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O polêmico do Twitter

O bilionário Elon Musk, fundador da Tesla, tem usado a rede social com a mesma intensidade que o presidente Donald Trump. Mas, para ele, as consequências podem ser mais sérias

Crédito: AP Photo/Cathleen Allison

Boca aberta: tuíte sobre o fechamento de capital da Tesla rendeu investigação do órgão regulador de mercado dos EUA (Crédito: AP Photo/Cathleen Allison)

Nos últimos meses, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem de conviver com a concorrência no Twitter. O empresário Elon Musk, conhecido por sua personalidade forte, tem abastecido seus 22,3 milhões de seguidores com opiniões excêntricas e controvérsias. Se Trump escreveu que Omarosa Manigault Newman, sua ex-assessora, é uma “cachorra”, o bilionário fundador da montadora Tesla chamou de pedófilo Vernon Unsworth, líder da equipe de mergulho que ajudou no resgate das 12 crianças presas em uma caverna na Tailândia – os dois posts foram apagados.

O uso da rede social do passarinho azul pelo bilionário que fez fortuna com a criação do sistema de pagamentos online PayPal é antiga. Em 2016, ele prometeu que lançaria um lança-chamas no mercado caso 50 mil bonés com o logo da companhia The Boring Company, também controlada por ele, fossem comercializados. Na semana passada, ele foi além. “Estou considerando tornar a Tesla privada quando as ações chegarem a US$ 420 cada”, escreveu no microblog, em 7 de agosto. Foi o suficiente para Musk virar alvo de uma séria investigação da Securities and Exchange Comission (SEC), o órgão regulador de mercado dos Estados Unidos, por fraude e manipulação de mercado.

Quem ladra: no Brasil, mensagens de Eike Batista na rede social, em 2013, resultaram em uma investigação da Comissão de Valores Mobiliários sobre os negócios da petroleira OGX (Crédito:Afp Photo / Yasuyoshi Chiba)

A mensagem de Musk pegou os investidores de surpresa e fez o valor de mercado da fabricante de automóveis elétricos subir de US$ 58,1 bilhões para US$ 64,5 bilhões em um dia. Poderia ter sido um tuíte de ouro para o empresário – ele próprio ganhou US$ 1,4 bilhão com a publicação graças à valorização de suas próprias ações –, não fosse uma lei que proíbe empresas com ações nas bolsas americanas de expor planos de comercializar títulos sem a real intenção de fazer isso. Três escritórios americanos de advocacia ingressaram com uma ação coletiva contra Musk por considerar que o empresário sul-africano fez “declarações falsas e dúbias ao mercado”, prejudicando os acionistas. “Eu fiz o anúncio [no Twitter] por achar que era o correto e justo a se fazer, para que todos os investidores tivessem a mesma informação ao mesmo tempo”, afirmou Musk. Sob a acusação de ser fraudulento, ele precisou revelar que o fundo saudita Saudi Arabian Monetary Authority Foreign Holdings, que já detém 5% da montadora, estava por trás da ideia de fechar o capital da companhia.

A ação coloca gás nas profecias de que os negócios de Elon Musk estariam condenados à falência. “Essa atitude parece um desespero da parte dele”, diz Juliana Inhasz, professora de economia do Insper. “A chance de uma quebradeira é provável e pode não estar longe.” Antes badalada e tida como revolucionária, a Tesla enfrenta problemas para dar conta da demanda de seus carros, principalmente do Model 3, veículo de preço mais acessível da empresa, US$ 35 mil. Até o fim do ano passado, nem 10% da frota de 200 mil automóveis prometidos haviam saído do papel.

Para acelerar a produção, uma reformulação na linha de produção foi feita e 3 mil pessoas foram demitidas – 9% da força de trabalho. Musk ainda chegou a construir uma fábrica de baterias em Nevada, na Califórnia, para dar suporte à produção de 10 mil unidades semanais, totalizando 500 mil veículos para este ano. No fim de junho, a instalação havia produzido apenas 7 mil carros. Somente um ano após o lançamento, a companhia conseguiu cumprir a meta mensal de fabricar 5 mil unidades por mês. “Ele diz coisas imprudentes e está piorando cada vez mais”, afirma Alex Salkever, analista independente alocado no Vale do Silício. “Isso está começando a atrapalhar os seus negócios.”

Fato curioso é que a história do excêntrico bilionário americano se aproxima da do brasileiro Eike Batista. Em 2013, cinco meses antes de a petroleira OGX, empresa do Grupo EBX, pedir recuperação judicial, o empresário usava o Twitter para anunciar a produção e as descobertas de petróleo da companhia. As ações da empresa chegaram a ser negociadas a R$ 2,3 mil cada. No pregão de quarta-feira 15, cada título estava sendo vendido por R$ 2,89. Apesar dos esforços de Batista de superinformar os investidores, as reservas de óleo que a OGX exploraria existiam apenas nos discursos fantasiosos do empresário. Ele foi acusado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) de manipulação de pregão com suas mensagens nas redes sociais. O caso ainda não foi julgado. Quando questionado sobre as dificuldades de levar seu negócio para frente, Musk diz que “empreender é como comer vidro”. Talvez, agora seja hora de ele aprender outro ditado: em boca fechada não entra mosca.