Economia

O pôquer interminável de Guedes

Com pouca capacidade de articulação e sem espaço para decisões importantes, ministro da Economia promove nova mudança na pasta, abre diálogo com o centrão e se segura no cargo.

Crédito: Evandro Rodrigues

PRONTO PARA JOGAR Cortando na própria carne, ministro da economia quer tentar se aproximar da ala política oferecendo cargos sem precisar recriar cargos ou ministérios. (Crédito: Evandro Rodrigues)

Mudanças constantes em qualquer time dificilmente são bons presságios, e as entradas, saídas e realocações dentro da equipe econômica comandadas pelo ministro Paulo Guedes comprovam que as coisas vão de mal a pior. Na terça-feira (27) ele anunciou que quatro importantes alterações no quadro de secretários e assessores vão acontecer, notícia que seria normal se esta não fosse a quarta minirreforma em menos de 30 meses e se ela não significasse que, desde o anúncio de sua equipe, em fevereiro de 2019, Guedes não tivesse perdido sete dos oito secretários que escolheu para domar a economia brasileira. No geral, dos 30 técnicos admitidos em janeiro de 2019, só nove seguem em seus cargos. Com essa jogada, o ministro corta na própria carne para dar espaço ao Centrão e dá outra cartada para uma aproximação efetiva com a ala política sem recriar cargos ou ministérios.

Na mais recente faxina no ministério foram quatro mudanças anunciadas e outras duas estão em fase de confirmação. A mais importante delas foi a saída de Waldery Rodrigues, da Secretaria Especial de Fazenda. Em seu lugar assume o atual secretário do Tesouro Nacional, Bruno Funchal. Na dança das cadeiras, Jefferson Bittencourt, servidor da pasta, assume o lugar de Funchal. Saem também Vanessa Canado, assessora especial para reforma tributária e o secretário de Orçamento, George Soares.

Para o analista político e consultor MDB no Senado, Reinaldo Feijó, as mudanças marcam um novo momento de Guedes. “Houve um desgaste muito forte pelo Orçamento e Guedes precisou fazer escolhas difíceis”, disse. Dentro do ministério, a saída de Waldery foi lamentada. “Ele era um dos poucos liberais que restavam”, disse uma pessoa próxima ao ministro. Ela ressaltou ainda ter acontecido uma pressão “absurda” em todos os integrantes da equipe nos últimos meses. “Era enlouquecedor”.

FORA DO TIME Waldery Rodrigues, um dos técnicos mais próximos de Guedes, será substituído por Bruno Funchal. (Crédito:Pedro Ladeira)

Agora, a expectativa dentro do ministério é que pessoas mais próximas da ala política assumam cargos e que propostas que dependam do Congresso avancem com mais celeridade, já que dentro da Câmara e do Senado Waldery também não era um bom articulador. Em entrevista, Guedes tentou acalmar os ânimos sobre as mudanças. “Estamos jogando em 4-4-2 e nós vamos jogar em 4-3-3. Justamente para facilitar as negociações do Congresso”, disse, ao fazer uma analogia com futebol. Com esse aceno, Guedes também tenta diminuir a pressão política para recriação dos extintos ministérios da Fazenda, Planejamento e Trabalho, que foram fundidos no superministério da Economia no início da gestão Bolsonaro.

Para Jussara Ferreira Marques, cientista política e professora da Universidade de Brasília (UnB) Guedes se encontra em seu momento de maior vulnerabilidade desde o início do governo. “Ele sabe lidar com a pressão do mercado, mas a pressão política é algo novo para Guedes”, disse. Para ela, a reformulação adia o problema, mas não resolve. “O Centrão vai parar agora, mas vai voltar a fazer exigências em breve.” Acuado e sem ter poder de barganha, Guedes tem poucas cartas na mão e precisa usar com sabedoria, porque o Centrão sempre tem uma carta guardada na manga.

COISAS QUE APRENDI COM MEU CHEFE

Enquanto as especulações se o Ministério da Economia seria, ou não, invadido por políticos do Centrão cresciam o ministro Paulo Guedes tratou de lançar uma cortina de fumaça para desviar o assunto – e sabemos com quem ele aprendeu essa tática. Minutos após terminar a coletiva, o ministro foi “flagrado” falando o seguinte: “o chinês inventou o vírus, e a vacina dele é menos efetiva do que a americana”. Era o que precisava para as manchetes mudarem. E não sem razão. O ministro da Economia, o comprador de vacinas, fazendo abertamente diferença entre os vendedores? Qualquer código de compliance condenaria isso. Mas nenhum deles foi feito pelo chefe de Guedes. Bastou horas para o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, lembrar que o país é o principal fornecedor de vacinas e insumos de imunizantes ao Brasil. “A vacina chinesa é a vacina brasileira”, disse, em alusão à CoronVac, feita pelo Instituto Butantan. O próprio ministro, inclusive, tomou a vacina do Butantan. O problema não é a nacionalidade da vacina, a intenção é só desviar da verdadeira pergunta. (Paula Cristina).