Edição nº 1108 15.02 Ver ediçõs anteriores

O refugo do mercado

O refugo do mercado

Nem tudo são flores na lua de mel do mercado com o presidenciável de ultradireita Jair Bolsonaro. A fala dele, dias atrás, avisando que, se eleito, não venderia o “miolo” da Eletrobras nem da Petrobras caiu como uma ducha de água fria nas aspirações privatistas dos que professam pela cartilha da livre iniciativa. Bolsonaro queixou-se dos chineses, que estariam na sua avaliação comprando muitas empresas de energia brasileiras, e ainda gerou ruído ao manifestar desejo de rever alguns pontos da agenda liberal trabalhada pelo seu “Posto Ipiranga”, o economista Paulo Guedes, que deve assumir o ministério da economia em um eventual futuro governo. Não pegou bem e a praça revidou com recuo nas apostas.

Lá fora, os humores sobre as posições ora vacilantes de Bolsonaro também oscilam devido, principalmente, o desconhecimento que a figura representa. Muitos se deixam levar pela imagem de um candidato com viés radical e fascista, que pode representar um retrocesso por aqui. Tanto é assim que o investimento direto no País, diante das eleições (agora na reta final) caiu cerca de 22% nos últimos tempos. O Brasil figurou no ranking como o emergente que mais perdeu no fluxo de capitais estrangeiros. E a rota de queda continua acelerada. Já no primeiro semestre, os números consolidados – que foram de US$ 25,5 bilhões contra os US$ 32,4 bilhões do mesmo período do ano anterior – levou o Brasil a cair da sexta para a nona posição entre as nações que mais receberam dinheiro de fora.

A queda é corroborada por presidentes de multinacionais aqui presentes que dizem estar sendo muito difícil convencer as respectivas matrizes a colocar recursos aqui nesse momento de incerteza. Setores como o da indústria automobilística, formados fundamentalmente por empresas estrangeiras que instalaram fábricas locais, estão penando mais. O presidente da alemã Mercedes, por exemplo, disse ao jornal Estadão que o fato do segundo turno estar sendo disputado por dois candidatos considerados extremos é um fator que provoca insegurança no board da companhia. Falou em temor sobre os ciclos futuros de investimenwto a longo prazo. É fato que analistas já falam abertamente em uma desaceleração da atividade automobilística para 2019. O fator expectativas vai contar muito.

Bolsonaro ainda suscita dúvidas sobre o que fará no campo tributário. A fala recente do assessor econômico sobre o resgate da CPMF – depois desmentida pelo próprio capitão reformado – trouxe insegurança adicional. Reformas são aguardadas e se não forem executadas logo na saída pelo futuro mandatário poderão provocar ondas crescentes de resistência. Capacidade de negociação com o Congresso, flexibilidade na área do crédito e juros. São todas precondições de suporte empresarial que postulantes como Bolsonaro terão de exibir para evitar qualquer ruído na relação logo no início.

(Nota publicada na Edição 1092 da Revista Dinheiro)


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