Edição nº 1112 15.03 Ver ediçõs anteriores

O que esperar do encontro Trump/ Bolsonaro

Bolsonaro parte para o encontro sob um vendaval de críticas por ter descartado o plano de uma comitiva mais técnica e empresarial, que poderia trazer negócios promissores ao País depois de longa e custosa temporada de distanciamento do parceiro norte-americano

O que esperar do encontro Trump/ Bolsonaro

Finalmente, depois da troca de afagos mútuos, da admiração incontida do presidente brasileiro por seu colega dos EUA (quase um alter ego para explicar os rompantes que dá), eles estarão frente a frente na próxima semana. Trump e Bolsonaro, juntos, já foram capazes de sacudir as entranhas da política com seus estilos de gestão heterodoxos — de mais a mais, bem parecidos entre si. Ambos incorporaram as redes sociais como ferramenta para governar. Chocaram o mundo com esquisitices em série e parecem agora prontos para dividirem impressões e propostas de como enfrentar os problemas (que imaginam) de interesse comum.

Bolsonaro parte para o encontro sob um vendaval de críticas por ter descartado o plano de uma comitiva mais técnica e empresarial, que poderia trazer negócios promissores ao País depois de longa e custosa temporada de distanciamento do parceiro norte-americano. As queixas nesse sentido vieram dos próprios empresários simpatizantes que se sentiram desprestigiados. Bolsonaro, por sua vez, entende que essa primeira audiência conjunta – espera que várias outras se sigam – servirá apenas e tão somente para afinar intenções. De todo modo, estarão no cardápio das conversas alguns acordos setoriais decisivos que, se evoluírem, trarão benefícios gerais. Entre eles, o pacto de salvaguardas tecnológicas que, na prática, podem ser diminuídas para facilitar o fluxo de comércio entre os dois países.

Outro ponto provavelmente em discussão será o das facilidades no plano das exportações e importações em larga escala. Não está ainda detalhado em que termos esse benefício ocorrerá, mas ele foi incluído na pauta das conversas. É sabido que, tanto no Brasil como nos EUA, as empresas são cadastradas para que assim possam diminuir as burocracias exigidas no fluxo de operações de suas mercadorias. Nos EUA, o cadastro recebe o nome de batismo de “Trusted Traders”, ou algo como negociadores confiáveis. O grande pulo do gato para comerciantes é ser incluído nessa, digamos, lista VIP. O que quer o Brasil, segundo assessores de Bolsonaro, é um acordo que vise o reconhecimento recíproco entre as duas economias das empresas cadastradas em seus respectivos sistemas.

Seria um passo firme na direção de se estabelecer uma aliança de livre comércio — meta, por enquanto, empurrada para o longo prazo. Um bloco de mercado comum, incluindo Brasil e EUA, necessariamente esbarra no Mercosul, que tem regras rígidas para o acerto de acordos paralelos independentes. Negociar uma exceção demandará ainda exaustiva diplomacia. O objetivo fim, de todo modo, não está descartado por nenhum dos auxiliares do governo Bolsonaro envolvidos com o tema. De uma maneira ou de outra, a conversa entre os dois chefes de Estado, marcada para a segunda-feira 18, representará uma guinada decisiva de relações que estiveram mornas nos últimos anos.

(Nota publicada na Edição 1112 da Revista Dinheiro)


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