Edição nº 1082 10.08 Ver ediçõs anteriores

O passado bate à porta

O passado bate à porta

A Argentina volta a viver um velho pesadelo. Parece replay. O câmbio entra em parafuso. Os juros vão à lua – na semana passada alcançaram a indecente taxa de 40% no mês. A inflação reacende. A incerteza retorna à rotina. E, para completar, o Governo teve que bater na porta do FMI pedindo socorro, após 15 anos fora de suas garras. Deve pendurar um papagaio da ordem de US$ 30 bilhões na Instituição. Pesadelo dos grandes. A relação entre o Fundo e a Argentina nunca foi serena. Ao contrário. Lá atrás o país deu calote. Não pagou o que devia e ficou alijado do mercado internacional por vários anos. O novo pedido à banca é, decerto, o maior dos retrocessos. Muda a lógica de funcionamento da gestão Macri.

Inevitavelmente seus ministros terão de atender ao receituário que virá de fora. O presidente não é, diga-se de passagem, o principal responsável pela bancarrota que agora se evidencia. Ela vem ainda da administração dos Kirchners. O problema de Macri foi demorar na busca por soluções. Ele corrigiu vários erros, mas ainda assim de maneira lenta. A crise se aprofundou. Seus conterrâneos temem agora o trauma social passado de maneira penosa entre os idos de 1989 e 2001. Mais que uma década perdida. Alguns planejam a debandada. Especialmente os jovens estão atrás de opções no exterior. De empregos em especial. Um drama vivido agudamente nas nações em crise – Brasil entre elas.

O temor de que os maus ventos na Bacia do Prata contaminem o resto do continente aumentou. Por aqui essa preocupação ainda é pequena. A realidade dos fundamentos macroeconômicos lá e cá é bem distinta. O mundo cambaleante da Argentina pode ter efeitos mais nefastos em outros parceiros do Mercosul. Uruguai, por exemplo, e mesmo o Chile podem sentir. As exigências do FMI atualmente não são pequenas. O acordo do tipo “stand-by”, que é um tipo de empréstimo usado para sanear a balança de pagamentos, pressupõe sacrifícios agudos no campo dos gastos e investimentos e traz juros sobre juros no plano de quitação.

É uma modalidade conhecida dos argentinos que, em outros tempos, atribuíram a esses “compromissos insanos” a maior razão para a sua quebra. De todo modo, dizem os aliados de Macri, não havia outro jeito. Ou era o FMI ou a insolvência. Será necessária, entre outras medidas, uma recalibragem das políticas em curso para uma redução rápida do déficit fiscal. Leia-se mais impostos, menos crédito e práticas monetárias restritivas. Tempos difíceis apresentam-se pela frente naquelas paragens. Que os hermanos consigam sair dessa logo. Para o bem de todo o bloco.

(Nota publicada na Edição 1069 da Revista Dinheiro)


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