Negócios

O preço da violência

Após uma série de roubos no Rio de Janeiro, Carrefour pode reduzir aportes no estado

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Sem proteção: câmera flagra o terceiro assalto ao CD no Rio só neste ano (Crédito: Divulgação)

Nos últimos anos, o grupo francês Carrefour ocupou um espaço entre as primeiras colocações no ranking de investimento de multinacionais no mercado brasileiro. Somente em 2019, a varejista anunciou mais de R$ 2 bilhões para abertura de novas unidades. Parte dessa estratégia, no entanto, pode estar comprometida — não pelas dificuldades da economia, mas por conta da criminalidade que tomou o estado do Rio de Janeiro. “Se o governo não resolver essa questão da segurança, vamos ter que parar com os investimentos”, afirmou um executivo da companhia em entrevista ao jornal O Globo.

O estopim do problema ocorreu em 19 de julho, quando cerca de 40 homens encapuzados invadiram o centro de distribuição (CD) da rede em Duque de Caxias. Segundo a Polícia Militar, 24 funcionários que trabalhavam na unidade desde a madrugada foram rendidos e tiveram pertences como celulares e dinheiro levados. Os criminosos não se apavoraram com as câmeras da central de monitoramento e demonstraram completo conhecimento da rotina do local. Usaram empilhadeiras do próprio CD para amontoar caixas de televisores, de bebidas e de outros produtos em dezenas de carros e caminhões. Foi a terceira vez que a central, localizada entre as comunidades Favela Beira-Mar e o Parque das Missões, foi atacada em um curto período de seis meses. O prejuízo somado chega a R$ 2,5 milhões. Diante da situação, o Carrefour decidiu encerrar as atividades em período noturno no local. “Foi uma medida de segurança para reduzir a exposição de nossos funcionários nesse turno”, afirma Stéphane Engelhard, vice-presidente de assuntos institucionais do Carrefour Brasil.

A crise de segurança pública vivida no Rio de Janeiro pode fazer com que o Carrefour reveja seus planos de expansão. Hoje, o Rio é visto como mercado estratégico para a multinacional francesa. São 23 unidades de negócios, incluindo os centros de distribuição na região. A projeção do grupo era aportar R$ 500 milhões para a expansão na região até 2021. Quatro unidades estão previstas para o mercado fluminense. “Os planos de investimento seguem na previsão da companhia. Porém, podemos realizar ajustes futuros em nossa operação logística para suportar o crescimento previsto por nós”, acrescentou Engelhard. Com o encerramento das atividades em período noturno, o fluxo de abastecimento das lojas no estado está sendo mantido a partir de mercadorias enviadas pelos centros de distribuição da companhia em São Paulo.

Segundo números da Câmara de Dirigentes Lojistas do Rio de Janeiro (CDLRio), o comércio varejista no estado teve de investir R$ 1,853 bilhão em segurança para combater furtos em 2018. O perigo das ruas, inclusive, é um dos principais fatores para que as empresas estejam preconizando aberturas em shopping centers. “A principal iniciativa do varejo tem sido o investimento em câmeras de segurança e centrais de monitoramento”, diz Carlos Monjardim, presidente da CDLRio. Por meio de parcerias com a iniciativa privada e a Polícia Militar, a entidade participa de projetos como o “Segurança Presente”, que usa bases militares para monitorar o varejo, e o programa “Retorno a Terra Natal”, de apoio a moradores de rua.

Para Eduardo Terra, presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), uma alternativa para o setor driblar a violência é trabalhar com parceiros locais. “O problema não está nas lojas, está na armazenagem. Como é um problema local, que acontece em algumas regiões específicas, a empresa têm de procurar parceiros que já conhecem a dinâmica da região e conseguem prestar o serviço com um menor custo”, comenta. Difícil é trabalhar em meio a esse fogo cruzado.