pequena cidade argentina é o lugar onde muitas gerações de turistas nascidos no Brasil viram neve pela primeira vez. Apesar de a procura por outros destinos de inverno da América do Sul ser crescente, Bariloche ainda é a campeã: a temporada 2019 recebeu mais de 60 mil brasileiros. Os maiores atrativos são a paisagem e, naturalmente, sua principal estação de esqui, Cerro Catedral. Com 53 pistas espalhadas pela montanha, é o maior complexo de esportes de neve da América do Sul.

Em dezembro de 2011, a companhia Catedral Alta Patagônia, que tem a concessão para operar a estação, mudou de mãos: foi comprada pelo Via Bariloche, um dos maiores grupos empresarias da Argentina. “Nosso objetivo é modernizar Cerro Catedral e transformá-la em uma estação de esqui do mesmo nível dos complexos de esportes de neve europeus”, afirma o CEO de Cerro Catedral, Marco Trappa. A estratégia faz sentido. Bariloche, que perdeu espaço para outras estações no Chile e na própria Argentina, como Chapelco e Las Leñas, acabou se tornando um destino de inverno para famílias e turistas mais preocupados em tirar fotos com a neve do que em esquiar. Os atuais concessionários querem mudar esse posicionamento. “O foco é trazer de volta os esquiadores”, afirma Trappa. “Nosso investimento será 100% feito na infraestrutura da estação de esqui”. Ele acredita que vai atrair outros empresários locais e até mesmo estrangeiros para investir na melhoria dos serviços e rede hoteleira na região. “Empreendedores brasileiros são muito bem-vindos.”

“Nosso objetivo é modernizar Cerro Catedral e transformá-la em uma estação de esqui do mesmo nível dos complexos de esportes de neve europeus” Marco Trappa, CEO de Cerro Catedra. (Crédito:Divulgação)

NEVE ARTIFICIAL Segundo Trappa, o grupo já investiu em Bariloche US$ 10 milhões, desde 2011, e planeja chegar a US$ 32 milhões, até 2025. Além da troca de todo o sistema de elevação — os ski lifts, cadeirinhas e bondinhos que levam os esquiadores ao topo da montanha —, serão compradas 50 máquinas de neve artificial Tecno Alpine, mesma marca que fornece equipamentos para estações europeias. De acordo com Trappa, Cerro Catedral passará a ter neve durante toda a temporada e em 100% da área esquiável da montanha, do topo até a base.

Neve garantida é uma das condições básicas para que Bariloche volte a atrair os praticantes de esportes de inverno, não apenas os turistas interessados em ver neve. São públicos bastante diferentes, mais ou menos como ocorre em um destino de praia voltado para a prática do surfe e outro para famílias que só querem sol, mar e areia.Fundada no fim do século 19 por um imigrante alemão, a cidade de San Carlos de Bariloche se tornou um dos principais destinos turísticos da Argentina, graças às belezas naturais e ao charme da arquitetura europeia. Localizada no belo Parque Nacional Nahuel Huapi, Bariloche sempre enfrentou o mesmo problema das outras estações na América do Sul: a quantidade de neve no inverno.

O empresário e esquiador José Álvaro Pereira Leite, que esteve em Bariloche uma única vez, nos anos 1990, lembra que só havia neve no pico da montanha. “É um lugar lindo, mas não posso correr o risco de agendar a viagem e não ter neve”, diz. Frequentador de estações como Jackson Hole, nos Estados Unidos, e St. Moritz, na Suíça, ele afirma que o projeto de modernização pode atraí-lo de volta. “A paisagem é muito bonita e, com neve garantida, volta a ser um destino atraente para quem gosta de esquiar. Será bom também para levar os filhos, já que é mais perto e bem mais barato do que as estações americanas ou europeias.”

Eduardo Gaz, diretor da SkiBrasil, maior operadora de viagem com foco em destinos de neve na América Latina, também está otimista. “Acredito no potencial de Bariloche e no reposicionamento. Com investimentos não apenas em infraestrutura, mas também em serviços, a região pode se tornar um dos melhores destinos de neve do mundo. Belezas naturais para isso não faltam”, afirma Gaz.

PAISAGEM: Os picos nevados da Cordilheira dos Andes fazem Bariloche atrair também quem não quer esquiar. (Crédito:Divulgação)

Se a grave epidemia do coronavírus estiver controlada até lá, a temporada de esqui em Bariloche começa em 1 de julho e vai até 15 de outubro. Apesar da maioria dos visitantes na estação serem argentinos (cerca de 90% do total), as melhorias em Cerro Catedral têm como objetivo aumentar o número de turistas estrangeiros. Além dos 60 mil brasileiros, Bariloche recebeu em 2019 cerca de 30 mil europeus, entre italianos, alemães e franceses. Para atrair os brasileiros à nova fase de Cerro Catedral, a companhia montou uma operação no País, com a contratação da diretora comercial Bianca Zuanella. “Criamos passes exclusivos para os brasileiros. Eles permitem a entrada na estação 40 minutos antes da sua abertura, acesso ao Lounge VIP na base da montanha e monitores gratuitos para crianças até 8 anos”, explica Bianca.

VOOS DIRETOS Se o coronavírus permitir, quatro companhias aéreas terão voos diretos e diários de São Paulo para Bariloche no inverno deste ano: Latam, Gol, Aerolíneas Argentinas e Azul – esta saindo do aeroporto de Viracopos, em Campinas. Devido à duração do voo (4h30), o viajante chega a Bariloche ainda pela manhã. “É a única estação onde o esquiador pode viajar do Brasil e esquiar assim que chegar, sem perder um dia da viagem”, diz Bianca. É mais um atrativo para os brasileiros amantes dos esportes de neve.

Dos ônibus aos esquis

Divulgação

Fundado em meados dos anos 1970, pelos irmãos Rolando e Roberto Trappa, o grupo Via Bariloche tem 3 mil funcionários e faturou US$ 150 milhões em 2019. Reúne uma empresa de ônibus (Via Bariloche), transporte de carga (Via Cargo) e até uma pequena companhia aérea (SAPSA – Serviços Aéreos Patagônicos), que realiza voos charter em aeronaves executivas. Apesar da diversidade, o grupo é conhecido mesmo pelo transporte de passageiros em ônibus. Orgulham-se, por exemplo, de serem responsáveis pelo transporte dos maiores rivais do futebol argentino, o River Plate e o Boca Junior.

No ano passado, o grupo também adquiriu o controle da pequena estação de esqui La Hoya (foto), no estado de Chubut, a 300 quilômetros de Bariloche, e pretende investir US$ 5 milhões até 2024. O transporte entre uma estação e outra será feito pela companhia do próprio grupo – “uma rota inesquecível”, segundo Trappa. Segundo ele, a decisão de investir em estações de esqui veio do desejo de expandir os negócios mantendo o foco no turismo na região da Patagônia. “Fazer essa integração entre áreas diferentes dentro do setor de serviços é uma expertise do grupo”, afirma o CEO.