O pregão físico da Bolsa de Nova York está de volta

O pregão físico da Bolsa de Nova York está de volta

No último dia 23 de março, com o avanço da pandemia, a direção da Bolsa de Valores de Nova York decidiu fechar a sala de pregão e conduzir as operações diárias de maneira completamente eletrônica. Pela primeira vez, em mais de 200 anos de existência, o pregão físico da bolsa fechou com o mercado acionário aberto.

Pregões completamente eletrônicos não são uma novidade: a Nasdaq opera assim desde 1998, e a antiga Bovespa deixou de ter pregão físico em 2005. Ao executar seu plano de contingência durante os últimos dois meses, a NYSE provou que também pode operar de maneira totalmente eletrônica, sem prejuízo ao bom funcionamento dos mercados.

Pregões físicos na bolsa têm como característica a interação contínua e, por vezes, bastante eloquente de operadores trocando preços, informações e pontos de vista durante o dia. Segundo Stacey Cunningham, presidente da NYSE, “o pregão físico proporciona valor sem igual a emissores e investidores”. Entretanto, se os mercados funcionaram perfeitamente bem com o pregão físico fechado, que valor é esse?

Alguns formadores de opinião acreditam que a presença de operadores atuando diretamente no mercado reduz a volatilidade dos ativos. De acordo com esse argumento, máquinas não são capazes de perceber se alguma ordem entrou errada ou em desajuste, em volume ou preço, com o que está sendo negociado no mercado em um momento específico. Somente um operador experiente perceberia que uma ordem de compra ou venda de 10 mil ações em um mercado que negocia somente 10 pode mexer abruptamente com o preço daquele ativo, criando uma volatilidade desnecessária. Ele, então, ajustaria o tamanho da ordem e regularia o funcionamento daquele mercado sem criar descontinuidades.

Outro argumento em favor dos pregões físicos é relacionado com a emissão de novas ações por companhias no mercado, os chamados IPOs. Toda emissão de ações passa por um processo bastante amplo de registro regulatório e dimensionamento da oferta em relação à demanda, com intervalos de preços indicativos. Essa demanda, entretanto, pode variar de maneira significativa até a efetiva negociação das novas ações, o que torna a abertura dos negócios de um determinado ativo na Bolsa uma combinação entre ciência e arte. Somente um operador, no ambiente físico de pregão, teria a sensibilidade para assimilar essas flutuações de maneira contínua e gerenciar o processo a fim de determinar o preço correto de abertura, aquele que melhor combina oferta e demanda e reduz volatilidade.

Esse debate, na minha opinião, remete a uma discussão mais ampla: um computador pode, inteiramente, substituir a capacidade cognitiva de um ser humano? Ao final, os argumentos favoráveis aos pregões físicos se resumem a exaltar a capacidade que um operador tem de “ler o ambiente”. Perceber, por comentários, opiniões, conversas e até pelo tom de voz das contrapartes o que está realmente acontecendo no momento de cada negociação, e a partir daí identificar tendências. Apesar das diferenças, o mesmo argumento poderia ser feito em favor das mesas de operação de bancos e corretoras: vários operadores atuando em diferentes mercados, todos reunidos no mesmo ambiente, atuam melhor do que se estivessem separados em salas diferentes e escondidos atrás de seus computadores.

Tendo trabalhado a maior parte da minha carreira em mesas de operações, consigo ver suas vantagens e desvantagens. A vantagem é que, de fato, o ambiente nos força a trabalhar a capacidade cognitiva o tempo todo: o operador é obrigado a se envolver em tudo o que está acontecendo na sala, e a ouvir todos os comentários, opiniões e discussões em todos os momentos. Isso é o que cria a capacidade de “ler o ambiente” – algo que distingue os operadores mais experientes e que realmente gera valor. A desvantagem é que a maioria fica, ao longo do tempo, um pouco mais surdo a cada dia – isso aconteceu comigo.

Concordo que um computador nunca irá substituir completamente a capacidade de julgamento de um operador experiente. A economia é uma ciência humana, e o mercado acionário nada mais é do que um mecanismo de antecipação dos agentes da economia. Por outro lado, os algoritmos estão muito melhores e conseguem absorver, cada vez mais, uma quantidade maior de dados e informações. Eles não terão a capacidade de “ler o ambiente”, mas vão chegar às mesmas conclusões por outros caminhos, e mais rapidamente.

Os pregões físicos parecem ser, realmente, coisa do passado. A Covid-19 impôs essa realidade inclusive para a NYSE, que considera sua sala de negociações um dos seus maiores diferenciais competitivos.

Na minha visão, o diferencial é outro. O pregão físico da NYSE não é somente um retrato da cidade de Nova York e dos nova-iorquinos, mas um símbolo de resiliência. Uma homenagem à sociedade e ao capitalismo. Sua reabertura, no último dia 26 de maio, foi muito mais do que o começo de um dia de trabalho. O sino foi tocado por Andrew Cuomo, governador de Nova York, paramentado com uma máscara como mandam os tempos de hoje. A imagem valeu por mil palavras: o vírus nos surpreendeu, nos assustou, nos tirou vidas e mudou nosso comportamento, mas não nos derrubou. Estamos de volta. O verdadeiro valor do pregão físico da NYSE não é a redução da volatilidade, mas o símbolo que ele representa. Tomara que dure mais 200 anos.

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Sobre o autor

Norberto Zaiet é economista formado pela Universidade de São Paulo e com MBA pela Columbia Business School, em Nova York. Depois de passagens como executivo pelo banco alemão WestLB e pelo português Banco Espírito Santo de Investimento (BESI), Zaiet foi CEO do Banco Pine. Hoje vive em Nova York, onde é sócio-fundador da gestora de investimentos Picea Value Investors. Com foco no conceito de Value Investing, a Picea Value Investors nasceu em 2019 com alcance global e atuação principal no mercado de ações norte-americano. Mais informações em www.piceavalue.com


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